quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Romance Terra de Marataoan


CAPÍTULO 19

O menino sentado na porta de casa olhando o caminho de areia desenhado pelos pneus de bicicletas via ao longe um animal com passos cadenciados e a cada passo mais perto da porta da casa, o animal com uma língua arreada de lado sob os caninos salivava muito.
Passaram-se dias e dias, até a cachorrinha piaba chegar a casa dele depois de uma longa viagem do interior para a cidade. O caminho do Mocambo para Barras na verdade, um tanto difícil pela estrada de piçarra e muito buraco, e talvez ela se cansasse pelas andanças.
Entretanto, como o espírito do menino lamentava a separação dele com o pobre animal, o destino resolveu uni-los. Bem dizia a mãe que o animal devia está noutra casa lá no interior e a estória inventada pela mulher não convencia o menino.
No fim de dois meses de espera baldada pela cachorrinha piaba surpreendeu a todos na casa. Era final de janeiro, últimos dias da festa de são Sebastião para o começo de fevereiro, creio eu. Houve um grande temporal na cidade com o começo das primeiras chuvas depois de um longo período de estiagem.
Tampinha, que estava na porta de casa, saiu precipitadamente e tomou conhecimento do animal que vinha capengando e muito esfomeada. O resultado foi correr para ajudar o animal que passara dias na estrada. Chegava a cachorrinha toda magra e com cortes. Só diferençava dos outros animais pelos olhos penados e a penugem vermelhada. O menino a pegou e a sentiu no colo muito trêmulo e com os olhos pálidos. Contou para mãe.
Conceição conhecia bem o amor do filho pelo animal, nem era uma grande cachorra assim. Ficou piaba tão viva em corpo e alma moralmente que por sua própria idéia foi dali procurar cheirar os pés de dona Conceição e balançar o rabo  inquietada mente.
Dizia ao pai do céu, o menino tampinha que o agradecia pelo retorno do animal querido, mas que daquele dia em diante pertencia a ele totalmente. O menino ficou maravilhado.



terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Romance Terra de Marataoan



CAPÍTULO 18

O vaqueiro Raimundinho do João Tomaz  interrogado se queria participar da IV grande vaquejada dos Mimosos, concordou com seu patrão Flor que sim. Ele sempre foi o melhor nas vaquejadas. Raimundinho do João Tomaz dizia que derrubar o gado e faturar o grande prêmio do campeonato dava para poder casar com a noiva, Glória do Viveiro e salvar os negócios do homem.
Seu Florindo andava sendo pressionado pelo coronel Regilberto, pai do vereador Rui Rosas por causa de umas contas. Coronel Regilberto pretendia tomar as terras do quitandeiro por ele apoiar politicamente o opositor do prefeito Mundico Goma, candidato Zé de Lauro. O quitandeiro apostava as fichas na conquista do prêmio da vaquejada pelo vaqueiro Raimundinho do João Tomaz e assim saldar as dívidas com o coronel Regilberto.
Numa manhã de segunda-feira ele saiu para fazer a inscrição no campeonato.  Quinze dias depois, o campeonato começaria movimentar a região. Com as dificuldades no interior as vendas na quitanda estavam de mal a pior. Florindo comerciante antigo naquelas bandas com tanta preocupação mal conseguia se arrastar. Andava sempre desolado e chorando, era como um santo roubado do pedestal, e carregava atabalhoadamente preocupação, na confusão de arranjar o dinheiro ao coronel às pressas.
Seu Florindo com a vista nublada se perdia naquele horizonte há tantos anos esquecido. Escurecia o céu transparente, num arremedo sem nuvens. Do outro lado, a Maria Luzia parecia esgalhada atenta ao que o homem olhava. Maria Luzia botava fogo numa carvoaria dentro da solta para fazer carvão sobre um leito de cinzas.
De cócoras no meio das ramas de salsas, emendava dizendo:
- Bem feito Romeu, o Florindo andar aperreado!
- Diz isso por quê?
- Tu quer dizer que não sabe! Ele tá até o gogó endividado! Olha para a estrada Romeu.
E o comboio de ciganos vindo das bandas do retiro de Boa Esperança pelo Lameirão indo para Barras passava, cavalgando nos burros, sibilando e burros rinchando, era como uma cobra que serpenteava na estrada de piçarra. As mãos trêmulas da velha Maria Luzia tatearam o bolso da saia de mescla, procurando pelo rosário de pedras folheadas a ouro comprado nos festejos de dezembro passado.
Romeu percebeu o movimento brusco da mulher e leu-lhe nos olhos a aflição e a ansiedade ao ver aquele pessoal temido.
- Que é que tem, Maria Luzia, está vendo fantasmas?
- Não, mas é que dizem que por onde esse povo passa, eles levam tudo!
Na primeira fila das carroças, a horda profética das pupilas ardentes da velha cigana de cara murcha dentro de dois olhos esverdeados pôs-se na frente tangendo a burra que se desviava da estrada de piçarra para o caminho de areia sobre as ramas de salsa sair da estrada, tendo às costas uma ninhada de filhos, filhas, genros e noras paravam com as burras seladas amarradas nas carroças.
Debaixo do juazeiro perto da casa de Maria Luzia saciavam com a altiva gula imoderada o farto tesouro de rapaduras e farinhas de puba. Os menores saboreavam as mamas murchas pendentes dos sutiãs das jovens mulheres, o licor precioso que dá vida.  Outros homens iam a pé, com olhos reluzentes a quitanda do senhor Florindo.
Junto à carroça outros ciganos se apinhavam esquadrinhando o céu sem nuvens, num azul de atormentar as vistas e sombria dor das quimeras ausentes das chuvas.
A porta da quitanda fechada dava para ouvir o grilo, ao fundo de uma frincha solitária, que os olhos de dona Mara Rúbia vendo-os passar, outra vez pelo Mocambo vindo do Retiro de Boa Esperança com a ária sina de andarilhos errantes. Numa das montarias vinha um menininho cigano no meio da carga da burra, amarrado por uma cia até os cabeçotes da cangalha.
De vez em quando o menino, levava as mãos aos olhos com sapatão.
- rah! rah! ah! ah! Com voz enrouquecida de gripe.
O cigano ajeitava-lhe o chapéu de vaqueiro na cabeça, até que outros gritavam:
- Olha uma quitanda!
Seu Florindo com as porta de duas folhas fechada deitava a última tramela no meio da porta. O pessoal aproximava-se da quitanda. O sol das cinco horas da tarde ia esfriando. De cima da cangalha, o menino cigano chorou com mais força, debatendo-se, até que o pai o  retirou, com medo de uma queda.
Logo uma briga se armou entre os outros ciganos com o dono da quitanda. A confusão era para o dono de a quitanda abri-la. Não sendo atendidos saiam  um a um  e nuvens de poeira invadiam o céu do Mocambo.
Florindo atrepado no tamborete olhava o pessoal seguir viagem. Uns falavam mal estirando a língua, com gestos insultuosos para o rumo da quitanda. Quando a última cigana saia, de súbito, a voz grave de dona Mara Rúbia da janela da quitanda num grito comovido com a dor daqueles andarilhos chamou um dos ciganos:
- O que querem comprar?
- Rapadura e farinha.
- Tu arranja uma agüinha pra nós, ganjão...
- Se me der a mão vou ler ela pra tu!
- Tem o coração grande e vai ter muita felicidade na vida.


segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Romance Terra de Marataoan


CAPÍTULO 17

Zé de Lauro cumprimentou respeitosamente uns eleitores que vinha da zona rural, e ele, com um gesto solidário, convidou-os a sentarem-se nas cadeiras e redes de tucuns que estavam estendidas por toda a varanda da casa e outras debaixo dos pés de mangueira.
- Agradeço-lhes infinitamente por ter-me procurado a ajudá-los, que me merece grande estima e apreço de vós, disse o candidato Zé de Lauro sentando-se.
- E nós damos graças a Deus por tê-lo achado em casa candidato; podíamos ter caído nas mãos dos Pefelês, falou Prexeirinha.
Zé de Lauro fez um gesto à esposa Carminha, e ela saltando do regaço da velha cozinha trouxe uma garrafa de café com bolacha salgada para o pessoal; levantaram-se alguns e foram quebrar o jejum da viagem; Zé de Lauro e Carminha trocaram um longo olhar de afeto.
Durante esse tempo na casa do candidato o pessoal tratava de pedir ajudar ao homem sobre a luta das terras da Boa Presença, uma antiga luta pela Reforma Agrária. Mas, conquanto Zé de Lauro tivesse sumo prazer em ajudá-los não poderia fazer ainda nada no momento, reparou que era esquisita e humilhante a sua posição de mero candidato a prefeito de Barras.
Parecia que o pessoal teria que esperar por depois do resultado da eleição. Para escapar a essa interpretação desairosa, sacrificou o prazer da conversa e a contemplação daquelas expressões caboclas mandando distribuir uns santinhos com o número e chapas eleitorais; levantou-se dizendo:
- A minha primeira missão se eleito prefeito de Barras é cumprir que aquelas terras sejam partilhadas para vocês...
- Seu Zé de Lauro! Seu Zé de Lauro... Interrompeu uma velha que vinha da cozinha.
O homem não compreendeu a interrupção da velha Chiquinha.
- Tristeza seu Zé, disse ela, que escutou na Rádio Difusora que um trabalhador rural teria sido assassinado no conflito de terra.
Zé de Lauro já podia ambicionar e garantir sua vitória nas eleições. Agora lhes peço licença... Disse ele.
Aquela gente já compreendia a intenção de Zé de Lauro; foram todos para a porta do Sindicato; assim que o corpo chegou para ser velado, apertava as mãos de todos em solidariedade ao trabalhador morto no conflito de terra.
O povo ficou impressionado pelo interesse do candidato, mas não repararam muito no ato de solidariedade cristã. Notava-lhe principalmente, além do entusiasmo, que era de primeira um cristão, pois havia nos olhos do candidato certa severidade triste no olhar e nos modos.
Se aquilo era caráter dele, dava-se bem com a índole do político; se era resultado de algum episódio da vida, era uma página da Política que devia ser decifrada por olhos hábeis de uma oportunidade.
A falar verdade, o único defeito que Zé de Lauro tinha era os discursos socialistas e a teimosa prevenção as derrubadas dos matos a beira do rio marataoan. Os discursos socialistas assemelhavam-se com os discursos populares e a prevenção do rio que cumpre dizê-lo, era mais literária que outra coisa em tempos de política. O candidato Zé de Lauro apegava-se aos discursos que uma vez proferira e esses discursos produziram muita admiração no povo.
De político amador a inteligente, pelos coronéis da época foi instruído e dotado de bom senso; tinha, além disso, grande tendência para as afeições solidárias; mas apesar disso lá tinha calcanhar de Aquiles como todos os políticos.
Político como os outros; outro Aquiles anda por aí que são da cabeça aos pés um imenso calcanhar. O ponto vulnerável de Zé de Lauro era esse; o oportunismo de um acontecimento nas Barras era capaz de violentar os afetos; sacrificava uma situação e dela sabia tirar proveito até arredondar e dilapidá-la.
Dentro do Sindicato dos Trabalhadores Rurais referindo ao amigo morto no episódio do conflito de terra, um repórter da Rádio Difusora com um gravador pequeno entrevistava-o.
Zé de Lauro disse até aonde isso chegaria.  O povo não ter direito a um pedaço de terra.  O amigo repórter sabia que o discurso tinha certo ar de sarcasmo, mas no fundo poderia ser verdadeiro.
- Mas, candidato, disse-lhe ele, não compreendo essa preocupação; eu ouço até dizer que o atual prefeito está tomando as providências desse conflito. Além de que, a igreja interveio na questão do conflito. Podem ser que os latifundiários distribuam as terras e entrem em acordo.
A observação do repórter tinha a vantagem de ser tão poética quanto jornalística como a do candidato. Por isso abalou profundamente o ânimo do político. Não ficou muito tempo como o asno e emendou.
Ele hesitaria na resposta, mas não hesitou. Acudiu-lhe de pronto o comentário só quero somar a meus irmãos nessa triste hora, e da opinião tomou a que lhe pareceu provável. Retirou-se tristemente.
Algum leitor grave achará pueril esta circunstância do conflito por terras e esta controvérsia sobre ele é muito provável, mas deixemos de lado essa estória e seguimos na ação do romance. A ação no romance é que provará isso como prática nas Barras dos anos oitenta.
Os latifundiários pitorescos buscam até hoje a saciedade por mais hectares de terras e senões dos grandes latifúndios que a humanidade admira, já por instruídos nas armas e acobertados pelas leis; e nem por isso o povo deixa de admirar esses mesmos hectares. Não queira o leitor abrir uma exceção só para encaixar nela o nosso político. Aceitemo-lo com os seus ridículos; quem na política barrense não os tem? O ridículo é uma espécie de lastro da alma quando ela entra no mar da política barrense;
Para compensar essas fraquezas, já disse que Zé de Lauro tinha qualidades não vulgares. Adotando a opinião que lhe pareceu mais provável, que foi a do amigo repórter, o candidato disse consigo que nas mãos do povo estava à chave do seu futuro.


