terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Romance Terra de Marataoan



CAPÍTULO 12

Certa noite, no Bar das Estrelas, como conheciam o famoso bar da rua do Brega chegava Marcos Filho, animando a conversa com cervejas para as meninas e isso, acelerou as horas; às dez retirou-se os mais novos por causa da polícia.
Nessa mesma noite resolveu Marcos Filho dar um golpe decisivo; resolveu não querer pagar a chave do quarto. Era temerário para quem conhecesse o caráter da irmã da viúva; mas, com os precedentes já mencionados, era loucura.
Entretanto, não hesitou o homem em querer desafiar a paciência da mulher. Rosa Clarice interveio.No dia seguinte, logo depois do café da manhã, Rosa Clarice meteu a cara dentro da delegacia, perguntou pelo moleque que estava na porta do lugar, desses que gostam de está na delegacia só para sentir-se polícia, se o delegado estava.
A viúva rompeu porta adentro, e pôs a conversa ao delegado; meia hora depois o soldado Sousa voltou e pegou o Marcos Filho já chegando pelos matos do campo santo do são José para o lado do bairro Pequizeiro. Apenas abriu a cela, prendeu o homem lá. O escrivão passou a datilografar e leu o seguinte:
"Qualquer que seja a causa da sua esquivança no pagamento da chave do quarto e da meretriz, respeito-o, mas não insurjo contra a mulher não paga-la. Mas, se não é dado  insurgir, é lícito a mulher queixar-se. Há de ter compreendido o amor pago, do mesmo modo que tenha compreendido a indiferença em não pagar o valor. Rosa Clarice voltava para o bar com o dinheiro em mãos.
Nada realmente que pagasse as insônias e as lágrimas da mulher, mais o dinheiro trazia a esperança e os encantos, páginas tristes desta vida fácil a que o destino põe nas mãos de mulheres. Na idade das paixões férvidas, ornada pelo céu com uma beleza rara, por que motivo queria esconder-se ao mundo e defraudar a natureza e o coração de seus incontestáveis direitos de prostituta.
Quando Rosa Clarice disse à mulher o que o escrivão havia escrito no depoimento, a mulher falou com um medo despregado.
- Fiz mal? Perguntou Rosa Clarice.
- Nada.
Os outros pretendentes também respeitarão o estabelecimento.
- Paciência, se acontecer de novo, disse Rosa Clarice levantando os ombros com aparente indiferença; o delega toma conta.
- Não vai acontecer de novo!
- Sem dúvida, se fosse possível, respondeu a mulher.
Rosa Clarice no bar da rua do Brega não tinha intenção característica de perder dinheiro ou ver alguma mulher maltratada por nenhum homem. Marcos Filho ficou preso na cela, onde passou a noite em claro pensando no que tinha feito. Depois do incidente, Rosa Clarice esperava por uma moça que viria chegar das bandas dos Mimosos.
Rosa Clarice uma mulher de fibra e com muita luta tocando o negócio do falecido marido, como a temos visto até aqui, estava no bar vendendo umas cervejas para uns homens que tinha chegado das bandas da serra pelada no Pará.
Passeava, pelo balcão do estabelecimento, a jovem Gonçala que conversava e parecia inteiramente alheia aos planos que se tramavam em roda dela. Vinte minutos foi o tempo que a mulher levou para chegar à mesa dos homens contando intimidade.
Nessa chegada até os clientes era sempre a mesma, fria, indiferente, impassível aos olhares maliciosos. Não havia olhar, por mais sedutor e significativo, que a abalasse; nem a idéia de que a beleza da dona do bar era capaz de desanimá-la.
- Por que, ao menos, um desses homens ricos não é capaz de me amar por uns cruzeiros. Falou a mulher.
Depois disse Rosa Clarice.
- Por que não procura entreter um desses homens, que tanto lisonjeiam a sua vaidade de mulher?
Esta pergunta feita por Rosa Clarice a amiga Gonçala, sob a impressão da estranheza que lhe causava a indiferença dos homens. Ela não compreendia que o homem pudesse conservar-se diante das cervejas geladas e não reparar nos encantos da prostituta. Mas infelizmente comportavam-se assim.
Cansada de desfilar em vão, a mulher determinou dar um golpe mais decisivo. Encaminhou a conversa para as doçuras do quarto e lamentou o estado de embriaguez de um deles que mal ficava sentado na cadeira.
Uma hora depois o casal, um tipo perfeito de felicidade efêmera fechava acordo e direcionavam-se para o quarto dos fundos do bar.
