sábado, 21 de janeiro de 2012
POESIA DE NA ESSÊNCIA DA ALMA POÉTICA
GADO NA COLINA
Por entre as nuvens e colinas,
E ao longe os gados na serra,
E doces lembranças das meninas,
E o cheiro molhado da terra.
Vaqueiros no campo laçando,
Feito artista o gado valente,
Os bois no curral vão mugindo,
E de longe seu choro ouvindo.
Seu gemido clamando feita criança,
Detrás das madeiras aprisionado,
Ao cair da tarde a esperança,
Que no outro amanhã libertado,
A pastar pelo caminho somente,
A verde relva vivente.
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
DELÍRIO DE AMANTES
Da amada beijando o néctar fecundo e doce dos lábios,
Nos mares bravios e vaidosos de uma cama,
Do falar enigmático no mistério dos sábios,
Nus corpos em delírios rolando na grama.
Cativeiros de amantes em substância vão urrando,
Loucos devaneios em soluços e gritos de lobos,
Gemidos insanos que transpiram gritando,
Na libido erótica e oculta de seres libertinos e bobos.
Seios assediando a ironia de decompostos olhares,
São raras pedras que no espetáculo são preciosas,
De raros brilhantes fecundos em belos colares.
Do ventre escultura impessoal da deusa Afrodite,
Das mãos maliciosas de prazer e por demais ociosas,
Lactando sussurros de fantasias e fascinação.
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
na essência da alma poética
DESEMBARQUE
Seguindo e cambaleando feito trem nos trilhos da vida,
Não encontrando a estrada vazia nos dias do futuro,
Que de num destino opulento e amplo no obscuro,
Foi vagão descarrilado no suspiro da alma desiludida.
Que partindo humilhado na volta sem ermo e sem rimo,
Facultando na origem rumores dos olhares afetuosos,
Das vísceras pútridas na face das carnes sem ossos,
Do olhar firme e triste no desprezo de um choro de menino.
Braços ao vento levantados e despertando vozes cantando,
Uma ladainha triste que fascina e esvazia o interminável,
De uma melancolia a vagar e que vela o alívio, no entanto,
Do enevoado mármore frio que é leito gélido e brando,
Nas parafinas de luzes que se dissolve e vão acendendo,
O clarão da alma vivente que na pá de terra vai enterrando.
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
POESIAS DO LIVRO NA ESSÊNCIA DA ALMA POÉTICA
Na Essência da Alma Poética
Joaquim Neto Ferreira
ANTES DA HORA
Só desejo silenciosamente que possam ver linda a aurora,
Dessa longa noite incessante e pálida que foi escurecida,
Impaciente demais nessas sombras vai antes da hora,
No crepúsculo que descansa a sede da existência na vida.
Oculto o desinteresse nessas madrugadas e o desalento,
No declínio frio de minha tristeza que tece a apatia,
Dos desafios incoerentes dos lamentos da vida que atento,
Na desesperança inconseqüente que se respira num dia.
Tudo se fez na inércia e no silêncio desse momento,
O acúmulo falso dos planos declinados e desfeitos,
Na menopausa que é espelho vil do pensamento,
No próprio desencanto contraditório e inquieto do leito,
Que são descanso e impulso da solidão no medo,
Do triste amanhã insensível que a alvorada assistiu e se vai.
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
ÚLTIMO CAPÍTULO DE JOGO BAIXO
XIII
60 meses
La marque viveu sessenta meses preso e
sem julgamento. Quando se está preso, somos tratados como vagabundo, como
culpado, é um transitado em julgado, onde se antecipa os fatos sem o fim dos
mesmos. Ás vezes sentado a sombra do julgamento de todos e no cárcere o que
resta é peregrinar pensamentos, suplicar lembranças. Eu, bem me lembro do meu
amor que morreu nos meus braços na primeira noite assim que cheguei do garimpo
para buscá-la daquela vida fácil.
— É uma agonia de amante...
Dela, tenho como lembrança uma rosa
murcha plantada no tumulo do cemitério são José no bairro Pequizeiro. Samantha
estava linda com uma fita vermelha que prendia seus cabelos.
— Que promessa você
fez para Samantha? Perguntou Caçoleta.
— Olha Caçoleta,
um dia eu viria pegá-la para mim. Talvez, eu fosse um louco no auge dos dezoito
anos... Talvez, um louco.
— Muito bem! E
você cumpriu.