domingo, 18 de dezembro de 2011

Romance Terra de Marataoan


CAPÍTULO 16

Conceição com os três filhos ideou no sentido um plano de felicidade; uma casa num ermo local pra bandas do bairro Curujal, olhando para o mato de todos os lados e um nascente com um lindo espetáculo do nascer da aurora. Marcos, Esperança e Netinho, unidos pelo amor fraternal, beberiam e comeriam ali, gota a gota, caroço a caroço naquele pedaço de terra, pedaço de felicidade.
O sonho de Conceição continha outras particularidades que seria ocioso para o autor mencionar aqui. Eu pensei nisto alguns dias quando comecei este romance; cheguei a passar algumas vezes por parágrafos e refazê-los; mas tão feliz que nunca viu coisa mais gratificante; afinal desisti de um livro de poesias e voltei ao romance.
Havia um formato de casa que acudia ao nome palmos de terra comprada, um lar; uma casa de telhas embolorada pelo tempo, paredes de taipa em péssimas condições a que se pode chamar Lar; Conceição chamava a casa de lar por ser uma casinha do tamanho do seu sonho, ou melhor, do que o bolso podia pagar por um teto.
Pode ser um enorme tapera, mas as paredes de taipa, sem água canalizada e luz, muita gente achava que essa gente interiorana, voltaria de onde vieram, assim entrava na história a vida de uma mulher para criar os filhos na cidade; assim quase me esquecia de um episódio na porta da casa.
A casa de taipa da rua 10 de novembro negrejava umas réstias de sol no telhado embolorado. Na latada, coberta de flandres, a gatinha Esmeralda cochilava ao calor do mormaço suspenso nos céus pro lado do curujal. Correndo na vereda da areia com um pneu de bicicleta o menino tampinha entrou, no mesmo passo lento, com a camisa de mescla cheia de remendos e desabotoada com o peito de fora e foi direto para a cozinha pesquisar pela janta, ao canto da sala, a menina Esperança tirou a lamparina e acendeu, cuja luz enegrecera a parede de fumaça. 
Longamente ficou o menino olhando a panela que não tinha desgraça nenhuma dentro para cozinhar. Depois saiu com o pneu, tornou a pô-lo no lugar de sempre. Quando saiu, ele fazia a gata miar, cutucando-o com o pedaço de pau que brincava no pneu.
E gritava com raiva:
- Diabo! Não tem nada para comer hoje.
A gata levantou. E menino saiu correndo pelo terreiro varrido, levantou redemoinhos de poeira da vereda de areia arrastando o pedaço de pau. Maria da Conceição, deixando que explodisse a raiva em um berro a angústia com a mão enfurecida varrendo a porta.
-Deixa de fazer poeira! tampa ruim! Passa pra dentro, vai se banhar menino sem vergonha!
Depois Conceição à porta da casa via chegar um indivíduo, amigo dela, Ernesto Pereira trazia uns peixes para a mulher.
- Esperança trata esses peixes! E coloca no fogo!
Eles viram passar um carro, e dentro do carro um senhor que lhe pareceriam metido a burguês. A mulher fez um movimento de espanto que não escapou aos risos do amigo.
- Que foi? Perguntou-lhe este.
- Nada; parece conhecer aquele senhor. É o prefeito Mundico Goma?
- Ah.
O carro entrava na rua de areia e capim da 10 de novembro. Logo acima depois do balão do mercado, parou o carro à porta de uma quitanda, e o senhor apeou-se e entrou. Conceição entrou na casa e não viu quando ele saiu; mas viu o carro e suspeitou que fosse o mesmo, um F100 azul. Apressou o passo sem dizer nada ao amigo que trouxe suas coisas na carroça juntamente com os meninos.
Poucos instantes depois Conceição mandou o filho mais velho comprar um querosene para as lamparinas; Tampinha verificou quem era o homem do F100 azul. Quando voltou com o litro de querosene entrou afoito dentro de casa, com ar de quem ia faltar o ar dos pulmões e aproximou-se da mãe.
De primeira falou para mãe que o prefeito das Barras até o cumprimentou respeitosamente. Tampinha recebeu a manifestação de respeito com afabilidade. Ao pé do fogareiro a mãe do menino admirada levantou e foi abastecer as lamparinas com querosene. Tampinha e a irmã Esperança deram enormes saltos de alegria quando viu uns peixes nas mãos da mãe e o alimento há poucos minutos iria tocar-lhe os estômagos matando a fome que sentiam.
- Parece que esses peixes chegaram em boa hora. Disse Dona Conceição.
- Creio que sim, respondeu tampinha brincando e olhando para Esperança.
Justamente nesse momento entrou Humberto, o tio dos meninos com um quilo de arroz.
- Só agora sai da venda, disse ele dirigindo-se á irmã.