Apresentava-o aos olhos de Rosa Clarice como um incentivo para quem queria ser venturosa na cidade. Nada, nem a tese, nem a hipótese, nada moveu a frieza da mulher diante do galanteio de Veras. Para Rosa Clarice o olhar do homem jogava um jogo perigoso.
Era preciso decidir entre os seus desejos de sexo e as conveniências da sua posição como dona do estabelecimento; mas ela era de um caráter imperioso; respeitava muito os princípios da moral severa, mas não acatava do mesmo modo as conveniências de que a sociedade barrense cercava essa moral por morar na rua do Brega.
A vaidade impunha-se no espírito dela, com força prodigiosa. Assim que a bela viúva foi usando todos os meios que era um tanto lícito empregar para fazer o cliente Veras se apaixonar por ela, chegava ao bar à guarnição do tenente Ribamar.
O cliente indesejado naquela hora, mas, a mulher um tanto apaixonado por ele, desviou-se da tentação momentânea. Assim que apareceu o tenente Ribamar tinha ido pegar o almoço; o delegado entrou para a cozinha, a fim de arrumar as marmitas, pois o estomago parecia guiado por forças ocultas; depois que a guarnição rumou para delegacia, Veras pagou a conta e também saiu.
O cliente Veras com uma cara contristada, até o momento que Rosa Clarice correu para ele.
- Que é isso? Perguntou ela.
- Ah! Minha deusa... Sou o mais infeliz dos homens!
- Por quê? Venha sentar-se...
Veras se sentou, ou antes, deixou-se cair na cadeira. Esta tomou lugar ao pé dele, animou-o com mais uma gelada por conta da casa.
- Então o que falta?
- Uma coisa, respondeu ele.
- Quer me levar para o quarto?...
- Sim.
- Qual o preço dessa beleza? Perguntou Veras.
- 50 cruzeiros.
Veja isto. Ele retirou da carteira uns cem cruzeiros. O homem tirou da carteira uma quantia bem acima do valor, a cédula cheirando à nova encantou Rosa Clarice. Ela pegou para si. Eles foram para o quarto.
Quando acabou, perguntou-lhe:
- Que me diz?
- Não compreendo, respondeu Veras.
- É a mais bela.
- Sim, e depois?
- Depois o que?
- Ah!
- Dizer-lhe o que senti quando fiquei com você, é impossível. Nunca tremi na minha vida!
- Ânimo! disse Rosa Clarice.
E depois de um silêncio continuou:
- Tranqüilize-se. É capaz de guardar um segredo? O que lhe vou dizer é grave. Trata-se de vingar o nosso sexo ultrajado; trata-se de fazer com que a sociedade nos respeite... nada mais.
Veras estremeceu.
- Sim? Perguntou ela.
- É pura verdade. Mas veja lá, se isto é segredo. Não me comprometa.
- Ah! disse o homem.
- De que se espanta, meu caro?
- De nada! de nada!
Os dois ficaram no quarto. Veras acendeu um cigarro de palha e vestiu as roupas e saiu; Rosa Clarice afetava grande distração, mas olhava sorrateiramente para o moço. Este, apenas soltou duas fumaças, voltou-se para a mulher e disse:
- Como vai com o delegado?
- Com o tenente Ribamar?
- Ah! eu sei que ele é forte... É modesto, mas é forte... e até fortíssimo!
- As mulheres não o deixam sem uma afronta, sem castigo...
- Vou sair. Adeus.
Veras apenas riu, mas com um riso amarelo.
- Obrigado, obrigado. Até logo!
- Venha cá, onde vai?
O homem saiu precipitadamente. Rosa Clarice ainda o acompanhou com os olhos.
- Que tem que eu ter um caso com o homem da lei?
- Tem tudo. Seria indiscreto sem querer e até sem saber.
Da porta do bar, Rosa Clarice com outras mulheres assistiam à cena da policia tapeando um bêbado que bagunçava no bar. Choravam silenciosamente, enxugando os olhos vermelhos.
O homem esbofeteara Gonçala e da viatura, elas batiam palmas vendo o soldado algemando devagar o meliante, atrás do lento camburão, a dona do bar vendo triste a cena minutos atrás e covarde contra amiga, sentia a agudeza da violência do homem contra a mulher.
Algumas transeuntes, sem ir mais longe, começavam a balbuciar a palavras contra o homem preso. Dentro do camburão seguia cabisbaixo, pensativo, abanando lentamente a cara descarada.
Gonçala alongou os olhos para o homem na viatura. Depois olhou o soldado magro que, bem pertinho, mastigava sem ânimo um chiclete com cara de mau. E ao dar as costas, rumo à cadeia, de cabeça elevada com o gorro sentindo nos olhos secos a valentia do homem nordestino sem frescura e acostumado e arquejar no peito largo, murmurou firmemente:
- Aqui é a polícia rapaz!