Quando a conheci na Fazenda Rio Doce nós fomos separados pelo destino.
Só errei em não dizendo que talvez ambas as coisas há seu tempo. Meu pai
Francisco Mafagafos, era um homem conservador, moralista, um dia ele disse:
— Amar mulher casada é uma insânia.
Talvez o gênio do meu pai não fosse um entusiasmo do amor. Na vida
misteriosa de Chico Mafagafos, nas orgias da rua do Brega, no desonrar de mamãe
havia uma sombra que ele ocultava: quem sabe?
— Ele foi contra
vocês?
— Sim,
expulsou-me de casa. Bradava aos quatro cantos do Mocambo que eu e Samantha
iríamos viver na miséria e que nossas almas borbulhariam no inferno.
— Viver na
miséria!
O velho meu pai
assim que descobriu nosso romance esvaziou o copo de café que ele bebia
balançando-se numa rede, embuçou-se e levantou.
— Eu tenho uma
coisa horrível para te dizer La marque. Não vai mais comer aqui na minha casa. Fome
e sede!...
Na verdade,
Caçoleta e William, o homem é uma criatura perfeita por natureza. Ele ergueu a
mão para me abençoar e mostrou-me o horizonte, o mundo do alto do alpendre da
Fazenda, disse-me: Vê, tudo isso e belo — o brejo de águas, a quinta com o gado
dentro tudo isso só será teu depois que eu morrer.
Nas palavras eu
sentia a ironia mais amarga de um pai desprezando o filho, a decepção mais
árida de todas as ironias e de todas as decepções de um filho pode ouvir do
pai. Tudo isso se clareava diante de mim. Eu jurei que de fome e nem sede
Samantha morreria.
Quando o cabo
Villaça abriu o cadeado da cela, La marque saiu sentindo a brisa de a liberdade
levantar-lhe os pelos dos braços. No bar das Estrelas, o homem conversava com
Berenice. Tudo que você viu e ouviu contarás no seu depoimento.
— Muito bem
Berenice, vamos viver nossas vidas! Disse La marque. Trouxe as cartas que lhe
escrevi?
— Sim! Está aqui!
— Ok, certo?
— Certo! Obrigada
Berenice por acreditar na minha inocência.
— Nossa La marque,
eu nunca pensei que a Helena tivesse coragem para matar a Samantha pelo teu
dinheiro.
— Para você ver que não devemos confiar nas
pessoas!
Durante os cinco
anos na prisão La marque Mafagafos escreveu cartas para meretriz Berenice. Ela o
único possível álibi para provar sua inocência do crime de assassinato de
Samantha Buriti. Ele conseguiu convencer Berenice da sua intenção de ser
inocente e assim dizer onde estava o dinheiro para Helena. Na verdade, La marque
Mafagafos não era tão inocente assim. Ele mesmo cometera o crime, só que por
ódio, ódio depois que ouviu Samantha e Helena declararem-se amantes e combinarem
de assassiná-lo na noite de 13 de janeiro de 1988 para fugirem com todo o
dinheiro.
Durante o tempo
que passou preso na cadeia pública La marque arquitetou sua defesa para a
acusação do crime de assassinato. Ele valeu-se da ambição de Helena pra que a
meretriz fosse presa pelo roubo do dinheiro, aí seria mais fácil acusá-la de
assassina de Samantha assim que Berenice acreditasse na sua história de
inocência através das cartas que ele enviava da prisão.
Assim que Helena
fugiu para Teresina com o dinheiro e William Pequi foi preso em flagrante, Berenice
contou tudo sobre o dinheiro de La marque para o delegado. O plano da armação
para Helena havia dado certo e Berenice ouviu tudo calado e com a ajuda do
amante William Pequi daria o golpe fatal. Porém, La marque conseguiu enganar
Berenice dizendo que Helena matara Samantha pelo dinheiro. A vida é um jogo
baixo, a pedra do jogador tem que está do lado certo e não pode oferecer volta,
a jogada não pode ter dúvidas, se não a vitória não será certa.
FIM
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segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
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penúltimo capítulo da novela barrense:
VOCÊ JÁ DESCOBRIU QUEM MATOU SAMANTHA? LA MARQUE é INOCENTE OU ACUSADO!
