domingo, 24 de junho de 2012


CHÃO DE FOGO, CAPÍTULO 23

- Eita estória comprida seu Cassimiro, deu-me até sono. Senhor Cassimiro é sabido assim, como eu. Ah ah ah ah, ah, ah aprende a lição da vida João Alberto, tu não queres nem estudar.
- O quê? Sou filho do prefeito agora? Eita está podendo, hein. Já, Já ele te compra um carro. Tu sabes que teu pai vendeu o comércio lá do mercado para entrar na política. Ah ah ah política é que é o négocio.
- Você é ingênuo, Aurélio, ingênuo e bobo. Vou te falar, vou te dizer umas coisas, sabe? Você vai ficar logo esperto, você não sabe que tudo aqui em Barras tem perseguição política.
- Ah, é mesmo, não diga. 
- Deixa eu te contar, deixa. Sim, sim diga. Aquele comércio bonito, imponente, o governo queria arrancar imposto e mais imposto! O pessoal da coletoria destroem tudo, tudo, pode ser qualquer comércio aqui em Barras, do grande ao pequeno.
Todo o trabalho, todo o suor que papai depositou ali, vai receber depois que assumir a prefeitura.
- Isso vai dar é merda, cara! Que nada! Papai disse que dinheiro da Prefeitura, gestor nenhum se condenado, devolve.
- Nunca no Brasil! Ele disse que na política, você tem de virar abutre para se defender, é melhor, quebrar a cabeça com a política do que com o comércio.
 - Sabe? Agora que papai vai ser prefeito das Barras! Sério, sim, vamos investir todo o dinheiro público na saúde, educação, social e principalmente na cultura. Ele vai arranjar uma boquinha para mamãe na secretaria.
- João Alberto, acho que não é hora de falar em política. Está somente há um dia que mamãe morreu! Nem sei meu destino. Sim! É mesmo! Aceite meus pêsames.
Da calçada da casa, senhor Cassimiro olhava os dois amigos caminharem para a casa de finada Sinhá. Umas pessoas passavam na rua e comentava sobre o falecimento da mulher. Aristeu aproximava-se do homem em pé na calçada pensativo. É compadre Cassimiro, o Aurélio está é triste.
Depois que Aristeu passava na rua, a noite foi toda de preocupações com a morte de dona Sinhá. Seu Cassimiro sentia de verdade a morte da vizinha. Uma mulher nova e os filhos, coitados, vão sofrer muito a falta dela, dizia o homem.
- A família não tem coração, cada menino da mulher vai ficar com um parente. E só hoje que apareceu um tio marcando o dia para levar o Aurélio para Teresina. 

De noite, porém, na casa da falecida já aparecia outros parentes para levar os meninos. Carolina, Fernando, Salviano arrumavam as malas. Aurélio com uma mochila nas costas enquanto, o tio Tonho fechava a casa com um cadeado. Eles apressavam-se para irem embarcar para Teresina.

Assim que saiam para a rodoviária, Aurélio sacudiu o chinelo e foi até seu Cassimiro agradecer o homem pelo trabalho que tivera com o velório. Pedia desculpas por tudo e agradecia.

- Obrigado! Não precisa me agradecer de nada. Pois é! Tchau! Tchau. Até mais. Boa sorte na capital!
Ele olhava para o rapaz descobrindo alguns traços do neto, irmão de Eunice que morrera de acidente de moto. Sobretudo os olhos castanhos claros e a vontade de vencer na vida.
- Coitado daqueles meninos, agora sem mãe. Cassimiro disse para dona Mundoca.

- Esse parente da finada, só tem conversa! É um matuto velho. Tive vontade de dizer umas verdades. Bicho sem coração! Separar os meninos.

- Ele não devia fazer isto, não é vovô. Dizia Eunice.

Da janela da casa do senhor Cassimiro na rua 10 de novembro, a neta dele, Eunice dizia não concordar com a viagem de Aurélio para Teresina. Ela, uma moça de costumes estranhos, vestuário de roupas na cor negra, metida a gótica, porém delicada nas doces palavras.

Eunice tinha os cabelos lisos, pretos e grandes olhos castanhos da cor de mel. Quando a moça abria os lábios sensuais para falar, completava-se a beleza impecável de uma legítima índia barrense. Mas era assim, um pouco tímida.