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Romance Terra de Marataoan



CAPÍTULO 11

Delegado Ribamar peito de aço assumia a delegacia há pouco tempo, ele tinha servido no retiro da Boa Esperança. Um homem de temperamento forte, uma barriguda saliente que a gandola saia pelo cinto de guarnição e um bigode dobrado nas pontas e amarelada pelas baforadas de cigarro.
A velha delegacia perto do mercado público, um lugar que atopetava no povo repugnância, sordidez com celas que exalavam um odor pútrido.
À hora anunciada das vinte e duas horas, o delegado subia a rua Gervásio Pires para a Praça Sen. Joaquim Pires Ferreira indo até o Centro Operário e começava a ronda no Camburão, como conheciam o veículo preto da polícia, uma Caravana 79.
Naquela época metade dos adolescentes sentia-se aborrecidos, quando tinha que dormir mais cedo, assim que acabava a retreta na praça monsenhor Bozon. A razão era simples. Controle da violência nas altas horas,  aversão à marginalidade e outros delitos, o povo tinha no homem do apelido de Peito de Aço, o prazer da segurança e da tranqüilidade.
O homem autoritário gostava de prender gente só para mostrar o poder que tinha. Zeferino, magarefe dos bons trabalhando no mercado, levantou cedo naquele sábado, o dia parecia não ser um dos bons, assim que subiu a praça monsenhor Bozon levou uma topada. Ele descia caminhando lentamente com o dedão do pé doendo e a unha marejando sangue pela rua 10 de novembro.
O homem assoviando a música de Geraldo Vandré quando passava bem de frente da cadeia pública. Quando quebrou o quarteirão entrando no mercado sentiu o peso de uma mão nas costas.
- Queira me acompanhar, você está preso!
- O que foi que eu fiz?
- Está preso porque é um subversivo!
Subversivo! Aquela palavra não costumava fazer parte do vocabulário do magarefe, mas naquela época em Barras cantar a música de Geraldo Vandré era pedir para ser recolhido a uma cela e logo na frente da delegacia.
O tempo que durou a detenção do homem, não demorou a água de passar o café ferver, logo chegava um portador do prefeito Mundico Goma para soltar o meliante. Cidade pequena o povo já sabia, o delegado prendia, o prefeito soltava. Garantir um voto nunca era demais.
Quando terminava a ronda, ele entrava apressadamente no bar da viúva Rosa Clarice, na popular rua do Brega. A dona do bar, uma linda morena de cabelos longos e escuros, no alto dos trinta e três anos e cujo marido da mulher tinha morrido pelas bandas do garimpo, lá no Estado do Pará, vítima de uma malária.
Ele, honrado trabalhador, meio endividado com os negócios do bar que possuía na rua do Brega e a boa vontade de trabalhar no garimpo atrás de ouro para enricar; ela, uma jovem senhora muito estimada por suas virtudes, mas de uma alegria invencível, depois de tomar umas doses de aguardente.
Rosa Clarice sentia a tolice na forma de pecado. Ela odiava homem mesquinho ou que pedia uma contraproposta ao preço dos seus serviços. Na mulher habitava um espírito no corpo que viciava. Quando não dava muita atenção aos clientes no Bar das Estrelas, a índia do Brega compensava os adoráveis com os remorsos que ela tinha que saciar.
Delegado Ribamar peito de aço um mendigo a exibir sordidez. A contrição que conhecia amordaçava suas atitudes. O homem alimentava por Rosa Clarice o alto preço do amor confessado e alegre pelo sofrido lado lodoso da vida da amante.
Desde que o falecido fizera a viagem, Rosa Clarice dividia-se na ilusão de que o pranto e as nódoas não se desfaziam com outros amores. Quem docemente consolava seu espírito, o homem da lei, o metal puro da vontade de fazer justiça e feliz a donzela.
Dentro das trevas da noite no Bar das Estrelas o cheiro de nauseia e vômitos ganhava os ares. O beijo de Rosa Clarice voraz e devasso sugava os lábios murchos do delegado que lhe ofertava o amor comprado.
Ela uma mulher que quase todos furtavam uma carícia por mais esguia que fosse. A índia do Brega adorava espremer as espinhas do rosto enrugado do homem da lei.
- Por que faz isso?
- Prazer.
E num bocejo imenso que engoliria o mundo, o delegado Ribamar peito de aço dormia e roncava feito o motor da usina velha de eletricidade. O olhar de Rosa Clarice não esquivava à mínima emoção daquele ato. Rosa Clarice e o delegado Tenente Ribamar colocavam-se ambos no lugar de amantes e facilmente o delegado fazia às vezes de esposo de Rosa Clarice pondo as regras da mulher no mês, por dias a atrasar.
Ouviu-se então um grito, e o homem correu do quarto dos fundos do bar para fora. O soldado Sousa chegava com falta de ar nos pulmões e quase desmaiando. O delegado Ribamar teve de parar o serviço, enquanto se punha a levantar as calças e afivelando o cinto de guarnição, perguntando qual o incidente. Mas, por uma porta aberta que a mulher deixava, pôde o soldado ver o rosto de Rosa Clarice deitada só com as peças íntimas.
O soldado Sousa avisava do preso Ramires ladrão de galinha que tinha fugido. Ele próprio não sabia o que se passou na cela. Mas o que se passou foi que, mal prenderam o homem, ele tinha empreendido fuga do cárcere o que costumeiramente acontecia na cadeia pública.
Então que outra coisa acontecia: a conversa do soldado sem nexo, com assunto vago, um verdadeiro delírio que tinha outro objetivo, também usar a viúva para uns serviços ocultos.
O bar de Rosa Clarice recebia meninas de outras partes, geralmente abandonadas pelos pais após perderem-se na vida ou ficarem desonradas. Uma delas que chegara da banda dos Mimosos, chamava-se Gonçala da Piedade do Chiquim Matoeiro.
Uma moça com rosto de mulher rica, e veterana na arte de ganhar dinheiro fácil. Com os dezoito anos já se mostrava muito experiente e capaz de grandes feitos na rua do Brega. Gonçala a musa da alma do Bar das Estrelas, uma jovem amante digna de palácios, quando enchia a cara de cortezano, o corpo da mulher desatava ventos, debaixo do vestido de chita negro que escondia a brasa que esquentava os pés violáceos do homem mais gélido que por ali aparecesse.
Ela tinha sido íntima de Rosa Clarice, que se apresentou como patroa, vindo a ficar amiga íntima dela depois que o marido morrera. Gonçala acompanhava os amigos que vinham ao bar, até os últimos instantes.
Sempre no final de tarde aparecia Gonçala, toda galhofeira e viva como se começasse para ela uma nova mocidade, uma nova adolescência. Abraçava a todos no bar; dava beijo no delegado Ribamar, a quem se oferecia com envolvimento das suas graças.
- Não ria de mim, dizia ela.
- Pobre amiga! Quer morrer nos meus braços?
Gonçala não sofria com a monotonia da vida que levava no bar de Rosa Clarice, ela alegrava-se com a presença dos homens que vinha do interior, verdadeiros fogos de artifício na cama ou apenas efêmeros traques. Certa vez a mulher pareceu não simpatizar com um deles. Quando Gonçala viu o homem, disse:
- Sinto muito, mas nada sério com você.
- Crer que eu não sou sério demais. O rapaz ria...
Não sei que incidente interrompeu a conversa dos dois. Mas  depois de beber muito no bar, Gonçala, dizia ao rapaz:
- Não quero ficar contigo.
- Quinze cruzeiros.
- Nenhum centavo para você.
- É boa demais, né rapariga!
No dia seguinte verificou-se que o rapaz havia esbofeteado a mulher. Estava o delegado Ribamar a procurar o homem agressor. Ele, o único filho do prefeito Mundico Goma, mas ficou por aquilo mesmo.
A chegada de Maria Quitéria levou uma animação no bar de Rosa Clarice; a mulher irmã dela, com olhos e ouvidos de mãe, achava que a irmã, a mulher mais engraçada do mundo; mas a verdade é que não havia em toda a cristandade espírito mais frívolo do que o da Rosa Clarice. A irmã ria-se de tudo quanto ela dizia. Era tido como a machona no Bar.


