sábado, 7 de julho de 2012



CHÃO DE FOGO, CAPÍTULO 36


Depois de um mês do falecimento da mãe, Aurélio sentia a falta dela e não quis comer o jantar. Bote a comida para ele dizia o tio. Com saudade da mãe, o rapaz só olhos de lágrimas. Separava o feijão e o arroz para o lado e beliscava somente um pouco da sardinha com farofa. Conversou pouco durante o jantar. Falou dos irmãos em Barras e perguntou quando voltaria para lá. As dores da perca para o rapaz eram feridas abertas.

Os outros primos olhavam de longe. Faltava coragem para amparar o amigo. Creusa aproximou-se dele e com a solidariedade humana começou a puxar uma conversa. A tia dele Maria de Lourdes nem sequer o olhou direito. E, no canto da mesa sentada, Creusa encostou uma das mãos no rosto dele e fez agradado que trouxe simpatia deixando Aurélio, um pouco mais feliz.

Havia na casa muita gente, dona Maria de Lourdes dizia para o esposo e ainda por cima o marido desempregado, o rapaz era um despesa a mais. Aurélio foi até a cozinha e via a tia esconder a lata de leite. Os olhos da tia refletiam dentro a evidência cruel da maldade. Quando chegou a hora de dormir, o rapaz deitado na sala da casa, só ouvia gemidos de diálogos dos tios dentro do quarto.

A mulher por uns instantes desgarrava da covardia, e procurando com o único interesse de consolar, derramando na alma arranhada do rapaz, um pouco de doçura. Numa das falas, a tia queria levar ele logo dali. Dona Maria de Lourdes falava para Tonho arrumar a mala e levá-lo para o quartel. Depois de um silêncio nos diálogos, Aurélio caia no sono.

- Somos cinco, onde um come, todos também comem. É meu sobrinho não posso desamparar.

Dona Maria de Lourdes não se importava com o sobrinho. Ela não estava nem aí para os sofrimentos do rapaz. Sentia era raiva daquela gente em sua casa. E não era que estivesse na casa de alguém estranho. E dias e dias, e nem uma resposta do quartel. Estava escrito a apresentação para segundo de janeiro de 1996, porém, que aquela data daria muito prazer para dona Maria de Lourdes. Beijou a mão cheia de veias da tia e despediu-se dos primos.

Numa segunda-feira Aurélio apresentar-se-ia no quartel. Na sala de visita da casa do tio esperava o horário de saírem a pé para o quartel. Corria ansioso pela avenida Frei Serafim entre um semáforo e outro. Beijou a mão da tia e despediu-se dos primos. Chegando ao quartel, já estava em conversas com outros rapazes.

- Servir o Exército é como um castigo. Dizia um rapaz.

Aurélio saberia que não era judiação ali, mas preferia o Exército a cair na bagaceira, nas drogas como outros garotos da mesma idade lá em Barras. Isto não.

- Não há judiação, dizia o coronel. Só castigo quando há precisão.

Na fila para o corte do cabelo, Aurélio via muita gente e todos ficavam amigos. O senhor está mal informado da vida castrense, dizia um rapaz a outro na fila do barbeiro. Não vá atrás de conversas de recruta. O que eles querem é mentir, e inventam estórias do militarismo. Meu pai luta há quinze anos com essa gente.

AGUARDE CAPÍTULO 37


CAPÍTULOS FINAIS

sexta-feira, 6 de julho de 2012



CHÃO DE FOGO, CAPÍTULO 35


Quando partiu para Teresina, Eunice sofreu muito assim como Aurélio. Um ano e Aurélio não escrevera uma carta para Eunice. A moça entrou em depressão. Conheceu uns colegas do lado do bairro Santinho que eram barra pesada. Demorou pouco e foi um pulo para viciar-se na droga do crack. Os avós já não sabia mais o que fazer.  Eunice envolvera-se novamente nas drogas. Contavam alguns que a recaída foi por causa do amor por Aurélio.