- Eunice, o sino da igreja tocou a primeira badalada da novena. Dizia dona Mundoca. Não, ainda não vovó! Você já pode ir? Vovó depois que envelheceu só fala de igreja.

Por isso que dizem que á medida que se envelhece, as pessoas tentam curar os pecados da juventude dentro da igreja, eu hein, ela sabe que tem pouco tempo de vida e que devia mesmo era aproveitar a aposentadoria dela.

- Eunice, Eunice! Te apressa, vamos para a novena. Estou sabendo que o Eusébio vai levar o negócio. Ele arranjou? Sim! Lá para bandas do Matadouro com uns colegas dele. Estou com medo, tu sabes que a polícia está de olho.

Dorinha gritou lá do fim da rua, chamando incansavelmente pela amiga, Eunice. Ei, minha irmã tu se lembra daquele dia, depois do colégio, quando fomos ver o por do sol na beira rio? Sim sei? Ah, não minha irmã ver o por do sol no marataoã só presta mesmo, quando os meninos estão por lá no futebol.

- Quem? Os meninos aqui da rua! Tu dizes isso pelo Aurélio! Sim! A mãe dele morreu não é? Ele foi hoje para Teresina com a chata de prima dele, a Creusa e o intrometido do Getúlio.

- E teu coração? Daquele jeito, apertado com uma saudade. Agora que você desencantou no namoro! Pois, não é. Que destino!

AGUARDE CAPÍTULO 24

sábado, 23 de junho de 2012



CHÃO DE FOGO, CAPÍTULO 22

Enquanto isso, o acampamento dos ciganos estava sendo desfeitos. Zé de Lauro com o pouco efetivo que restou teriam que trabalhar por dois homens. Para eles acabarem com aquela guerra. Tinham pouco tempo e precisavam de mais homens. Não disponha de tanto tempo para recrutar homens.
-Não temos mais pelo que lutar. Disse decepcionado.
O cigano encontrava profunda insatisfação.  Não havia mais a natureza solidária de sua missão.  

- Que armas são estas? Perguntou ele olhando para o homem que se aproximava.
As armas brilhando sob a escassa luz do sol, por entre os arvoredos. Algumas dos soldados que morreram, respondeu.
Deu uns passos para perto do cigano e levantou a mão por cima de sua cabeça para retirar as alças dos rifles. Deteve-se, com o braço levantado, olhando-os.

-Bom, então — disse ele.

Zé de Lauro segurava o fuzil ao longo de seu musculoso braço até sua mão posta na alça de mira. Fuzil dos bons, disse o homem com voz tensa. Ele colocou nos ombros e os fuzis clarearam na dourada luz do sol. O homem consertou um carregador cheio de cartuchos que um dos soldados deixara cair no chão durante o confronto.
- E como você se sente, meu filho? Você gosta muito de sua independência, e jamais permitiu que alguém te diga o que tem que fazer. Falou a cigana Teodora. Com pouco humor.

- Eh... Entendo meus deveres como chefe do bando. Preciso proteger a vida de Rute. Disse ele.

- Preciso contar-lhe uma estória! Disse a cigana Teodora.

- Que estória, mãe Teodora. Sobre seu pai e seus parentes. Disse a mulher. Coronel Hilário é seu pai. Ele não poderia assumi-lo visto que era casado com dona Princesinha. Não queria que a mulher soubesse da verdadeira estória dele com Irene. E como você foi mandado para o maranhão ainda pequeno o homem desconhecido que era o filho abandonado.

O coronel Hilário fez-me prometer guardar esse segredo. Fez com que sempre omitisse a verdade a respeito da sua família. Ele a olhou demoradamente. Zé de Lauro pareceu ligeiramente enternecido. Em seu olhar via-se a decepção e uma formosa e transparente sinceridade.
O ar vibrou e girou entre eles, com o invisível calor do sol barrense, no mês de outubro de 1979. Ele notou que se inclinava para abraçar dona Teodora. Quando um estrondo partiu de dentro do mato. Ambos passaram as mãos nos corpos e perceberam o sangue. Os outros cangaceiros caiam ao chão.
Zé de Lauro caia nos braços da cigana Teodora. Os olhos do homem se fixaram na mãe adotiva e em seguida desfaleceu. O homem morreu abraçado com a mãe adotiva. Um tiro de fuzil atravessou seu corpo. Os outros sem poder reagirem resolveram baixar as armas e entregar-se para a polícia.
O coronel Hilário de pé, atrás dos policiais olhava o corpo do filho morto. Ele sabia que Zé de Lauro era seu filho abandonado anos atrás. Rute quando soube de tudo, dias depois se suicidara no armazém da fazenda enforcada. Ela estava apaixonada pelo do homem que não sabia ser seu irmão.