Humberto apertou a mão dos meninos abençoando, apertou a mão de Tampinha e os dedos de Esperança. Conceição contava a estória de o prefeito falar com Tampinha na quitanda, e alegrou-se com ele, assim o homem poderia ajudar com umas carroçadas de piçarra para aterrar o terreno.
Mas foi em vão que Conceição foi ao prefeito pedir ajuda para reconstruir a casa. Só a mulher trabalhava e os filhos pequenos estudando e nem mais ajuda de ninguém. Ela não entendia que uma prefeitura como aquela não tinha recurso para doar umas carradas de barros.
- Não é possível.
- Por que não vai na casa do Zé de Lauro?
-É mesmo, vou lá!
Na porta, o homem ainda a consolou:
- Pois se quiser esperar, talvez eu vá lá com você.
- Esse desgraçado do Mundico Goma! Quando acaba, anda nos bairros espalhando que a prefeitura ajuda os pobres... Não ajuda é nada!
- Diabo duro do cão! Pior que o velho coronel Regilberto lá da fazenda!
A mulher levantou-se da cadeira, afastou o menino Netinho que lhe repuxava as abas do vestido, pedindo para mamar.
Gritou para a filha Esperança, que estava lá na cozinha:
- Oh Esperança ! vê se tu dá esquenta o pirão de peixe! 
- Seria bom, disse Humberto à irmã.
- Como assim? Perguntou Conceição estupefata.
- Você não conhece estes miseráveis de político, só ajudam mais perto das eleições. Falou sorrindo. Referiu ao Prefeito Mundico Goma.
- Pois, nesse caso, respondeu Conceição, amanhã mesmo irei à prefeitura ou na casa do Zé de Lauro.
- Já vou indo antes que escureça e o farol da Caloi está queimado.
-Tchau! Adeus meninos, o Crispim vem amanhã brincar com vocês.
Despediram-se do homem pedindo-lhes que os fossem lhes ver.
Não citei nenhuma palavra dos meninos no diálogo acima transcrito, porque, a falar verdade, quando dois adultos conversavam, menino ficava calado, só proferi em duas situações na chegada do tio e na saída dele.
- Passe bem, disse-lhes ele dando as pontas dos dedos e saindo para pegar a bicicleta Caloi.
Ficando sós, saíram também os dois meninos e seguiram para o banho no poço. Conceição pensava nas péssimas condições das paredes da casa;
- Tampinha encha os potes agora, disse Conceição, que eu preciso catar o arroz; tenho necessidade de terminar essa comida; quero ver isso logo... Esperança olhe o Netinho.
Tampinha estacou na beira do poço.
- Mãe! Gritou o menino;
- O que é? Perguntou a mulher.
- Tem um cachorro morto dentro do poço! Disse o menino. Naturalmente a água não poderia ser consumida e o ar geômetra de carniça fazia com que naquela hora Conceição não achava uma solução para o problema. Aquilo naturalmente intriga de vizinhos mal intencionados ou coisas de vândalos.
- É o que me acontece nessa hora.
Depois de retirar o animal podre de dentro do poço tinham que deslocar-se até o poço de dona Costinha no sitio curujal apanhar por umas baldes de água. Tampinha aproveitava para tomar banho na beira do poço. O menino deitado na rede antes de dormir pela primeira vez na nova casa lembrava-se da casa de taipa da beira da estrada. Na parede da sala, as doze lindas mulheres da Shell que o menino se enamorava todo dia e a cada mês descartava por um novo amor. O velho oratório escorado com pedras e lotado de muitos santos e velas. O dia da viagem despediu-se do lugar que nascera. Dos banhos de cacimba, cavalgadas no lombo do cavalo raio do norte, das peladas de futebol no campo esburacado pelo chafurdo dos porcos, das caçadas no mato atrás das rolinhas com a baladeira e o alforje.
Chegou à despedida.
- Adeus, tampinha! Diziam umas primas. Dê um abraço muito grande no Crispim.
- Cadê o abraço?
Elas riam e abraçavam o menino. Tampinha olhava e via da casa da quitanda do senhor Flor, a sua grande paixão, a menina Ísis, á janela acenando com a mão e despedindo-se dele e ele correspondendo sacudindo, num grande gesto de adeus, seu braço gordinho.
Já as horas corriam, e Maria da Conceição ficou vendo ainda o candidato Zé de Lauro cumprimentar umas pessoas. Depois, o carro foi entrando na curva que dava para o rumo do Barro Preto e sumi-se na poeira da piçarra. A menina Ísis enxugava os olhos vermelhinhos, que teimosamente insistiam em lacrimejar.
Dona Mara Rúbia não entendia o choro, mas passou-lhe a mão pelo ombro, ralhando carinhosa:
- Que é isso, Ísis, ainda chorando?
A mulher, embora meio vencida, ainda invocou o pretexto de precisar dela na cozinha.
- Qualquer dia desses, vamos nas Barras e você pode ver ele!