Ele nunca escrevera uma carta sequer para a moça. Dentro do centro de recuperação, Eunice aprendia a coser. Com o pano e a agulhas nas mãos, a moça passava os dias. Quando Senhor Cassimiro saoube do envolvimento da moça, ele punia severamente a moça com castigos, mas por outro lado dona Mundoca sempre passara as mãos na cabeça da neta. O avô descobriu que ela estava ganhando dinheiro com os homens, o homem resolveu mandá-la para o centro de recuperação no Maranhão.

O homem soube de tudo pelos vizinhos que já comentavam pela rua. Quando entrou em abstinência por causa da droga, ela ficava mordendo as unhas, como se estivesse com fome, as mãos tremendo e de uma impaciência dos diabos. Dentro do quarto, á noite dava longas risadas e gritos medonhos. Dona mundoca tinha que esconder os vidros de arnica, cola de sapateiro e outras coisas.

Eunice estava ficando louca. Quando passava as pessoas na rua, ela xingava, principalmente as mulheres. Certa vez, senhor Cassimiro não agüentava mais as coisas da neta. O velho levantou-se da cadeira preguiçosa e partiu para cima da moça como um cão enfezado.

- Saia daqui, saia já daqui!

Só se ouvia d. Mundoca lá da cozinha gritando:

- Não brigue com ela, Cassimiro.

Eunice corria para a cama. Olhando para baixo da cama pegou os calçados e pulou a janela da casa, e foi-se para a rua. Apesar de tudo, senhor Cassimiro respirava quando ela saía, mesmo contra às suas ordens. A família na rua 10 de novembro já estava sob os murmúrios dos escândalos da moça, as conversas e os comentários dos vizinhos chegavam até os ouvidos de padre Gregório. Quase que ninguém se importava mais com o problema de Eunice. Na mesa, seu Cassimiro falava:

- Aquela sem-vergonha pensa que me amedronta.

Eunice com dezoito anos apresentava-se no bar do Zezinho. O dono do bar chamava logo a polícia. Na delegacia com pouca gente, o delegado queria o depoimento de seu Cassimiro. Dona Mundoca criou coragem de mãe e contou ao delegado o problema que estava enfrentando. Quando passava a vergonha, os avôs da moça, cara a cara com a vítima, a levavam novamente para casa.

Os olhos graúdos de Eunice procurava não olhar para os lados, assim que saiu da delegacia. Ela tinha vergonha dos olhares e das conversas das amigas. Quando o dia da internação no centro de recuperação em Timon chegou, os avôs da moça sentiam-se aliviados. Era o melhor meio de cura que Eunice poderia conseguir era internar-se em um centro de recuperação.

Eunice, isolada num quarto, sentada na cama. O olhar solitário atravessava a janela e cortava a imensidão do nascente de ponta a ponta esquadrinhando o céu azul. Depois saia para o pátio do local e sentada no tamborete começava o ponto do crochê. Passar horas e horas naquela atividade, não pronunciava uma só palavra e ouvia as outras meninas conversarem uma com as outras.

O silêncio no centro de recuperação doía. Eunice no trabalho do crochê usava todos os recursos da imaginação para povoar o isolamento. Quando a noite lembrando-se de Barras chegava-se para as outras meninas e quando avançava as horas depois da novela esgotavam-se os assuntos e ao chegar às dez horas, todas iam dormir para as seis e meia estarem de pé para as atividades do centro. As conversas entediavam e enfastiavam a moça.

A moça esperava os sábados para receber a visita de uma tia que vinha do bairro Piçarra. Ela só pensava em querer fugir dali. Não tinha mais forças para afugentar o tédio, o pensamento mau. Saia andando pelo imenso jardim do centro, de braços levantados, deitava-se debaixo de uma árvore. Ficava a olhar uma e outra moça. E a imaginação sempre encontrava a pessoa de Aurélio. Quando começaram a namorar. Os pensamentos lúbricos de Eunice a cansavam.

Entretanto olhava para o céu e a diretora do centro aproximando-se para levá-la até a tia. Dona Helena, uma mulher baixa, gorda com uma fala autoritária e um grito ensurdecedor que metia medos em todas ali.

 - Eunice? Sim, visita para você.

Conversava com a tia. Ouvia a tia soltar lindas palavras e logo, Eunice abaixava a vista e com tanta simplicidade pedia que tudo aquilo não existisse. Fazia promessas que não iria mais usar drogas. Pedia a tia para dizer ao avô para vir buscá-la. Pela primeira vez, a tia via naquelas preocupações, alguma coisa ficara clara, ficara em evidência ali no centro.