sexta-feira, 22 de junho de 2012


CHÃO DE FOGO, CAPÍTULO 21

Perto do riacho pontião, os militares se depararam com um quadro tenebroso. Com a cabeça esfacelada, ainda segurando o parabelum na mão, jazia morto um cigano, era Volta Seca. O outro um sujeito alto, de largos ombros, com a cabeça inclinada e os olhos aberto para o sol. Ele tinha recebido um tiro de fuzil na cabeça que espalhou massa cefálica por todos os lados.
O som do tiro rasgando os matos pareciam estrondos de trovões no nascente em período de inverno. De repente se ouviu enorme, torpe e grosseiramente gemido por entre os matos. Soldado José caído de joelhos, com um tiro no peito e os largos dedos sujos de sangue na tentativa de estacar o sangue que jorrava do peito. Tinha sido um escudo humano para proteger os outros da polícia. Em seguida o homem desfalecia.

O comandante Jerônimo recebeu um tiro de raspão no ombro. Outro militar caído no chão ainda rastejava. Ferido, o tenente Jerônimo partiu em retirada com os soldados. Os ciganos que ficaram vivos, mas muitos gravemente feridos, logo partiram para o esconderijo secreto na mata.
-Lamento muito, disse dona Teodora, chorando com tristeza de ter perdido o filho Damião, o Volta Seca.
- Sentiremos falta desses heróis. Disse Zé de Lauro.

Eram homens bons. Tão valiosos quanto os da Batalha do Jenipapo. O sol do meio dia formava uma auréola ao redor de suas cabeças.  Fiquei sabendo que tenente Jerônimo vai deixar a Fazenda. Os soldados que vieram com ele devem se unir a polícia de nossa senhora dos Remédios. Dizia o afeminado Zeca Piedade com a voz trêmula chegando lá da Fazenda por entre os matos espinhentos.
-Se eles querem guerra, guerra terá.
É o preço que alguns têm que pagar para ganhar privilégios de latifundiários. E eu que servi por três anos ao serviço militar, agora vejo que a polícia só serve para os políticos. Disse em voz baixa Zé de Lauro.
- Deve deixá-la partir! Dizia a cigana Teodora. Vocês não tem escolha quanto à isso. Não é necessário que morra tanta gente por um amor impossível.
- Quanto tempo até a polícia chegar aqui? Perguntou Zé de Lauro.
- Quem sabe uma hora! Disse Sete Léguas, encolhendo os ombros.
O líder dos ciganos retrocedeu um pouco.
-Não podemos enfrentá-los. Disse com cautela Teodora.
Perto da gruta, Zé de Lauro despediu-se de seu amor. Ficou a promessa de levá-la até a beira da estrada. Rute desapareceu por entre a mata de cocal. Aproximando-se da Fazenda, Rute se deteve junto tenente Jerônimo que a levou para dentro de casa.
A luz dourada do sol dançava sobre as frestas das telhas por dentro do salão da casa grande. Os raios realçavam seus suaves contornos de seu rosto, realçando o cremoso rubor de suas bochechas róseas, o azul do brilho de seus olhos. Seu sorriso era encantador, sedutor. Coronel Hilário observou em silêncio.
- Aqueles marginais lhe fizeram algum mal? Perguntou ele. Ela assentiu que não.