sábado, 17 de dezembro de 2011

Romance Terra de Marataoan



CAPÍTULO 15

Rasgou pneus e lançou piçarras para o ar e rumou para Barras. Durante o percurso Conceição falara da precisão ao candidato que prontamente atendia ao pedido. Apenas entrou em casa arrumou cuidadosamente os meninos que já estava com a trouxa de roupas prontas. Vestiu a roupa do menino “tampinha”, calçou a menina Esperança e o pequeno de dois anos escanchado nos quadris.
Tampinha na verdade é o Marcos que aos sete anos sem ainda freqüentar uma escola, pois a única que tinha ficava distante do lugar e a escola mais perto ficava distância de duas léguas, já para a entrada do Barro Preto. Até o momento dos três filhos da humilde mulher, realmente um mimo de criança; tinha as formas delgadas e graciosas de uma criança travessa; os olhos castanhos escuros e aveludados pareciam exprimir a mais completa felicidade deste mundo, tão alegres e serenos, além da barriga inchada de verme de tanto comer barro das paredes de taipa.
Durante a viagem Zé de Lauro ficou a lembrar de quando contemplou e examinou minuciosamente a casinha simples, viu uma bilheira com o pé apoiado por pedras, quatro copos de alumínios bem areados e um pote escameado com resto de tinta vermelha já gasto pela ação do envelhecimento no tempo.
De pronto deitou-se um pouco numa rede de tucum e percebeu que deveria ganhar as eleições e como meta inicial distribuir filtros naquela região para o povo pobre do município. Leu no dístico ocular do menino “tampinha”que fechava as pestanas lentamente, e convenceu-se finalmente de que uma bola de futebol dentro do saco plástico era de grande estimação na parte de quem quer que fosse dono dela e entregou ao menino.
- Se não apareceu outro dono até agora, fica contigo, disse ele entregando a bola ao moleque com uma pequena mochila nas costas estendia as mãos e agradecia ao homem bondoso. Tratou o moleque de guardar aquela preciosidade.
Enquanto isso, Conceição durante a viagem planeava o futuro aos novos hóspedes da cidade, cuja família devia perpetuar-se naquele lugar desconhecido dela. Inconseqüentemente resolveu restituir com lágrimas nos olhos ao deixar os babaçuais e a roça com uns legumes por colher e se aventurar na cidade, com bastante mágoa no coração.
Chegou a hesitar por alguns instantes ao olhar as casinhas de palha da beira da estrada; mas afinal venceu seus sentimentos de probidade e compaixão, que eram o apanágio daquela pobre alma interiorana e partiu sentindo o vento no rosto, a cada palmo de distância imaginava que na cidade fosse o melhor futuro para os meninos.
O menino sentado na trouxa de roupa contorcia-se para não chorar quando deixou a cachorrinha piaba e não muitas coisas, mas para ele a cachorrinha o bastante ou até mais. E, como se lhe custasse despedir-se do animal e ainda recente da casinha de palha da beira da estrada, dispôs-se a levá-lo com ele, e para esse fim preparou-se, amarrando a cachorra com um pedaço de corda.
A mulher raiou com o menino que não podia levar o animal no carro do moço. Tampinha a soltou e despediu-se vendo piaba balançando o rabinho feliz e que a cada volta do pneu do jipe na piçarra alongava-se o olhar penoso e a lentidão do abanar do rabo do animal que urrava parecendo chorar a separação dos dois amigos.
Já o plano de Zé de Lauro em ganhar o voto durou o que dura a imaginação de um político esperto: o espaço de uma viagem. Conceição vendo os santinhos, via nas promessas transcritas abaixo do retrato do homem a paixão pelo trabalho nas Barras e deu-lhe na medida da dor que devia sofrer quem era pobre, tendo que abandonar aquelas terras secas, sem água das chuvas.