- Você não está pensando em fazer-lhe alguma mal, está?

- Não, tia.

Eunice ficava pensando nos seus atos. Tinha muito errado na vida.  A moça voltava para o dentro do centro. À noite, antes de dormir, rezava as minhas ave-marias com medo e o padre nosso, onde pedia perdão de todas as coisas que tinha feito. 

AGUARDE CAPÍTULOS 36

quinta-feira, 5 de julho de 2012


CHÃO DE FOGO, CAPÍTULO 34


Noite escura. Cães ganindo e correndo pelos paralelepípedos da rua 10 de novembro. Aurélio tirou da gaveta o lápis e o caderno e começou a escrever seus poemas que tanto lhe fazia bem. Os outros irmãos ainda não tinham voltado da novena. Molhou a ponta do dedo com saliva e foi passando folha por folha do caderno de poesias do seu imenso calhamaço de versos.

O rapaz já tinha ouvido falar da sociedade secreta dos poetas barrenses, a Epicuréia Barrense. De Gaspar, o poeta louco, mas bom nos versos. Com a janela do quarto entreaberto, Aurélio ouvia os cães ganindo para o lado do bairro Xique-xique, pesadamente uma pessoa a chegar pelo pé da parede, com passos lentos e quietos.

Ele ouvia passos cadenciados. A luz do quarto oscilava. Aurélio sentiu-se perseguido e sozinho. E continuou a escreveu o poema. Relâmpago forte para o nascente. O rapaz olhou para a janela e viu Eunice chegando de mansinho. Ele abriu a porta da casa, a moça entrou.

 - Oi! Tudo bem!

- Sim, tudo e com você?

- Eu cheguei agora da novena e resolvi vir aqui na sua casa.

- Ah! Legal!

- O que você está fazendo?

- Sabe, Eunice, eu escrevo poesias, ás vezes, vou até a madrugada.

- Legal! Posso ler alguma?

- Sim! Claro. Fiz uma para você.

- Sério! Sério.

- Sabe o que quero ser, um poeta?

- Um poeta?!

- Sim, poeta e escritor.

- Beleza!

Eu tenho muitas poesias e continuou a escrever mais e mais. Mas vou ter que parar, afinal mamãe está doente no hospital. Você não pode deixar, são tão lindas! Espera o que você quer dizer, com não deixar de escrever? Esquece! Esqueço, não! Diga-me.

Eles se olharam respeitosamente, até selarem o silêncio com um longínquo beijo. Os lábios se amoldaram ao cálido dos lábios dela, tão suaves. Fernando ainda acordado se levantou da rede e ficou expiando da porta do quarto os dois.

- Carolina, Carolina, Aurélio está namorando, eu vi. Ele a beijou.

- Pode ser não, se ele te pega, mete um brogue. Dizia a menina.

Aurélio suspirou e ela também, aproximando-se mais a ele, apoiando a mão em seu peito. Mal tinha acabado o beijo, quando começou outro, tímido, mas delicioso. O coração acelerado e o beijo com gosto de mel e suave, percorreu-os inteiro. Com a mão livre, agarrou-a pela cintura e a atraiu para ele para voltar a beijá-la. Eunice emitiu um gritinho, de alegria e assombro. Esse som foi como água no telhado.

Ela confiava nele. Aurélio compreendia que devia pedir desculpas, mas não podia lamentar o beijo tão simples e emocionante. O rapaz viu os olhos dela faiscantes, notou sua respiração agitada, sua boca curvada; compreendeu que não a tinha incomodado com o beijo.

- Isso foi... Um pedido de namoro? Perguntou ela.

- Se você quiser — murmurou ele. Fingido preocupação. Significa que nós.

- Sim, quero namorar você.  E seu avô?

- O que é que tem? Perguntou. É que se formos vistos e ele saber que esteve aqui. Ele me mataria.

- Vô Cassimiro, mataria nada.

- Não sei, está com medo? Talvez, os meninos aqui da rua dizem que ele é zangado.