- É certo que eles não são homens maus, meu pai. Disse, tomando a benção e colocando as mãos lentamente.
- Agora temos trabalho a fazer. Disse tenente Jerônimo.
Os soldados ficaram tratando dos ferimentos, outros levandos para Barras os que morreram. Os que ficaram na Fazenda limpavam as armas.
-Tropa, sentido, descansar. Bradava tenente Jerônimo. 

quinta-feira, 21 de junho de 2012



CHÃO DE FOGO, CAPÍTULO 20


Dentro da mata dos cocais, os ciganos comiam umas coroas de frades. Eles comiam as frutinhas doces, misteriosa e indômita. O cigano Ventania fazia sempre o sinal para os outros homens. Entretanto, fez uma pausa em seu trabalho e se apoiou no fuzil muito sonolento da noite de vigília no mato.

Os moradores do Mocambo adoravam o cigano mestre Zé de Lauro desde os tempos de curandeiro e ofertavam comidas aos homens escondidos no mato.  Para o líder do bando, a única filha do coronel Hilário jamais se casaria com o comandante do destacamento da Polícia Militar de Barras, mesmo que não existisse outra opção. Hilário e Zé de Lauro tinham algo em comum, o coronel já tinha precisado e muito dos serviços dele. A cigana dona Teodora sabia o segredo dos dois. A cigana velha soube por Zeca Piedade que a moça tinha sido mesmo desonrada por Zé de Lauro e que o  filho que morrera de Rute era dele.

Nos últimos anos, nada parecia alterar o passado. A cigana tinha tido que esforçar-se para não revelar a carga do conhecimento.  Quando Zé de Lauro chegou ao acampamento com Rute, ela agitou a cabeça, desprezou seus afazeres para olhar Rute, enquanto conversava com Zé de Lauro. Haveria mudanças profundas na vida deles durante o tempo em que coronel Hilário havia os expulsado das terras do Mocambo.

O cigano Volta Seca tinha ouvido da mãe que Rute não poderia está ali. Rute, não entendeu o conteúdo da conversa. Ela sabia que tinha sido um erro infeliz, Zé de Lauro trazê-la com ele. Não tinha motivos para aceitar aquilo. Nesse momento Rute se virou para olhá-la e chorou, e foi como se um raio de sol tivesse passado através de uma nuvem.

Naquela manhã de outubro debaixo de uns pés de carnaúbas, a beira do riacho pontião no Mocambo. A expressão do rosto da  cigana Teodora vendo os dois juntos negrou sua alma. O destino não poderia permitir aquela união. Ela tinha visto nas cartas. Saudando-os com um rápido e sombrio gesto de assentimento, a velha cigana limpou as lágrimas do rosto.  Ela sentia que aquele gesto de reprovação selara seu destino.

Debaixo do sol das nove horas do dia.  O pequeno cigano Sabiá alertava Zé de Lauro do grande efetivo da polícia que vira chegando à Fazenda de coronel Hilário. Os policiais destacados para a missão avançavam mata adentro. O outro cigano, Volta seca disse:

- Zé de Lauro César, os soldados são muitos.

Talvez por não conhecedor o caráter agressivo dos militares, Zé de Lauro ignorou o conselho do amigo. Ele respondeu:

- Vamos vencer cabra, vamos vencer, sempre vencemos lembra? Está amarelando agora, homem.

Partindo em meio às caatingas e unha de gato, Zé de Lauro sabia que o comandante do destacamento de Barras, não sabia sobre o pequeno número de ciganos e desconhecia o terreno. Mais uma vez, o líder dos ciganos dispensou o conselho do amigo. Quando chegou perto do riacho pontião no Mocambo, o tenente Jerônimo mandou que os policiais ao avistarem os homens podiam atirar.

Em seguida, ordenou que o sargento Morais e o soldado Cássio voltassem para guarnecer o caminhão da polícia na Fazenda. Aos demais, que o seguissem por dentro da mata. Adentraram por uma vereda que dava acesso ao riacho Pontião.

Em dado momento, inesperadamente sentado debaixo de uma árvore no espesso matagal, um cigano cochilava com o fuzil nas mãos. A guarnição saiu em sua perseguição. Eis que inopinada e inesperadamente, os militares cercaram e atacaram ferozmente, os poucos ciganos que foram surpreendidos no meio da mata. Armados de fuzis e em poucos minutos, jaziam mortos os ciganos Volta Seca, Boca negra, o pequeno cigano Sabiá e os militares cabo Justino e o soldado José.