JOGO
BAIXO
capítulo 12
XII
O golpe
Cabo Villaça
estendeu a mão para retirá-la da viatura, Helena levantou-se com as mãos
algemadas. Tenente Cláudio tirou do bolso o boletim de ocorrência amarrotado,
atirou-o na mesa do delegado João Oliveira e leu: “a acusada de furto atesta
para os devidos fins que o dinheiro levado da casa do finado Chico Mafagafos no bairro Boa Vista em Barras juntamente com a ajuda do amante de Berenice, o William
Pequi e que o dinheiro pertencia a La marque Mafagafos”.
Helena sentada na cadeira chorava e
gemia.
—
Helena você fez isso, sim ou não? Perguntou Tenente Cláudio.
Ela voltou o
rosto para o outro lado, quis falar... Interrompia-se a cada sílaba.
— Sim.
— E o que tem a
dizer da morte de Samantha Murici. Continuou o oficial.
Agora... Dizia
ela erguendo-se e estendendo a mão.
— Samantha Murici?
Perguntou a mulher.
— Sim, sua amiga
lá do bar das Estrelas! Enfatizou o militar.
Helena desmaiou. Ela
abaixou a cabeça na mesa, não falou mais.
— Você a matou?
Certo!
Cabo Villaça a
interpelava: sacudia-a a toda a força.
Helena levantou
um pouco a cabeça, estava macilenta, tinha os olhos fundos numa sombra negra.
— Deixai-me, maldiçoados!
Deixai-me nesse inferno! Gritava Helena.
— Você a matou?
Bradou cabo Villaça.
— Você a
matou? Perguntou tenente Cláudio.
— Não é verdade...
Eu não a matei.
— Por que roubou o dinheiro? Não tem nada
haver com a morte de Samantha.
— Como? Perguntou o delegado.
— Com os diabos, delegado! Que isso importa!
Mas foi assim...
Dia 13 de janeiro
de 1988 a cinco anos atrás, La marque chegou aqui em Barras. Samantha estava no
salão de cabelos juntamente comigo e feliz porque iria deixar a vida de
prostituição e casar com o homem que amava. Nós discutimos no percurso para
rodoviária. Ela disse que o homem dela estava cheio da grana e iriam casar. Eu
poderia sair da vida fácil do bar das Estrelas. Fui até o local onde ele
estava. Bati na porta e La marque abriu. Encontrei deitado na cama. Ele me
conheceu...
— Oi La marque…
—Oi Helena,
quanto tempo mulher?
Eu soltei uma gargalhada. Eram sete horas da noite. A noite estava
sombria. Nevoeiros frios pairavam nos céus barrenses. Assim que foi tomar
banho, eu como um anjo das trevas fiz Samantha cair aos meus pés, lívida e
suarenta com a agonia do beijo sexual sobre meus lábios. Ela deitou-se sobre
mim. Daí a alguns instantes, eu vi o homem chegar do banho e fingi dormir.
Tudo
o mais foi um sonho: a rua completamente deserta e Samantha vinham do salão de
cabelos passeando e a noite chuvosa seria o mestre da minha arte. Ela entrou e debruçou-se sobre o leito vazio da
cama, eu deitei no leito junto dela, e com um dos braços apunhalei o coração.
13 de janeiro, uma noite que seria o meu passaporte para deixar a vida fácil,
um fato fabuloso se não fosse à procura nesses cinco anos pelo dinheiro daquele
miserável que está na cela.
La marque veio ao leito de Samantha, mas ela ainda gemia e chorava com
uma voz cavernosa e rouca: ele arrancou-lhe o punhal com força, ela gritou mais
já estava morta dentro do quarto. Ele atirou-a sobre a cama implorando por
socorro: abri a porta do meu quarto. Acendi a lâmpada do pátio defronte ao
quarto de Samantha para olhar La marque entrar e eu vim gritando.
Samantha com os lábios pálidos tentaram murmurar no ouvido dele meu nome,
mas os interrompi gritando e chamando por dona Marieta. Eu tremi de ver meu
semblante tão lívido no quarto dela e lembrei-me que naquele dia ao sair do quarto
da morta, no espelho que estava pendurado a parede, eu me horrorizara de ver-me
uma assassina...
Um tremor, um calafrio se apoderou de mim. Ajoelhei-me, e chorei
lágrimas ardentes. Confessei tudo a Berenice: parecia-me que Samantha que se
erguia dentre os lençóis do seu leito e me acendia o remorso e no remorso me
rasgava o peito.
— Por Deus! Foi
uma agonia!