- Nada! Bobo! Mas não ele! Mas não ele! Um dia você aparece lá em casa e o apresento. Vamos vou te deixar, vai chover a noite toda. Sim vamos. Ela assentiu afirmando. Entretanto, sabia que jamais renunciaria a tenra lembrança de beijar Eunice.

O vento frio e travesso empurrava as águas do telhado da casa para as biqueiras. O céu repleto de nuvens cinzentas, as ruas cheias de águas.Olhando a rua parecia um rio, ouvia-se suaves rumores de risadas por trás do porte.

- Vem Aurélio. Insistiu Eunice.  Temos poucos minutos para namorar, pois tenho que voltar para casa cedo. Aurélio inclinou a cabeça, o rosto moreno e gracioso a tênue luz das lâmpadas incandescentes dos portes, e riu.

- Não estou muito animado. Disse ele. Minha mãe está muito doente e espera o SUS autorizar a histerectomia.

Eunice suspirou, esquece isso por uns segundos, tá.

- Bom, se for isso o que você deseja. Além disso, você já sabe com quem vai casar, não é. Dizia ela. Sempre soubesse que você, é meu verdadeiro amor. Eles voltaram a rir.  Eunice, você é meu verdadeiro amor. A moça olhou para a porta de casa. E se você conhecer outra? Nunca isto vai acontecer, viu.

Aurélio ficou sério e franziu o cenho. Então se case comigo! É um bobo, não tem nem emprego ainda. Disse ela. Eu vou ser soldado do Exército e te sustento. Respondeu. Eunice, você gosta muito de mim? Sim. Disse a moça. Seu beijo foi uma amostra de amor. Sempre o tinha considerado um querido amigo, mas a assombrosa paixão que sinto por você, tem aberto uma porta, e ainda não sabia o que havia do outro lado dessa porta. Estou segura de que gosta de você - assegurou Eunice. Como não iria gostar? É encantador e formoso.

-Bom, como o filho mais velho tenho que ajudar meus três irmãos. Verdade. Disse Eunice rindo - entre uma travessura e outra. Vamos embora. Nunca se sabe o que pode acontecer numa noite chuvosa como esta. Os dois beijaram-se. Boa noite. Boa noite, até amanhã. Eunice olhou para a ele mais uma vez. Antes de entrar, ela pisou os pés na água que escorria no pé da calçada e riu para o rapaz. 

AGUARDE O CAPÍTULO 35

quarta-feira, 4 de julho de 2012



CHÃO DE FOGO, CAPÍTULO 33


O azulado dos céus barrenses deixava de assumir sua forma belíssima e o romper do vermelho da aurora do repentino dia brilhava em áureos raios. O mercado público despertava da sonolência da madrugada. O dia trazia no lombo os seus aforismos e adversidades. O barulho no mercado ás cinco horas da manhã despertava com a imponência da intranqüilidade.

Os eternos freqüentadores do mercado público, com suas conversas a jogar fora e debater os últimos assuntos políticos da terra de marataoã, já formavam um grande círculo nos pés dos Box, outros na entrada olhando os milhos espalhados por cima da lona no chão. A fila da carne serpenteava de um lado ao outro e em outras vezes cruzavam-se.

- Me desculpe, me desculpe, mas não quero só osso! Coloca da polpa, por favor.

- Ei, um litro de leite, mas esse aqui não tem água não é?

O mercado público parecia ganhar vida nas manhãs barrenses. O enxameamento do povo lotando as dependências era de enxugar à vista. De longe já dava para ver a soberania do senhor Cassimiro sentado na banca de dona Teresa. Ele próprio olhava para aquele povo todo e conversa vai, conversa vem e os outros amigos apropriavam-se de debater a vida dos outros, mas sempre com humor e belas gargalhas.

- Fale de mim, bem ou mal, mas falem! Dizia o mais engraçado no papo, o Cândido conhecido por Ventinha de suvela.

O astro rei dos céus avançava no ar e acelerando o papo da moçada que não via as horas passar.

- É verdade senhor Cassimiro que Barras já teve teatro?

- Sim! E dos bons. Como tudo em Barras, com o tempo transforma-se em ruína contínua, tudo aquilo acabou. O cineteatro, há muitos anos, na minha mocidade, não conto ás vezes, nos anos de 1980 para 81, quando tinha lindas peças teatrais e filmes por lá. Isso, eu não perco nunca na minha memória.