Romance Terra de Marataoan

                                                                                                                                                     
CAPÍTULO 10                                                                                            

Conversando a patroa dona Mara Rúbia, Maria da Conceição emendava:
-Barras é que é o lugar, disse ela. É lá que quero ir morar com meus filhos.
Não conhecia muito a cidade; mas podia mais ou menos saber o que as circunstâncias na zona urbana acarretariam nas vidas deles, uma grande mudança. Tem serviço dado pela emergência para fazer a barragem da Boa Vista.
Mais ela redobrou a atenção no como ganhar o pão de cada dia, lá na cidade, o que iria fazer para trabalhar. Antes de viajar, continuou a mulher, um movimento de espanto seguiu-se a um movimento de ansiedade.
-Como seria em Barras?
Lembrou-se que quando mais moça fora namorada de um rapaz que morava por lá, e por um momento lisonjeou-se com a idéia de que o velho amor se houvesse se lembrado dela, quando passou por aquele fim de mundo vendendo bugigangas. Contava piamente com a ajuda do irmão que morava lá.
Ela uma mulher dado ao gênio de sonhadora, imaginava na cidade de Barras, um legítimo oásis ou fonte de emprego e prosperidade para a família, enfim a “Terra dos Governadores” seria o lugar que realizaria os sonhos quando partisse do decadente interior do município.
Na porta de entrada do rosto da mulher, um par belo de dois olhos escuros, um cabelo encaracolado e negro e muita força de vontade de vencer.
Desde que viesse do interior para a cidade, Maria da Conceição, uma sonhadora em questão teve que ser vaporosa e ter um ideal como meio de realização de seus sonhos e sobrevivência da família de três filhos e ainda suportar o abandono do marido.
Ela via o contraste de como difícil conseguir o alimento e como que lutava pelo trabalho duro nos babaçuais no dia a dia. O chá de erva cidreira ás vezes costumeiramente o café e o leite da família e servia a alimentação adicionando massa de goma feita os beijus, doados pelos vizinhos para acudir às urgências do estômago dos dois filhos maiores.
Ás vezes ela tinha vontade de ir rapidamente para a cidade de Barras e isso se percebia pela fala angustiada nos lábios trêmulos de murmúrio como harpa tocada ao vento; o seu amor pela família, pela vida transformava-se na angústia e desespero da falta de dinheiro e a miséria companheira constante como um suspiro da falta de condições sociais.
O marido viajara pra bandas do Maranhão e após seis anos sem dar notícias, retornou numa correspondência o fim do casamento, o desfeito terminou que Maria da Conceição abandonada por ele não tinha mais esperanças da união. A figura da pobreza e os sonhos na vida da mulher não são os temas principais que contarei da heroína desse romance e sim o conveniente sonho da oportunidade de trabalho na cidade de Barras e a ação dos políticos da época em períodos de eleições municipais.



segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

LANÇAMENTO PARA 2012 DO EBOOK DIGITAL JOGO BAIXO AGUARDEM!!!