No outro dia
conversei friamente com o cabo Villaça. Ele lamentou a falta de Samantha no bar
das Estrelas. Mas sobre a noite passada, nem uma palavra. Durante esses cinco
anos, todas as noites era a mesma tortura, todos os dias a mesma frieza.
Contudo, lembrei-me que o dinheiro não estava com Samantha como disse La marque.
Procurei-o na
cadeia para dizer-me onde estava com objetivo de pagar um advogado para ele,
mas ele recusou-se. Quando eu pedi para o amante de Berenice, o William Pequi
ir ao quarto dele na Boa Vista e dar uma busca pelo dinheiro. Porém, Berenice não
dormia completamente perto da sinuca no bar das Estrelas, ela viu quando eu
lavava minha roupa branca do sangue de Samantha e passou por perto, roçou seus cabelos
soltos, e nas lájeas do corredor estalavam umas passadas tímidas de pés nus.
Ela vira tudo e
ouvira. Berenice se acordara e sentira por minha falta no leito, a mulher
ouvira o grito de Samantha, e correra para ver… agora com cinco anos depois da
morte de Samantha, chamei Berenice e a convidei para me acompanhar para
Teresina. Nós tínhamos de sair da cidade e eu não queria ir com o amante dela o
William Pequi.
Saímos juntos: a
noite era escura e fria. O vento desfolhava as árvores e os primeiros sopros do
inverno rugiam nas folhas secas do chão na rua são José. Caminhamos juntos
muito tempo. Berenice parou e desistiu.
— Espera-me aí,
disse ela, não vou mais com você, se não serei sua cúmplice.
— Então fique
nessa vida desgraçada, pois estou é rica!
Eu sentei no caminho
à espera de um ônibus para Teresina: vi àquela hora uma luz de carro clarear-me
o rosto e aparecer entre os matos da estrada perto do morro do pipoca, um
caminhão. Por fim fiz o motorista parar. O velho abriu a porta do caminhão.
Entrei. O que aí se passou na viagem para Teresina, nem eu e nem ele sabemos:
quando a porta abriu-se de novo na capital, uma mulher lívida e rica despontava
com nova vida.
A porta
fechou-se. Alguns minutos depois o motorista seguia viagem sem mim. Eu o amei por
duas horas. Quando eu estava decidido a juntar-me com Samantha, o maldito do La
marque apareceu do Pará. Senti-me traída após longas noites perdidas ao relento
a espreitar-lhe de Samantha um carinho, um amor, quando após tanto desejo e
tanta esperança eu sorvi-lhe o primeiro beijo, a primeira noite de amor,
Samantha estava decida partir com La marque que voltava do garimpo rico. Eu
acolhi quando chegou no Bar das Estrelas. Fui sua amiga fiel, companheira.
Ensinei-lhe a arte da sedução e como arrancar dinheiro dos homens.
Foi uma noite de
soluços e lágrimas, de choros e de esperanças, de beijos e promessas, de amor,
de voluptuosidade no presente e de sonhos no futuro... Ela desistiu de mim.
Vinte anos depois o amante dela, La marque voltava do Pará. A voz sufocou-me na
garganta: nós duas chorávamos.
Eu também chorava,
mas era de saudades de Samantha... Logo que soube da fortuna, o dinheiro de La
marque enfeitiçou-me. Contudo meu amor não morreu! Nem o dela! Muito ardentes
foram àquelas horas de amor e de lágrimas, de saudades e beijos, de sonhos e
maldições para esquecermos uma da outra.
A noite de 13 de
janeiro foi uma loucura! Depois dessa noite seguiu-se outra... E muitas noites,
as folhas sussurraram ao roçar de um passo misterioso, e o vento se embriagou
de deleite nas nossas frontes pálidas...
— Muito bem!
Agora guarde seu discurso para o juiz da comarca! Interrompeu uma voz.
— Posso fazer uma
pergunta delegado? Interrogou Helena. Quem me denunciara à polícia.
— Berenice! Disse
o delegado. É foi à testemunha ocular do crime que você cometeu.
— Eu sabia que
foi aquela falsa, sonsa mentirosa, mas eu não matei Samantha!
O homem que falara
era um advogado. Um homem já de idade, meio alto de frontes calvas e longas com
o rosto fundo em rugas e espessas sobrancelhas grisalhas lampejavam-lhe os
olhos azuis e um ralo bigode que cobria parte dos lábios vermelhos da fumaça de
cigarros. Trazia um terno negro e uma pasta nas mãos já desbotada, da mesma cor
da roupa.