- Mas porque fizeram isso?

- Porque somos um povo que não sabe preservar seus valores, os costumes, a cultura.

Ainda hoje vejo jovens teatrólogos barrenses influenciados pela Epicuréia barrense, sobre o tablado balbuciante do cineteatro, como grande marco cultural dos anos oitenta reluzindo para platéia, os dramas e tragédias da vida cotidiana que se modernizava.

É um tempo, Cândido não muito longe. Eu não sou de lembrar o passado, por que quem lembra é nostálgico, mas é que em Barras muita coisa bonita se perdeu, se perdeu.

- Sou de outra época Cassimiro, do tempo do Clube de jovens na Boa vista e das grandes festas no Clube de Ouro.

Sou do tempo em que numa matinê pegava as negras e arrastava pelo salão, escutando o som de Carlos Gardel. É bom sempre nós passarmos para os jovens esses valores, de um outro modo, de um outro tempo, quando nossa mente busca imagens de uma Barras perdida no pretérito. Ali sim era que era música. E tinha letra! Onde se via o Clube de Jovens lotado de belas moças e rapazes no começo dos anos oitenta.

-Ei, tu lembra Cândido de mais além! De quê? Do Gaspar? Do Gaspar, o poeta louco? Sim, lembro! Ele em plena praça de santa Luzia a ler os versos em voz alta e o pessoal gritando é outro Chico Trem! É outro Chico Trem! Cassimiro, tu também fez parte da Epicuréia Barrense que eu sei. Sim, sou eu um homem sapiente nas letras, Candido.

- Por isso demoro em falar, o que vivi, o que observei, o que apreendi, durante tantos anos quero repassar para minha neta Eunice. Vou-me embora, até mais, paga o cafezinho para dona Teresa, viu, ela não vende fiado. Do lado de fora do mercado cães mastigavam as sangrentas vísceras das aves abatidas em uma briga constante com os abutres.

- Esse prefeito não manda colocar uma lixeira nesse mercado, ou coisa imunda!

- Você sabe em quem votaram o pessoal do Mocambo?

- De onde?

- Do Mocambo!

- Uns dizem que no prefeito Firmino Carneiro, outros no candidato da oposição Romeu da Bodega.

- Não, não se assuste. Apenas ouça. Esse fim de ano, não tem como o prefeito não demitir os serviços prestados da prefeitura. É! O rombo está grande nos cofres públicos. Ventinha de suvela emendava na prosa, como é que pode compadre Cassimiro, o prefeito Firmino Carneiro, um homem magro daquele, alto que nem uma girrafa, de uns 1,97m de altura, vestido todo de terno no cotidiano, mas acima de tudo, um sujeito arrogante quando está na prefeitura.

- Pois é, um bicho velho daquele quem não era. E acima de tudo, corcunda, mas só anda pela praça da matriz de cabeça levantada, inteligente ele não é, faz-se de culto para enganar as pessoas. Agora ele compadre Ventinha de Suvela que ele tem uma lábia invejável por todos os políticos barrenses, tem.

Ele poderia fazer de tudo para não deixar o Palácio da Casa Rosada, afinal político nenhum quer deixar os privilégios, o luxo, mas quando o povo não quer, não quer. Também compadre Cassimiro, o Firmino Carneiro só desejava ver os parentes empregados por quatro anos ou mais na prefeitura.

- Comigo é assim, dizia ele – “ Tenho é dinheiro para comprar o povo". E saia daqueles lábios trêmulos, lábios cheio de soberba, uma coisa que no fundo era fundamental, dinheiro em época de eleição faz muita coisa, só que naquele ano o povo barrense deu o troco.

- O pessoal de Barras se politizou criticamente. É estranho, mas Firmino Carneiro tinha que pagar caro, o povo não aceitou o alinhamento político, com o grupo de Esperantina. Sim, sim, Prefeito Firmino Carneiro não se mantém mais na moralmente firme, agora é cuidar de enxugar as contas da prefeitura.

- O que dizem por aí? Onde? Pelo mercado público, sei lá nas esquinas!