Quando avistou a entrada da cidade e depois de averiguar bem morar no lugar que havia feito a opção, desceram ambos do jipe com direção a casa de Zé de Lauro.
Naquele tempo ainda em Barras, a energia elétrica vinha de Campo Maior e com os portes acesos, a mulher tinha imensa alegria no coração. A casa do candidato a prefeito Zé de Lauro uma das mais bonitas, perto da igreja de nossa senhora da Conceição, pois no portão de entrada aparência que indicava certa abastança de riqueza nos haveres de quem lá morava, uma casa com eira e beira. Antes mesmo que o homem descesse do jipe, um rapaz moreno corria para encontrá-lo, reconhecendo o dono do lar, começava a pegar as coisas de Zé de Lauro e levava para dentro.
Despediram-se o candidato e a mulher. Quando ela saiu com os meninos foi acompanhada pelo rapaz da casa de Zé de Lauro levando a pouca bagagem. Desceu Conceição e os filhos e seguirão para casa de um irmão que morava perto dali. A expressão de surpresa no rosto de Humberto, que correu a anunciar a boa nova à esposa Marieta. O menino Crispim, aproveitando uma fresta da janela de duas folhas, precipitou-se pelo corredor da casa recepcionar os primos Marcos e Esperança e o pequeno.
Dispunha-se o rapaz da casa de Zé de Lauro a deixar a mulher, pois estava cumprida a sua tarefa. Quando Marieta chegou dizendo-lhe que eles entrassem para a casa já emendou perguntando qual dos meninos adoecera.
No quarto de hóspedes não havia ninguém, mas precavia que não poderiam demorar muito tempo por ali. É impossível que esse fosse o costume da dona da casa, mas desta vez Marieta não se cuidou em semelhante coisa, porque mal a mulher com os filhos pequenos entraram pela porta trazendo a alegria no rosto, uma mesma expressão de tristeza restabelecia no semblante.
- Queira ter a bondade de sentar-se, disse ela designando uma cadeira de madeira feita do couro de cabra já envelhecida que o couro furara no meio e rangia mordendo quem sentava.
- A minha demora é pouca, disse Conceição à cunhada sentindo a primeira mordida da cadeira. Vim procurar morada aqui nas Barras, lá no interior está cada vez mais difícil... Os animais morrendo de sede pela falta d’água.
- Não imagina que desassossego causou deixar a casinha de palha e as poucas criações...
- é dar para imaginar, minha cunhada; de que vai viver por aqui se não tem trabalho...
- Perdão! Interrompeu Conceição; com o pouco do aposento que o fundo rural me paga quero criar os meninos por aqui.
- Ah!...
- Ele vem aí.
- Como foi à viagem do Mocambo para cá? Perguntou Humberto.
Marieta levantou-se justamente quando entrava na sala o marido. Um homem bom que apresentava trinta e oito anos, no pleno desenvolvimento da maturidade, um desses que anunciou a velhice cedo e uma calvície imponente. Trabalhava na venda de bugigangas e outras quinquilharias.
A calça de seda escura com alguns furos e outros remendos davam singular ocultação à cor imensamente negra da sua pele. Era roçagante a calça, o que lhe aumentava a estatura de homem meio alto. O estado de calvície naturalmente que os cabelos não precisavam ser penteados, mas com uma simplicidade caseira, que é a melhor de todas as modas conhecidas do irmão acolheu a irmã com gratidão. Acomodaram-se pela noite e adormeceram sonhando dias melhores na cidade.
Passados seis dias, conversando com uns amigos a propósito de que se algum encontrasse uma casa para vender que lhe avisasse imediatamente.
- Por quê? Perguntou-lhe um dos amigos admirado.
- É para minha irmã que veio do interior, respondeu Humberto.
Não ousava interrogá-lo sobre a esquivança que mostrou em relação ao assunto. 