Romance Terra de Marataoan


CAPÍTULO 09

Quando amanheceu Maria da Conceição riu, olhando para dependurado na parede, o quadro de nossa senhora da Conceição com o menino Jesus nos braços.
Chegava de bicicleta na estrada, a prima Maria com as cabaças para encher de água no poço da casa do quitandeiro Flor.
- Mas, Conceição, eu tenho tanta pena da barraquinha de café! Como é que tu vai viver nas Barras?
A voz dolente da prima Maria novamente se erguia de consolações.
A mulher levantou-se cedo para acordar o menino tampinha que acordou meio com preguiça.
- É madrugada ainda mãe.
- Quem cedo madruga, Deus ajuda!
Passarinhos desafinados, no mandacaru espinhento do terreiro, cantavam uma canção alegre e repetitiva. A barra do dia foi avermelhando-se no céu. As galinhas começavam a comer uns poucos grãos de milho guardados dentro de um litro de óleo dureino.
A mulher enfiou o corpo numa saia e uma blusa do vereador Rui Rosas e foi cuidar do café. O menino tampinha deitado na rede, sentado, com as mãos pendentes, descansando os pulsos nos joelhos, o pensamento vagando numa confusa visão de boa ventura e fortuna.
- Te levanta tampa ruim! Aproveita e vai lá ao poço do senhor Flor com a Maria para encher as cabaças d’água.
Pouco a pouco, porém, com a luz do dia que entrava pelas frestas da janela, foi-se o menino sonolento, ainda, esfregando os olhos, espreguiçando-se em bocejos rasgados. O dia com a máscara sórdida das trapaças da noite anunciava-se com a face torcida e de esquisito aspecto com nevoeiros crispado e feroz circunspecto por todos os lados. Oculto por detrás do semblante que faz a mente reter, a magnífica beleza que embriaga a alma, os raios do sol jorrando luzes no romper da aurora submetiam-se na tumultuosa luta do defloramento das névoas.
Quando passou pela porteira do curral, gritou ao Raimundinho do João Tomaz:
- Cadê meu litro de leite Raimundinho!
O vaqueiro respondeu:
- Ah, sim, Tampinha traz a vasilha...
O dia começava frio, o nevoeiro quase se dissipando. Raimundinho do João Tomaz abriu a porteira e tangeu as reses, que saíram devagarzinho. O homem montado na garupa do cavalo manga larga, o famoso Raio do Norte, saia a galope baixo levantando poeira dos cascos do animal atalhando o gado e levando-os para o riacho.
O vaqueiro batia no lombo do animal com o chicote que na teimosia se encolhia todo. Segurando o cabresto, e, voltando-se para o menino com olhar de soslaio, já quase perto do poço:
-Deixei o litro separado em cima da porteira!
Na casa de Tampinha, a chaleira em cima do fogareiro fervia a água para coar o café. O cheiro do cuscuz feito de milho ganhava os ares. O leite doado pelo vaqueiro Raimundinho do João Tomaz levantava na vasilha e derramava pelas beiradas. Maria da Conceição com a trouxa de roupa na cabeça se dirigia a quitanda do senhor Flor para entregá-las goma das.
Na entrada da quitanda de batente alto com três degraus salientes, o cheiro de fumo e cuspida das pingas de cachaça pelo chão batido exalava um cheiro esquisito, um cheiro envelhecido.
As bicicletas apoiadas nas cercas outras encostadas na sombra do grande pé de juazeiro com folhas secas, nos fundos do cercado de arame defronte a solta da quitanda com uma foice afiada dos cabras bom de serviço, Zé Lustosa ia pouco a pouco mutilando os pés secos de milhos para levar para forrageira e moer para dar ao gado.
Gritando do outro lado do variante vinha tocando as poucas cabeças de gado, o vaqueiro Raimundinho do João Tomaz.  Cavalgando em cima do Raio do Norte, cavalo afamado das vaquejadas da região do santo Antonio, lá em Nossa Senhora dos Remédios, tinha conquistado o último campeonato de vaquejada do Peixe, como conheciam o lugar.
Ele tangia as poucas reses magras, com grandes ossos pontiagudos furando o couro das ancas. Algumas até paravam para comer o capim perto do campo dos meninos jogarem bola e comia debaixo da trave velha do goleiro Bernardo, o pouco oásis de capim espalhado no chão.
Maria da Conceição entrava na casa do quitandeiro. Acertava o dinheiro do gomado com dona Mara Rúbia e falava para a patroa que era rara e alarmante, em janeiro, ainda o senhor Flor lutar com o pouco gado. Raimundinho do João Tomaz apeava na porta do curral. Contava ele ao patrão de longe no cercado sobre mais uma rês que morrera perto do cemitério da entrada da Boca da Mata e a cada dia iria morrer mais se continuasse daquele jeito. 
O pasto seco, também a água do riacho da entrada da Boca da Mata secando e cada vez mais fina, no barranco amarelado do barro com uma camada esverdeada não servia mais para o gado.
Fechando a última estaca da porteira do curral, Raimundinho gritava ao menino Tampinha que quebrava uns cocos babaçus perto do poço, a fim de comer o gongo para ele tanger a vaca que entrava na outra solta.
- Eh! Tampinha, olha a vaca malhada! Tange ela pra cá!
O menino corria com o cavalo feito de carnaúba e olhava para o animal que se encurralava na cerca de arame que dava para a casa da farinhada.
- Eh vaca. Eh vaca! Vaca veia!
-  Largua essa vaca menino! Deixa de caçar a tentação!tu já encheu as cabaças? Dizia a mãe do menino lá da cancela da cozinha.