— Quem é o senhor?
Perguntou o tenente Cláudio.
— Dr. Júlio César,
defensor público.
— Quem é o senhor?
— Eu sou o
oficial Tenente Cláudio! Responsável pela prisão da acusada.
Na verdade não foi difícil entender o que estava acontecendo: correu
muito boato em Barras, a cada instante nas esquinas saia conversas e mais
conversas que mudam até de nome e de sobrenome. La marque via os últimos raios
de sol nascer quadrado. Ele apertava as mãos do companheiro Caçoleta antes de
ser solto.
— Obrigado amigo!
— Não me agradeça.
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domingo, 15 de janeiro de 2012
JOGO
BAIXO
CAPÍTULO 11
XI
Helena
William ficou pálido
com o que La marque narrava. Pois bem, te conto a história. Mas quanto a essa
sobre Samantha, pode crer é bem cheia de terror. Não é um conto, não é uma
lembrança do passado. Não é meu alvará de soltura, mais é a verdade, rapaz.
— É uma ladra!
Uma ladra!
— Conta La marque!
Conta tudo!
La marque falou:
os mais fizeram silêncio. Era tempo. Quatro horas depois amanhecia o dia na
terra de marataoan. Helena já estava fora de Barras. Os raios do sol invadiam a
cela depois de uma madrugada borrifada de orvalho das chuvas, das nuvens azuladas,
e as águas salpicadas dos céus barrenses.
A natureza encorajava
os primeiros raios do sol a romper a barra avermelhada do dia. A conversa dos
três homens invadiu toda a madrugada e encerrava-se pelo ar fresco do dia que
os faziam dormir como excrementos da cidade, como excrementos da amásia Helena.
Um dos homens, La marque via em sonho Samantha e beijava-a.
Ele sentia a mulher
em vida que se evaporava dos seus lábios. Ele sobressaltou-se, entreabriu os olhos;
mas o peso do sono ainda o acabrunhava, e as pálpebras pesadas se fechavam...
O sol estava no
alto céu marataoan— era meio-dia: o calor dentro da cela da cadeia aumentava:
pela fronte, pelas faces, pelos braços dos homens rolavam gotas de suor dentro
do quarto da prisão. Ele vinha caminhando pelo corredor com uma curiosidade
indiscreta.
O soldado Sousa
chegou perto da grade da cela e chamou por La marque.
— Senhor La marque,
vossa irmã, quer falar com você. Deixo-a entrar.
— Sim! Pode
deixar! Obrigado! Foi essa a resposta do homem.
— Você soube o
que aconteceu? Murmurou Glória.
O homem respondeu
não.
— Toda a polícia
está atrás daquela amiga da Samantha.
— Helena?
— Sim, dessa
desavergonhada mesmo!
— O que ela fez?
Perguntou o homem.
— Furtou todo o
teu dinheiro lá de casa!
La marque ficou
como uma estátua, o olhar imóvel, o lábio sedento e o arfar do peito denunciava
que a justiça começava a ser feita ou mesmo preparada. Ele ajoelhou-se para
rezar a nossa senhora da Conceição: nem sei o que ele dizia nos lábios trêmulos.
Não sei que
palavras se evaporaram daqueles lábios: eram palavras, podia ser pés de rezas.
A irmã dele, Glória escutava, mas não o entendia, sentia só que aquelas rezas
eram muito doces, que aquela reza era como um talismã, a palavra de Deus.
O homem chorava,
soluçava: por fim ele ergueu-se com a ajuda de Glória. Eu ouvi o soldado dizer que
a polícia a prendeu lá em Teresina.
— Pois bem, disse
ele.
La marque tapou-lhe a boca de Glória com as mãos...
— Silêncio,
Glória!
— Então, o que
ouviu mais?
— Nada!
— Descobriu todo
o meu dinheiro? Perguntou La marque.
— Sim, furtou
todo! Respondeu a irmã. Ela está presa na capital e devem trazê-la para Barras
qualquer hora.
— A justiça de Deus!
Disse Caçoleta.
As lágrimas, os
soluços abafavam-lhe a voz de La marque. Depois de dois dias presa em Teresina,
Helena chegou a Barras. Ela não respondia a nenhuma das perguntas na viagem,
porém só chorava. Na cela da viatura a mulher estava deitada com o rosto entre
as mãos. À voz do cabo Villaça ergueu-se de súbito.
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