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Romance Terra de Marataoan


CAPÍTULO 14

O ano de 1982 para o povo do interior refém das mãos dos últimos homens metidos a coronéis, como os também lá da cidade, traduzia o retrato fiel do servilismo, gente de coleiras no pescoço, fechavam o voto por uma corda de fumo, punhado de farinha, 50 % no arrendamento da terra ou um pedido arranjado que o patrão realizava.
Conceição não era dessas pessoas que sentiam a necessidade urgente de trocar o voto por um favor, mas o destino prega situações. Cem - cruzeiros para levar os filhos para Barras, a fim de fugir da seca e não tinha como fretar o jipe de propriedade do Manuel Villaça.
Teve a felicidade de ver passar um jipe às oito horas da manhã na estrada num domingo de janeiro por aquelas bandas de mata, só não sabia se o jipe verde era o do Manuel Villaça da localidade são Francisco.
Ficou o dia inteiro na extrema vontade e matutando na mente as palavras com cuidado de saber como falar à precisão que tinha a Manuel Villaça sobre o frete fiado, quando ele voltasse de comprar o diesel na quitanda do velho Flor. Conceição jazia cansada na banca de café, levantou-se do tamborete de debaixo das palhas da casinha na beira da estrada que levava a Porto dos Marruás.
Ela despertou dos sonhos quando aparecia ao longe um jipe levantando a poeira da piçarra e a esperança na mente, pensou consigo, é o carro do homem que tanto perseguia, via na pessoa de Zé de Lauro parando o veículo uma tenacidade ou frustração até verificar-se que não era o homem procurado. Mas toda a caçada do frete fiado de cem - cruzeiros era completamente inútil, visto que, o carro que aparecia na estrada era de um sujeito desconhecido do lugar.
Desconhecida as razões da mulher sentada na beira da estrada induziu Zé de Lauro a frear o veículo, coisa que ninguém podia dizer que o candidato nunca falava com seu povo; uns diziam que simplesmente compaixão, outra falsidade ou servilismo do ser humano com o próximo; outros pensavam que assim que ganhasse a eleição de prefeito, o fazendeiro e político, iria se encher de profundo desgosto ou orgulho pelo poder e se revoltar contra os homens, contra o povo. Chegando a casa, Conceição deitava na rede de tucum, ficou ao encontro do Manuel Villaça:
- Que tal morar nas Barras?
- Boa mãe, assim posso brincar com o Crispim! Falava o menino Tampinha.
- E quando?
- Já preparei as malas a coisas vem depois.
O menino de cócoras olhava as tejubinas e carambolo dando carreirinhas intermitentes por cima das folhas secas dos pés de milho no chão do quintal.  O céu azulado, transparente na monotonia cinzenta da paisagem, só algum juazeiro ainda escapava à devastação da seca.
As árvores apareciam lamentáveis, mostrando os galhos e a casca toda raspadas em grandes lascas para fazer remédios para a barriga dos meninos. O mandacaru no pé da parede de taipa se acentuava pelos espinhos. Conceição, no alpendre, resguardando os olhos com a mão em pala e procurando identificar o visitante que chegava na poeira do sol.
Ele parou o jipe chamou a pobre mulher sentada no tamborete feito do tronco de carnaúba com couro de bode e achou que era de boa hora faturar o voto dela e de quantos tinha na família. Fossem quais fossem as razões na mente do homem, o certo é que ninguém possuía mais bonita ação naquele hora e variou emendando uma gentil saudação a mulher vendendo café na beira da estrada.
Na caçamba do jipe tinha uns restantes de saquinhos de arroz, feijão, açúcar, pacotes de alimento de todos os tamanhos, além de litros de cachaça serrana dos engenhos da localidade boa hora. Dona Conceição olhava para eles como se fossem a esperança de alimentos para uns dias naquele tempo de seca e não vinham os benefícios da emergência do governo federal; se alguém lhe pedia almoço e não tinha o que dar ela ficava melancólica.
Quase se podia dizer que, no espírito de Zé de Lauro, o alimento pesava menos que o amor a solidariedade, segundo a expressão célebre: “tirai do mundo a peste e a fome, e o mundo será muito melhor”. O homem vendo uma potencial eleitora concluiu que nos olhos da mulher que eles brilharam ao vê os alimentos, como um fazendeiro e político excêntrico, ofertou seis saquinhos para a mulher, dois de feijão e três de arroz e um quilo de açúcar. Não era o bastante para o mês, mas quebrava o galho.
A mulher pensou no tamanho da bondade daquele desconhecido, devia ser um comerciante generoso das bandas de Porto dos Marruás e diferente dos outros. Ele gostava de ajudar como sabia que os outros tinham necessidade, sem nada em troca.
Conceição cultivou dentro da mente com a pouca escolaridade, as palavras de agradecimento com muito esmero. Do povo Zé de Lauro gostava também; mas gostava deles nos tempos de seca e eleição: ganhar um voto ou perder um parecia-lhe idêntico atentado.
A pobre mulher conheceu o homem assim que ele retirou os óculos escuros e o grande chapéu de massa da cabeça. Zé de Lauro com seus trinta e quatro anos, bem apessoado, maneiras francas e distintas, fala mansa e pausada feito o discurso de padre Rodolfo.
Ele tinha se formado em medicina veterinária, e cuidou algum tempo de vacas, bois e novilhos doentes; a Fazenda Olho d’água  estava já adiantada no gado pé duro quando sobreveio a falta de chuva e desapareceram os pastos verdes da região da mata; para escapar da praga da seca que matou quase todo o gado, resolveu então entrar para a política, ás vezes a oportunidade de político também é a desgraça do recorro aos negócios para a sobrevivência ou a falência dos mesmos.
Com o dinheiro do resto de gado que escapou, ele ganhou bons cruzeiros e se mandou para Barras até comprar uma casinha no centro perto da igreja de nossa senhora da Conceição. Agora exercia a medicina veterinária como passatempo nas horas ociosas. Tinha quanto bastava para si e a família. No memorável começo de noite em que se encontrou com Conceição, voltava para casa quando teve a ventura de encontrar a pobre mulher.
Para a mulher o único recurso era arribar para o rumo de Barras. O pouco ou nada de legume, não se tornava obstáculos nos sonhos. Zé de Lauro olhava a lamparina moribunda que mal alumiava a banca do café. Ele ouvia o  choro do menino pequeno dentro de uma rede. A voz lenta e cansada do candidato erguia-se, parecendo outro, abarcava uma explanação dos projetos e ambições como prefeito. Ele falava sobre as estradas difíceis, cheias de buracos e muita poeira e também da fome e angústias que o pessoal da Boca da Mata estava passando. Conceição ouvia, e abria o coração àquela esperança nas palavras do candidato; ele corria os olhos pelas paredes de taipa, pelo canto onde a redinha remendada do menino dormia.
Conceição pediu ao homem uma carona para Barras. Nas andanças pelo interior ele notou que ás vezes o povo é um animal sem dono e isso é visível, sendo assim o povo nunca poderia ficar sem um dono no mundo, uma proteção aos seus interesses sejam eles individuais ou coletivos.


quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Romance Terra de Marataoan