Lá de dentro da mata, gritos de desespero ecoados pelos ventos vindo do riacho Pontião. A cigana Teodora sentada na entrada da gruta ouvia o estampido de mais tiros oriundos da mata. O cigano Ventania correu e falou para Zé de Lauro que estava dentro da gruta:

- Meu irmão Volta Seca ,Boca Negra e pequeno Sabiá foram atacados. Os soldados são muitos.

Zé de Lauro depois de cinco minutos, viu um vulto se arrastando pelo mato e chegando até a gruta. O jovem cigano Adonias sangrando. O rapaz com um tiro no peito e cortes profundos na cabeça. Tremendo e arquejando, ele ainda disse, não deixem que os macacos acabem de me matar. Logo após, ouviam-se só uns gemidos vindo do mato. Era os ciganos Simon Bolívar  e Sete Léguas arrastando outros feridos e quase morrendo. Foram atacados de surpresa.

- Vi Volta Seca estirado no chão e o Boca negra também.  Acho que morreram. Disse Sete Léguas.

O cigano Sete Léguas reuniu os outros capazes de se moverem, mesmo os feridos em pequena gravidade, e foram ao encontro da cigana Teodora na gruta.
- Vamos para o esconderijo. Gritou Sete Léguas.

AGUARDE CAPÍTULO 21

quarta-feira, 20 de junho de 2012


CHÃO DE FOGO, CAPÍTULO 19


O mocambo todo comentava o rebuliço que os ciganos fizeram na Fazenda Córrego D’água de coronel Hilário. Chegava de Barras um caminhão de um agrupamento de militares para averiguarem o ocorrido. Ainda com os olhos vermelhos de sono, coronel Hilário respondia às perguntas dos militares. Um deles queria saber dos meios utilizados pelos facínoras; um outro, trazia um álbum de fotos para reconhecimento. Perguntaram também pela lista de mercadorias roubadas, se era do armazém ou do pessoal do lugar.

Voltaram a organizar-se para a caça aos homens. E todo o inquérito cheio de informações. O chão de fogo ainda exalava uma fumaça enegrecida pela quinta da Fazenda. O capim seco ainda queimava e olhando com ar de ódio e vingança no coração. Ele escutava a notícia do ataque pela Rádio Difusora.

Um soldado magro procurava saber, quais as armas que os ciganos utilizaram. E começaram a contar histórias de confrontos entre polícia e ciganos pelo lado do retiro de Boa Esperança. Já ia escurecer quando chamaram o tenente Jerônimo, o pretendente a casar com a filha do coronel Hilário.

Era a primeira vez que o militar participaria de uma missão assim. Na Fazenda, os militares armavam o plano de incursão naquela manhã nas matas do Mocambo. O coronel Hilário sentou-se junto ao futuro genro, tenente Jerônimo. Ia submeter o militar a um exame ligeiro. Fez umas perguntas sobre o tipo de criminosos que invadiram a Fazenda e a cada resposta sentia um susto.

- Devem ter vindo do lado do Maranhão. Eles vivem de assaltos e invasões. Costumam a trocar os nomes por alcunhas. Ouviu o apelido de algum dos homens? Não.

- O senhor não sabe como são perigosos. A missão dessa manhã é esta mesmo, uma verdadeira caçada humana. Pode ir lá para dentro da Fazenda e fechar o Armazém. Coronel Hilário dizia, é o que vou fazer. Tenente Jerônimo com entusiasmo que iria tomar conta da missão.

E voltando-se para o velho:

- Tem que arranjar comida e alojamento para o pessoal.

- Sim, ficam aqui mesmo.

Dizia isto com as mãos para trás, por cima do espaldar da cadeira, e com as pernas cruzadas. Coronel Hilário era meio gordo, espichava-se na espreguiçadeira, com os olhos voltados ao comandante da missão. Lá fora da Fazenda, os soldados indagavam a ele sob o lugar que poderia está os homens.

- Tem muitas grutas por dentro do mato. Dizia ele.

Escutava toda a conversa, o tenente Jerônimo tomando toda precaução para a missão. Faltava chegar de Barras mais munição e armas.  A grande alegria de todos ali estava na esperança dos militares que vinham de Nossa Senhora dos Remédios ajudarem nas buscas. Os fuzis ficavam com o armeiro, o soldado Felipe.