sábado, 3 de dezembro de 2011

Romance Terra de Marataoan


CAPÍTULO 08

Quando fixou residência na beira da estrada, a primeira idéia de Maria da Conceição foi colocar uma banca de vender café para os viajantes que costumavam esperar o ônibus da Princesa do Sul vindo do Peixe e de Porto dos Marruás.
Depois de se benzer segurando nas mãos, o rosário de nossa senhora da Conceição que comprou quando foi para os festejos em Barras, a mulher concluiu:
-Nossa senhora da Conceição é deu superar tudo isso. Amém.
Maria da Conceição, que fazia um penteado no cabelo da menina Esperança sentado na rede de tucum, interpelou-a:
- Quando vai chover Meu Deus? Já chegou o mês de janeiro, mês das chuvas... Nem dar para apanhar água na cacimba da entrada do Barreiro do Otávio.
O menino Tampinha amarrava a porta de esteira com embiras. Ele levantou e arregalou os olhos para o nascente com a vermelhidão do sol nos céus:
- Tenho fé que ainda chove!
Depois a mulher se dispôs a esticar umas roupas com o ferro de brasa quente, engomando umas peças de roupas da família do quitandeiro, o senhor Flor.
Ela ordenava a menina Esperança para recolher as xícaras e o menino Tampinha para abanar o fogo e espiar se as brasas não iam apagar. O bule, sob o pequeno girau feito de talo de babaçu e outros trens secavam com as últimas réstias do sol morno.
- O café não tem leite e nem mistura. Falava os meninos.
- Mas tem farinha de puba. Dizia a mulher quando terminava o gomado da roupa. Ela levantou-se e pôs-se a passar mais café, calada, abstraída, imaginando não ter uma mistura na janta dos meninos.
A menina Esperança ainda falou alguma coisa antes de comer, mas bebeu cada gole de café com o punhado de farinha de puba na vasilha de manteiga e foi se deitar no quarto.
-A bênção, mãe!
E Maria da Conceição, abastecendo de querosene a lamparina pendia o braço abençoando. Encaminhou-se para a cozinha amassar a goma do bolo e quebrar ovos para de manhã, vender na banca. Colocou a lamparina sobre o fogareiro, bem junto da panela com o pregado do arroz de meio dia. Encheu a panela para o resto de o pregado soltar e deixou de molho.
- Mês que entra vou ás Barras!
Ela pensava em comprar metros de fazenda de pano para fazer um vestido para a Esperança, a primeira comunhão da menina.
- Falta vender mais cinco quilos de coco para interar o dinheiro.
Depois de algum tempo foi à janela olhar se a Princesa do sul vinha na estrada.  Seis e meia, o menino tampinha foi arrumar a banca de café a fim de guardar a garrafa de café com os copos.
As palhas da casa balançavam com o sopro do vento frio do começo da noite que lhe arrepiava os braços. No decorrer da noite, ele deitou-se vestido, assim que a mãe terminou de fazer o bolo. Deitada na rede de tucum, Conceição levantou-se, foi novamente a janela olhar se o ônibus já vinha. E voltou a deitar, e ligando o rádio ABC para escutar ás notícias da voz do Brasil.
Mas, pouco a pouco, cansada da luta diária e deitada na rede de tucum, ela ficou a imaginar a vida. Deitada, vendo à luz vermelha da lamparina, que ia enegrecendo o alto do teto da casa com a fumaça preta do óleo diesel.
A noite calma, enquanto ouvia vindo um pessoal das bandas do Lameirão, a mulher ouviu do quarto os gritos seguidos de gemidos altos; correu até a porta, achou um homem todo ensangüentado que chegava na garupa da bicicleta.
O homem tinha sido furado de faca numa briga. Maria da Conceição queria saber da confusão, e correu à porta da casa mandando o homem sentar no tamborete para esperar o expresso da Princesa do Sul que vinha de Porto dos Marruás.
- Quero saber de uma coisa? Perguntou ela.
- Que é?
- Como aconteceu essa desgraça?
- O Zé Lopes furou o irmão por causa dos porcos que entraram na roça dele.
Neste momento compadecendo-se do homem, Conceição falou.
- Coitado! É sério?
- É sério.
- Que horas vem a Princesa do Sul?
- Já está quase passando.
- É a última, há das sete horas.
- Sim.
- Não, não precisa se preocupar, ele não vai morrer.
Depois que se preparam e embarcam no expresso. A missão, o hospital Leônidas Melo em Barras. Entrando na cidade, pareceu-lhes uma iluminação. Estavam mudados na física dos rostos e moralmente. As vinhetas decadentes dos gemidos do homem esfaqueado iam-se passando.
As pálidas necroses dos portes faziam um enorme desafio de romper a escuridão das ruas. Retorcendo-se numa pose inusitada na poltrona do ônibus o pobre moribundo sentia os encantos da terra de marataoan ao gosto dos barrenses.
Era com certeza a dor e o remorso de terem se precipitado na confusão como forma de resolução dos problemas de terra. As lágrimas e as consolações vieram ao fim da viagem do mocambo a Barras.
- Agüenta firme rapaz!
- Estamos nas Barras.
- Chegamos nas Barras?
- Sim, na entrada da Boa Vista. Começo da rua. Passando pelo DER. Balão do Sindicato. A rua grande.