O pessoal ficou com o pé atrás da última nomeação de secretário de saúde! Com o tempo, o povo esquece e tudo fica na paz. As famílias do centro não estão mais sob a dominação do prefeito, nem mesmo depois da ajuda para os festejos. 

Firmino Carneiro tem que buscar uma solução política, para os gastos da prefeitura depois que perdeu as eleições. O homem investiu tudo na política, até passou por cima dos seus princípios, ou mesmo correu o risco de ser pego pelo Tribunal de Contas, mas pagou o preço. Bem feito ter perdido o pleito.  

AGUARDE CAPÍTULO 34

terça-feira, 3 de julho de 2012



CHÃO DE FOGO, CAPÍTULO 32


A campainha do colégio Gervásio Costa soava. E Aurélio não a via. Eunice estudava no terceiro ano do Científico. Durante o intervalo, ele procurou pela moça que tinha visto na tarde do dia anterior. De repente surgia na frente dele, a bela Eunice de calça jeans e blusa branca do colégio caminhando em companhia de outras amigas.

- Oi. Tudo bem?

- Oi...Tudo ótimo e com vc?

Aurelio ficou com receio de se decepcionar, mas a moça respondeu. O coração do rapaz disparou. A voz de Aurélio tremeu e sem coragem para engatar a conversa, ele resolver deixar por ali mesmo.

- Eita será que foi o que eu vi? Disse Débora. Esse gatinho está afim de você, Eunice.

- Que nada! Ele só foi educado e além do mais é meu vizinho!

- Dizem na escola que ele escreve poemas. Também ouvi dizer!

- Como é? Quem? O Aurélio, menina! É metido a poeta, hum!

Aurélio passou os dias sonhar com Eunice. Escreveu diversos poemas, mas na hora de entregar a moça, ele não tinha coragem. O rapaz morava com a mãe e os três irmãos numa casa na rua 10 de novembro. Ele construía os diálogos na mente para num futuro encontro, dizer tudo a moça:

...Oi! Posso conversar com você... Não, melhor dizer, posso marcar um encontro com você na praça da matriz, isso deve ser bem mais fácil...

O fim do mês de outubro anunciava no céu nublado de Barras, uma chuva rápida, típica chuva de verão. Tocava a campainha do horário da saída e Aurélio apressava o passo, a fim de poder conversar com Eunice. O sereno aumentou. Ele correu para onde estava a moça.

A moça e mais algumas amigas passavam a chuva passageira, debaixo do alpendre de uma casa antiga da rua Gervásio Pires. O som dos pingos das chuvas não deixava o rapaz concentrar-se no objetivo. O horizonte todo acinzentado, naquela noite com ventos cortantes nas copas das árvores, a causar um clima de terror. Como num sonho os dois foram embora para casa.

Os dois jovens faziam companhia um para o outro. O sonho em busca daquele tempo perdido. Eunice ostentava o título de a mais bela da rua 10 de novembro. O avô senhor Cassimiro não deixava a moça solta na rua. Ela vivia de casa para o colégio ou de casa para a igreja. O tempo restante era de anacrônico isolamento social.

 - Quase não vejo você na rua! Meu avô não deixa! Ah, sim. Soube que você é poeta. Sim! Sempre escrevo poesias. Podia você escrever uma para mim! É obrigatório, eu escrever? Sim. Também concordo.

Na porta de casa, Cassimiro via chegando pela calçada Aurélio e Eunice. Eles vinham do Gervásio Costa. Com o clima mais frio, senhor Cassimiro conversava com Honório. Durante meses não chovia em Barras.

- Tudo seco! Até o marataoã está seco.

- Oh, oh, tá espantado? Compadre Honório.

- Sim! Sim! Oh, mês de outubro quente do diacho! Já vi mês seco, mas com quentura como está, é demais. Ainda bem que esfriou mais, compadre.

- Tu conversaste com o rapaz sob o estado de saúde da mãe dele?

- Quem? Ah, Eunice vem chegando aí do colégio com ele. É um ótimo rapaz. Inclusive compadre, escreve poemas.

- O quê? É, ele é metido a poeta?

-  Sim! Mas ainda é ingênuo, um rapaz, bobo com o negócio do serviço militar. Esse negócio de Exército não é para todo mundo, não.