- O senhor é o responsável pela cautela dos homens. Tome nota arma por arma. Não permita que ninguém pegue arma sem cautelar.

O tenente Jerônimo, um legítimo representante da tirania, excedia-se em zelos. Às cinco horas do dia dava as últimas preleções aos militares. Ninguém podia trocar palavras, somente quando autorizado. O romper da aurora nos céus expandia-se.

O militar Tenente Jerônimo destacado de Barras para a missão no pátio da casa grande da Fazenda falava em voz alta com a tropa em forma. O coronel Hilário e ele planejavam a morte de todos os ciganos e o resgate da filha, Rute.

 - Tropa! Seeentido! Descaaansar! Fora de forma. Brasil!

Dentro da casa grande da Fazenda, os militares da Polícia Militar lubrificavam os fuzis para deixá-los pronto para o momento do combate com os ciganos. Hilário levantou da cadeira preguiçosa e ficou de pé da janela. Ele olhava para o nascente com o sol rompendo a aurora.

A luz do sol dava um agradável resplendor aos cabelos grisalhos do terrível homem. Seus olhos tinham a cor azulada e contrastava com o céu de tormenta. O homem inclinou a cabeça para admirar a magra figura do Tenente Jerônimo. O militar era alto, mas estava com graça, afobado e com vontade de resgatar a futura noiva.

Demorou poucos minutos, cerca de quinzes soldados esperavam lá fora, ás ordens do comandante. Quando entraram nas matas do Mocambo, os soldados ganhavam terreno caminhando por entre mandacarus e unhas de gato.  Não havia dúvida de que poderia o contingente militar ganhar o combate.

Nos últimos anos, o grupo os Justos do Norte tinha enfrentado com naturalidade e ousadia os militares e vencidos todos os combates. Tenente Jerônimo tomara aquilo como pessoal e ele gostaria do suavizamento e vitória na batalha, como honra e assim casar com a filha do coronel e ser o dono da Fazenda Córrego Dágua. Buscava também o intento da promoção ao posto de capitão. Rute seria uma excelente esposa, mas ela não era para ele. 

AGUARDE CAPÍTULO 20

terça-feira, 19 de junho de 2012


CHÃO DE FOGO, CAPÍTULO 18



O homem acordou do sono rápido. Lembrou que Rute depois de anos atrás ainda o despertava muito no amor. Mas não pôde acreditar que uma criatura tão bela e adorável pudesse ser a filha do malvado coronel Hilário. Além disso, todos sabiam no Mocambo que ela iria entregar o seu coração ao ambicioso tenente Jerônimo, homem muito temido na cidade de Barras.

- Está na hora Volta Seca.  Disse ele olhando para o relógio luar.

Os ciganos olharam-se, com receio do que iriam fazer. Eles tinham acabado de entrar pela cerca do lado da casa de forno. Um dava o toque para o outro avançar no ponta a ponta. De longe, os homens armados viam os jagunços conversando e fumando cigarro, sob a claridade dos lampiões acesos. Outro no canto da varanda da casa grande deitado numa rede balançava-se, com a espingarda nas mãos.

Para Zé de Lauro, aquela ação deveria sair sem disparar um único tiro. O recado para a hora da invasão tinha foi dado por Zeca Piedade, um afeminado que morava na Fazenda e trabalhava na cozinha. Ele era o afilhado de dona Teodora.  Zé de Lauro olhou o rosto adormecido de uns dos jagunços que cochilava na rede de tucum, com um rifle nas mãos. Dominou-o.

Naquela altura o coração do cigano tinha o estado de feitiço. Na mente, um tanto cheia de pensamentos desconexos. O cigano Boca Negra desceu a calçada de degraus e agarrou mais outro jagunço, a contragosto. Levou-os para a casa do forno e os prenderam lá.  Os outros ciganos, já sabiam o que deviam fazer. Um dos jagunços que ficava pelos lados dos fundos aproximou-se, ele ouviu um barulho estranho. O homem resolveu verificar o que era. Zé de Lauro do meio das trevas agarrou-lhe pelos punhos, e em seguida dominou o homem que ficou desacordado.