-Vamos descer antes da agência dos ônibus da Leônidas Melo.
Os dois homens estremeceram; mas o esfaqueado nada viu.
- Tu têm que da parte, dizia um dos homens.
- Será que o delegado chama ele na grande?
- Com certeza, com o peito de aço não tem conversa.
No dia seguinte, eles partiram de volta para o interior, não sem algumas advertências do delegado, o tenente Ribamar, conhecido nas Barras como o Peito de Aço para que ficassem longe de brigas. Também eles não quiseram confrontá-lo falando em tal assunto com o boletim de ocorrência no bolso e o oficio para entregar ao acusado. O delegado Ribamar peito de aço fumava o cigarro de palha perto da janela gradeada da cadeia pública.
O leito de insônia e possessão que atazanava a vida do delegado centrava-se no infame e atado dos jogos de baralho. O quadro do mercado público recepcionava os jogadores com o baralho nas mãos que cheiravam à carniça no jogo da noite feita um parasita de destruição das famílias. Nos botecos para o lado do Fórum da Justiça com à garrafa debaixo do braço uns bebedores de cachaça suplicavam ao gládio veloz dos palpites sem nexos aos jogadores.
Onze horas, ele olhava a viatura estacionada na rua. Estava para começar a ronda. O soldado Sousa também fumava depressa não se esquecendo das horas. O céu cheio de estrelas que brilhando suspensa no alto demonstrava que as chuvas não viriam.
Uma multidão de pessoas tumultuosas na praça da matriz com as estripulias do Chico Trem, o homem muito conhecido alvoroçava confusão no meio do povo. Ele tinha uma vontade obscura e incerta de ascender, de voar até a torre da igreja de nossa senhora da Conceição e abraçá-la no alto.
A guarnição da polícia tinha o desejo de se introduzir a grandes passos no camburão e atravessar as trevas da noite, na ronda e assegurar a harmonia e o sossego da comunidade.
Depois que o ônibus da Princesa do Sul passava ás sete da noite, Maria da Conceição deitava-se comprimida numa rede sol a sol queria resolveu pender a perna contra a parede de taipa para balançar e não parava de imaginar a cena do homem ensangüentado que a pouco estivera ali.
Lentamente olhava o teto de palha e a lamparina com o facho de luz aceso que exibia uma dança lenta e querendo se apagar. O teto escuro junto com a fumaça da lamparina em cima da mesa sumia quando o vento apagava a luz.
Deus não seria tão punitivo assim com a natureza humana: produzindo a seca, pensava a mulher. Já longe dali vindo da quitanda do seu Flor, vinha cambaleando sem sustentar as pernas um bêbado que foi recostando-se pela parede dianteira da casa.
Para não tombar de vez o homem enganchou-se e na escuridão sem saída resolveu como um velho moribundo dormir ali. O sono da noite não foi o sono dos justos, podia se crer. O que irritava Maria da Conceição era a preocupação constante em que ela andava depois do acontecimento. Já não podia fugir inteiramente a preocupação. Parece que aquela mulher lia na alma e sabia apresentar-se no momento mais próprio a ocupar a imaginação com os problemas do outros.
Á noite exibiam a origem dos sonhos, uns pesadelos fecundos. Conceição sonhava com os filhos e via os em encargos de trabalhos onerosos. Ela sabia que lugar de menino era na escola, qual uma loba fértil em anônimas ternuras acordava do sonho terrível. O menino menor acordava chorando para aleitar-se do universo de suas tetas duras do leite materno. A mulher nutria o menino robusto e esbelto no qual ela gabava-se dos traços de beleza que consagrava o filho.
Netinho sentia a pele macia e tez que o convidava às mordidas e despertava a mãe sonolenta na madrugada fria cujo nevoeiro não se dissipava para ganhar os babaçuais do barreiro do Otávio. Quando terminava de se empenhar no mamar do menino, Conceição concebia na grandeza rara que ardiam outrora com o trabalho no amanhecer.
Tampinha deitado no palco da nudez inocente com os olhos ar remelados via a luz sem brio de a lamparina apagar-se e sentia o tenebroso calafrio das cinco horas da manhã na pele nua.
Maria Luzia sentindo o tédio cruel da língua, logo pendia  os dentes no subir e descer do jogo de se exercitar. A cada dia a língua da mulher sangrava para saber e criar novos assuntos. Os olhos cinzentos cuja luz recordava os lampejos rútilos da arrogância a salutar o monstro cego e surdo do disse me disse da vida dos outros. Ela apanhando água no poço, com a língua dançando dentro da boca era um monstro a deplorar os próprios trajes do ser humano. Dizia para dona Mara Rúbia que os meninos de Conceição estavam feitos troncos cômicos, de tão magros figuravam-se em espantalhos. A velha alfinetava que o menino Tampinha de gordinho tinha o corpo magro, flácido e inflamado de verme.
- Que Deus tenha piedade daqueles meninos.