- Sabe da nova? Não! Qual? Vou te dizer compadre, o Romeu lá do mercado é o novo prefeito, sabe? Aquele que fechou as portas do comércio por causa da confusão com a coletoria?

- Exatamente, ele mesmo. Ele deve ficar logo esperto, o povo das Barras anda falando que já tem vereador querendo se vender para ele. Romeu da Bodega vai ser um bom prefeito. Não tem precisão de roubar, não. É eu não digo que ele não seja bom prefeito viu.

- A culpa de ter perdido o pleito, foi o prefeito Firmino Carneiro se atrelar com o pessoal do Retiro dos Ciganos.

- É ele se queimou aqui com o povo! Sim, é verdade, compadre. O novo está surgindo não é? Barras não vota mais em candidato por ser dos ricos ou um dos pobres.

O tempo está mudando. Mas não se assuste, compadre Honório, ele pode contar com nosso apoio. Meu voto aqui em Barras é livre, ninguém me controla. Eu voto, mas morrendo de medo do prefeito me persegui na prefeitura e me mandar lá para o Mundo Novo perto de Esperantina.

- Você tem medo de ser mandado para lá? Sim, sim. Ninguém vai saber em quem você votou, homem. É que eu não tenho estudo compadre, sou vigia e serviço prestado.

- Ah! Sei como é. Ainda mais com a prefeitura cheia de puxa sacos do prefeito Firmino Carneiro. Dizem até que ele vai visitar casa por casa dos funcionários. Ele é muito corajoso, pois o pessoal do bairro Santinho está esperando ele por lá.

Alguns na prefeitura disseram que o prefeito vai apoiar os times do copão Rural. Eu fico é preocupado, pois se ele não paga nem o que prometeu a Liga da cidade, imagine.  A Liga de Esportes, talvez nem faça o campeonato barrense da primeira divisão agora em 1996.

Compadre Cassimiro, eu fico com medo de perder o emprego. Ninguém sabe o que ele vai fazer, os prestadores de serviço estão nas mãos dele. Para melhorar tem que mudar, o povo das Barras aprendeu, o remédio para prefeito ruim é a porca comer.

Espero que o senhor esteja certo, junto com todo mundo. Mas diga-me uma coisa, soube do tenente Jerônimo. Não! Ele piorou. Um dos seus últimos momentos lúcidos foi perguntar por seus companheiros de luta contra os ciganos na batalha lá do Mocambo.

O tenente Jerônimo está é mal no hospital Leônidas Melo. Depois de ele morrer, aqui em Barras poucos se lembram da passagem dos ciganos por este chão, não é?  Está ainda vivo, um dos últimos remanescente daquela época em que defender a pátria era um orgulho.

- Eita, tu estás esquecendo que eu também estive por lá, hein. É verdade, compadre. Como foi aquela batalha lá no Mocambo? Gosto nem de lembrar, compadre. Foi é triste, viu. A estória dar é um romance e com o nome de Chão de fogo. Boa noite. Boa noite, compadre.

AGUARDE CAPÍTULO 33

segunda-feira, 2 de julho de 2012


CHÃO DE FOGO, CAPÍTULO 31


Na porta de casa, Cassimiro, ás sete horas da noite relembrava a estória dos poetas barrenses e seus poemas. Chegava à casa dele, compadre Honório, a fim de jogar conversa fora. Ele adorava conversar com o amigo.

- Eita, que os festejos estão animados, compadre!

- Sim! E muito.

- Queria que tu contasses mais sobre a Epicuréia Barrense.
- É uma estória comprida. Espere, espere, primeiro deixa chegar o café da Mundoca. As coisas têm de ser devagar.

-Eu já contei um pouco dessa estória no mercado, lembra? Já! Eu passei a vida toda contando a meus filhos, sobre o grupo de poetas barrenses que eram os revolucionários das letras.

A sociedade Epicuréia Barrense se reunia nas noites barrenses, a fim de pensarem no futuro das coisas. Eles objetivavam criar uma literatura de cor local que influenciasse o resto do Estado. O campo santo do São José, no bairro pequizeiro era um lugar morto, vago, lento, o preferido pelo silêncio do lugar.