De longe ele fez sinal para Volta Seca aproximar-se da casa grande da Fazenda. E assim se olharam. A lua mal iluminava. Os dois sabiam que o quarto do coronel Hilário estava perto. Volta Seca esticou a mão para abrir a fechadura.  De repente, ouviu barulhos vindos pelo corredor da casa. O coronel Hilário abriu a porta, após ouvir rumores. Eles foram até os aposentos da filha do homem, Rute e despertaram-na do sono. Os ciganos esperaram o coronel Hilário abrir a porta do quarto. Era preciso dominá-lo. A Fazenda estava vazia depois que os jagunços foram dominados.

A casa grande, com um salão cheio de tamboretes, e uma cadeira de braços em frente de uma mesa, em cima de um estrado. Zé de Lauro ficou por ali. Não tinha como se aproximar sem antes fazer barulho na escada. Foi quando Zeca Piedade o chamou:

- Zé de Lauro!

Ele calado no escuro. Depois começaram a chegar outros ciganos, uns dez. O chefe Zé de Lauro com um chapéu preto grande na cabeça, a pala caída sobre os olhos encarava o coronel Hilário já amarrado, sem mostrar o rosto. A roupa dos ciganos parecia com a dos soldados da polícia naquela época, exceto pelos chapéus marrons. Foram-se chegando outros ciganos:

- Onde está a chave do armazém? — perguntava o cigano Ventania.

Ele conhecia muito o coronel Hilário. Sabia que o velho coronel era uma peste naquele pedaço de chão. Todos diziam que Barras vivia um tempo de chão de fogo. Por qualquer coisa ele estava dando em gente, amarrando caboclo, queimando casas e expulsando moradores. Os homens desceram a escada rumo ao armazém. Uns ciganos colocavam os sacos de feijão na carroça do grupo. Quando saíram da Fazenda, eles tocaram fogo na solta do capim seco.

- É Chão de fogo. Gritava o cigano Quirino leão.

AGUARDE CAPÍTULO 19

segunda-feira, 18 de junho de 2012


CHÃO DE FOGO, CAPÍTULO 17


Assim que Zé de Lauro terminou de armar o fuzil, o amigo Damião lhe deu uma cotovelada para que prestasse atenção à estória de Lampião. Ele se inclinou para olhar dona Teodora que vinha com a chaleira do café nas mãos. Zé de Lauro a olhou carinhosamente com seus olhos castanhos, e esse foi o motivo para que a cotovelada de seu irmão, o chamasse a atenção ao enredo da estória. O homem obedeceu e ficou atentamente ligado na estória do amigo Damião.

- Lampião, um sujeito que lutava por justiça social. Contava Damião.

Ah, um dia Lampião andando por terra piauienses ficou arranchado perto da localidade Mocambo. Ele procurava pelo dono da Fazenda Córrego D’água, coronel Hilário, um sujeito na época bondoso. Dono de muitas terras e a qual todos os moradores adoravam-lhe tê-lo como patrão.

- Como pode coronel Hilário ter mudado tanto? Perguntou Zé de Lauro.  

- Pois é! Respondeu o amigo. Um dia iremos derrotar esse coronel, e então tudo será melhor para o povo.

Damião empalideceu diante do que dissera o amigo e continuou com a estória. Naquela noite, a luar escondeu-se por trás de uma neblina tão espessa que ninguém via a luz das estrelas que brilhava entre as nuvens cinzentas no céu.  Zé de Lauro voltou a limpar o fuzil e depois ficou sentado no chão olhando para a entrada da Fazenda.

Ele era um homem de natureza forte e enérgica, mas faltava a tranqüilidade do amigo Damião. Começou a cochilar e no sonho via o quarto de Rute. Dona Princesinha na cozinha da casa grande ajudando Zeca Piedade. Ele entrava no quarto de Rute para repousar ao lado dela.  Rute era a jovem mais bela que ele tinha visto em sua vida, com cabelos loiros e a pele branca como nata. Os olhos azuis da cor do céu irradiavam seu coração.

Zé de Lauro sentia que o coração golpeava no peito enlouquecido. Compreendeu que aquela mulher despertava tanto uma paixão. Quando entrou no quarto dela, ele viu Rute deixar por uns segundos seus olhos azuis, olhos da cor azulina do céu, assim que a moça moveu as mãos para pentear, os lindos cabelos loiros sobre o rosto. 

AGUARDE CAPÍTULO 18