terça-feira, 29 de novembro de 2011

Romance Terra de Marataoan


CAPÍTULO 07

O povo se apinhava ás multidões na praça da matriz. O dinheiro corria nas barracas de confecções da rua Gervásio Pires que empatava o povo andar por ali dividindo o lugar com as mercadorias. As lembranças do menino tampinha lhe serviam de repasto, ele remoia no pensamento as misturas cinza dos bagaços que o tempo cruzou nos seus passos. No alto da igreja, os acólitos davam as derradeiras badaladas no sino.
As crianças na praça da matriz perambulavam aos gritos no corre-corre das brincadeiras do trisca. Os mais velhos nos ritos eclesiásticos com as folhinhas dos cânticos nas mãos entoadas por lábios trêmulos feitos os leques abanados de lá dos bancos de madeira da igreja pelas beatas.
A novena com muita emoção e os coroinhas de joelhos embebiam-se chacoalhando a campainha e absorvendo a fumaça do incenso. O povo usurpando e rindo destinando os cândidos louvores a padroeira das Barras de Marataoan. Quando o relógio anunciava as vinte e duas horas às lâmpadas dos portes do centro piscavam três vezes até faltar por completo. O rugido do motor de óleo diesel sendo ligado perto da barraca do leilão acelerava espargindo fracos focos de luz quase opaca das lâmpadas incandescentes tornando-as baça e triste, a cara afilada das meninas e meninos que queriam se enamorar nos bancos da praça até mais tarde. Uma das vantagens que o prefeito Mundico Goma fizera em toda a administração municipal foi à interligação elétrica a rede de Campo Maior, mas o maior problema estava na constante falta de energia elétrica.
Maria da Conceição num recanto mal iluminado segurava no braço de Tampinha e ele segurando o da irmã menor, o menino meio gordinho, desses roliços, de cabelos crespos e no meio da cara o nariz redondo e os dedos apertando forte a jóia arrematada pela mãe no leilão.
- Vamos, Marcos, caminha menino! Deixa de lerdeza.
- É cedo ainda mãe! A Esperança nem tá com sono!
- Temos que ir logo, sua tia Marieta dorme cedo. Não calcula que já está tarde não. Dizia Conceição,
- E tu não tem medo da puliça não?
- Eu tenho sim! Dizia a menina Esperança.
Ela puxava a mão do menino enquanto andavam apressados no rastro no rastro dentro do passo no passo. Tampinha se encolhia de medo.
- Você acha que eles prendem menino?
- Sim não está ouvindo, menino, é o camburão da puliça que tá passando.
- Fica velhaco no peito de aço não menino! Raiava Esperança para com o irmão.
Tampinha fazia uma cara de choro. E tomando o braço da mãe apressava o passo.
- Vamos indo, mãe. Parece até que daqui eu estou ouvindo os gritos dos meninos que a puliça prende no camburão...
- Eu não te disse, eu te disse! Falava Esperança.
Maria da Conceição ficou olhando pensativamente, afastando-se, graciosa, e feliz, segurando o braço do menino, levados ambos pela mesma passada, e movida por uma só vontade de chegar a casa na rua Gervásio Pires.
A seu lado, o menino disse qualquer coisa. Despertando a cisma, Maria da Conceição voltou-se:
- O que tu falou?
- Perguntei qual o motivo da igreja não ser de frente pra o rio, mãe, a lá de Porto dos Marruás é a mesma padroeira daqui e é de frente pro rio Paraíba...
- Parnaíba, menino! É rio Parnaíba!
- Estou pensando que foi coisa do padre da época...
O menino calou-se e Maria da Conceição riu:
- Quem te disse isso?
O menino torceu o nariz com a mão, e levantou as sobrancelhas dos olhinhos graúdos.
- Oh! A professora leu no livro Morro da Casa Grande.
- Qual professora?
- Aquela mãe, a do grupo lá da entrada do Barro Preto... Ela leu pra mim e pra os outros alunos...
Maria da Conceição riu novamente:
- Eu nunca soube realmente porque foi.
Quando chegarão à casa, Tampinha ficou calado, afastou-se uns passos da mãe, conversando com Crispim que se aproximara e ainda estava acordado brincando com o fogo da vela e pingando a cera nas mãos. Maria da Conceição fitava-os lá da cozinha.
- Quem brinca com fogo mija na rede! Falou a mulher.
- Crispim é verdade que a puliça pega menino...
- Então, tu nunca viu, fica velhaco com o camburão do peito de aço...
O menino interrompeu a conversa com gargalhadas:
- Ora deixe de ser matuto, tu é mesmo do interior!... Essa história de puliça prender menino é conversa fiada, é pra te fazer medo.
- Tu tem certeza... Acho que é mesmo.
O dedo gordo do menino Tampinha coçava os olhos de sono. Ele correu até uma bacia de água lavou os pés, tomou a benção a mãe e deitou na rede. Estranhou a rede nova que a tia lhe trouxe e armou na sala.
- Eu gosto é da minha redinha ensebada.
O primo Crispim antes de deitar foi á cozinha.
- Olhe, tia Conceição o Marquinhos já se deitou. Ele tá reclamando porque a rede é nova.
A mulher deu uns passos em direção a rede do menino e encolheu os ombros.
- Tá tarde Crispim, deixe pra brincar amanhã!
Lembrando da conversa que teve com o primo, tampinha lembrou que os mais velhos dizem cada besteira.