Ali se recompensava e muito as noites de sono perdido. Não havia outro lugar melhor para aqueles seres pensantes. Talvez nós, nem soubessem que poderiam depois de anos contribuir para a literatura piauiense. Naquele ano de 1980, nosso grupo de poetas barrenses tinha como líder o poeta Rafael, um sujeito de quase um metro e noventa de altura, braço musculoso e uma cabeça que valia um Albert Einstein.

Ele era um apaixonado por Leonardo das Dores e Hermínio Castelo Branco. Não gosto de lembrar o poeta Rafael.

- Por que Cassimiro?

 - Foi triste demais a morte dele.

O fim de Rafael foi triste de mais e abalou toda a cidade de Barras. O assassino silenciosamente chamou-o de canalha dos versos, e depois o fez sagrar até a morte na estrada que vai para Batalha.

Algumas pessoas do Longá, o encontrou por entre as lajes, a beira do rio praticamente nu e rodeado de versos escrito por ele, espalhados pelo chão. Ele tinha dezessete anos, todos o conheciam por seus versos ritmados, de blasfêmia. Tinha um que dizia: ”Um dia eu morro, mas nunca a alegria da vida vai morrer”.

Alguns disseram que foi a polícia, porque Rafael era contra o alistamento militar, essa coisa de servir o Exército.

- Cassimiro, então a Epicuréia Barrense mexia com a situação política de Barras?

- Sim! Não é que eles mexiam, eles brigavam no campo das idéias, nos versos cheios de justiça social, mas sem nunca deixar de falar do amor por esta terra. Afinal, servir o Exército, obter os conhecimentos das táticas de guerras e depois levar um pé na bunda! Foi o que aconteceu com os homens do bando de ciganos comandados por Zé de Lauro. Os justos do Norte, os ciganos que invadiam propriedades.

AGUARDE CAPÍTULO 32

domingo, 1 de julho de 2012



CHÃO DE FOGO, CAPÍTULO 30


O manto da noite cobriu a terra de marataoã e nela mergulhou sua gente levada pelo súbito som do dobrado da banda de música, depois do leilão na primeira noite de novena. Da barraca de leilão na praça da matriz, os gritos das crianças brincando na praça eram engolidos pelo som das marchinhas.  

Pessoas transitavam de um lado para o outro da praça. À noite em breu, sem estrelas e a lua traduzindo a hipnótica imaginação dos poetas. Debaixo das sombras das árvores, os casais de namorados em segredo se amavam, uns entre lágrimas e outros na harmonia do primeiro romance.

Cassimiro chegava da praça da matriz após arrematar as jóias no leilão. Quando entrava na residência, dona Mundoca já preparava o café da noite. O cheiro do café coado exalava lá da cozinha.  Mundoca gritando:

- Eunice ainda não chegou do colégio. Cassimiro
- Já, já ela chega. Mundoca! Lá vem ela.

Quando Eunice chegou foi logo tomar um banho porque o suor corria frio pelo corpo. O coração aos pulos, como se tivesse dado uma carreira ao ver Aurélio no campo.

- Eunice, passe-se para cá, vamos jantar para irmos à novena.

A moça estava toda sonâmbula, quando dona Mundoca bateu na porta.  É um favor que a senhora faz em não me castigar por aquele problema da delegacia.

- Está bem, mas vamos para a novena. Ou digo para teu avô. E não arreda de perto de mim.

Na cozinha dona Mundoca se queixava da moça para Cassimiro:

- Chegou tarde hoje do colégio.

Mas como sempre tinha dado o velho livramento condicional. O céu de novembro limpo, mas um escuro no horizonte fazia estourar trovoadas no nascente. Senhor Cassimiro com dores nos nervos, dores reumáticas, pressentiam de longe o tempo ruim. Sempre contando estórias compridas e longas para tentar passar o tempo.

- Mundoca deram foi muito no Pedro Adão.

- É coisa do capeta, o vício da embriaguez. Coisa de demônio. Eunice apressa-te menina, estamos atrasadas para a novena.  Eita, lerdeza do diabo.

-Mundoca, meu amor traz logo esse café, se não esfria! 

AGUARDE CAPÍTULO 31