CAPÍTULO 13

Por volta de 1982, o candidato a prefeito Zé de Lauro nas andanças pelo interior de Barras, lançava promessas ao vento na busca de se eleger, para entender melhor a essa passagem voltamos ao flash back de Zé de Lauro, pois sem a apresentação desse político barrense astucioso, seria o autor do romance obrigado a longas digressões, que encheriam muitas páginas sem adiantar a ação. Não há hesitação possível na estória: vou apresentar-lhes o candidato a prefeito Zé de Lauro.
Suponhamos que um político querendo se eleger e ganhar o voto do povo, ás vezes é dado a devaneios e melancolias e encara como num teatro a adoção de um personagem ou outra personalidade na época das eleições; nesse caso imagine um Zé de Lauro totalmente diferente dos outros políticos barrenses.
Desta vez será um robusto político barrense, transvestido no suor das faces, das formas arredondadas, dos olhos vivos, das mãos calejadas e no sol ardente via o trabalhador rural, como homens que resistem as intempéries do tempo sempre sorrindo e feliz.
Zé de Lauro um homem feito, refeito e quase perfeito ou prefeito. Amigo da boa mesa e do bom copo de cachaça nas quitandas do interior de chão batido e coberto de palhas de babaçu.
O homem preferiu certa vez no Mocambo um quarto de carneiro assado na brasa com uma dose do litro de Cortezano, coisa natural para um político da marca dele, quando o estômago na longa viagem de Barras até o povoado Mocambo reclamava, e nunca chegava a compreender a pobreza daquele povo.
Zé de Lauro desembarcava do jipe ano 1966. Ouvia atentamente o lamento do quitandeiro. Dava um moral para o homem.
- Pois eu, não! Enquanto houver capim no caminho e mandacaru, trato do restinho de gado!
E o candidato depois de uma pausa, fitando um farrapo de nuvem que se esbatia no céu longínquo:
- E meus votos vão faltar nessa região?
- Então, o candidato só pensa nessa eleição. Dizia o quitandeiro.
- Não! Também não vou abandonar meus cabras numa desgraça dessas.
O candidato acendeu o pó ronco e falou:
- Do que tenho pena é do povo que tem família com muitos meninos, vi uns lá na Boca da Mata!...
- Eles já estão fazendo as malas. Dizem que vão pras Barras.
Olhando para o céu, sozinho no jipe após deixar os santinhos dele, com o número e a lista de promessas, rutilante espalhava os pneus do carro sobre a piçarra vermelha fazendo a poeira cobrir o ar.
Seria um bom político de família tradicional, segundo a doutrina de alguns macacos velhos na política barrense, isto é, se não fosse às idéias sociais tão fecundas e muito mais que ignorantes. Já não seria o mesmo Zé de Lauro se sentisse o que o eleitor fosse passado na “casca do alho” ver diante de si um homem sem recurso nem para uma dose do são João da Barra.
Para ele, um político verdadeiramente e digno de ser votado em uma eleição, seria solidário nos seus trinta e quatro anos, dotado com alguns mil cruzeiros, e que, aportando naquele lugar na procura de votos para se eleger, realizava uma ótima impressão tão verdadeira, casando com o eleitor iludido por uns quilos de alimento e promessas que ele sabia que nunca as cumpriria depois de ganhar a eleição.
Tal político barrense seria incompleto se não tivesse óculos escuros na face, chapéu de massa preta na cabeça, camisa manga longas nos braços e dois grandes marços de mil cruzeiros amarrados com liga plástica em cada lado dos bolsos fundos na velha calça de linho tingido e um ótimo discurso na ponta da língua.
Comer com as mãos dentro de uma vasilha na forma de cuia seria a última demanda deste magnífico tipo de homem público. Mais esperto que os outros políticos das Barras, Zé de Lauro acordava o eleitor dizendo ser o herói do povo no tempo que quem mandava na política barrense, os fazendeiros, os chamados coronéis, os donos de grandes propriedades e não por ser candidato, mas por ser barrense dos quatro cantos do município que seu nome queria dizer simplesmente ser de muita coragem para trabalhar pelo povo, sujeito forte, homem resistente e firme no tempo.
A descoberta seria excelente, se não fosse exatamente seu encontro com dona Conceição; infelizmente nem esta nem os outros encontros com o povo do interior são exatos. Zé de Lauro não era menino metido a besta, nem político a robusto, nem um macaco velho na política, rico ele era, fez fama no interior quando chegou das bandas da capital, assim que se formou em veterinária pela UFPI.
Falhar uma vez com o povo não a perspicácia dele com os eleitores; o povo na porta da casa do homem em Barras pedindo e implorando ajuda todos os dias eram cachorrinhos, mas a certeza que fiel ao homem.
Para alguns políticos, sem a qualidade desse herói provavelmente o povo perderia o interesse dele. Seria um erro manifestado do povo. Para Zé de Lauro, apesar de ser mais que um político metido a popular, ele tinha a honra de ver sua foto com o nome nos papéis espalhados pelo interior e pregados nas portas das quitandas e casas de palhas. Antes de entrar no lugar fazia questão de beijar seu retrato.
No letreiro do santinho publicou nas linhas debaixo da foto a seguintes e reverberante promessa: "Quem votar no Zé de Lauro é escolher o candidato melhor para Barras e quer matar a sede e a fome do povo com a transposição do rio Marataoan e a construção da barragem do bairro Boa Vista”.