segunda-feira, 24 de setembro de 2012


NA ESSÊNCIA DA ALMA POÉTICA - 2009 - POESIAS GÓTICAS

ANJO REBELDE

Sou o anjo rebelde de asas de indecência e nefasto,
Que dos lábios saem palavras de escarro e amargura,
E nos olhos doentes sangrando refletem a beleza na feiúra,
E nos ranger de dentes gritos de calafrios bem escassos,

Sou o anjo que perverte o profano na libido do humano,
E que sente prazer na dor do sofrimento angustiado,
E orgasmos na perdição das sensuais orgias do mundano,
E infectando orgulho e egoísmo no seio semeado,

Nas noites de tempestades, o relâmpago escuro em tormento,
O medo da chuva na insônia da depressão do sonhar,
O pesadelo inquieto no canto dos trovões enfurecidos,

A lembrança que não cala e que chora em soluço esquecido,
A tristeza que ri e que geme em prantos no momento,
O espelho que reflete o avesso da imagem no brilhar.

VALE A PENA LER DE NOVO
NOVELA BARRENSE 
JOGO BAIXO


VI
Samantha e La marque

A história de La marque e Samantha teve inicio como qualquer um caso amoroso e proibido, já condenado desde o começo pelas leis da moral e de Deus. Foi mais ou menos assim. Dizia ele entre uma baforada do cigarro hollywood e uma gargalhada do companheiro de cela o velho Caçoleta que erguia a cabeça ao fundo para escutar a estória do garimpeiro preso por crime de assassinato.

...Eu a amava com mil loucuras. E não é escárnio descrever isso.

Sempre me lembrei de tudo que fazíamos ás escondidas. Samantha era a mulher do vaqueiro de meu pai, Pedro Malta. Ele teve que internar-se ás pressas no hospital Leônidas Melo vítima de um dente de uma cobra peçonhenta encontrado na bota dele e dias depois veio a óbito. Disseram que foi por causa do veneno. Depois da morte do homem minha vida transformou-se em um romance sem um final feliz. Eu lembro que Samantha foi à primeira mulher que realmente amei na vida.

— Samantha! Samantha! Um amor verdadeiro que foi como uma lenda, amor verdadeiro é sempre uma lenda, mas que importa se essa lenda não mais existe?

A vida é como um jogo de damas e para as damas. O amor é um jogo de damas para umas damas. Um dia viver o céu, outro viver o abismo. Um dia viver uma vida de ouro, outro viver o redemoinho no fundo do poço, numa cela de cadeia pública. Meu pai é Francisco Mafagafos, um homem já falecido que foi dono de muitas posses, muita terra para o lado do Mocambo, último dos velhos coronéis das Barras de marataoan.

O velho adoecera e gastou muito com o tratamento de saúde. Isto nos empobreceu de vez, nos endividou bastante. Nossa vida de conforto chegou ao fim. Para completar um incêndio na solta de capim. Eu acho que foi criminoso e o fogo devastou todo o pasto do gado. A terrível tuberculose alimentou a seiva de morte do velho. Depois da morte de meu pai Francisco Mafagafos, o meu lance para sustentar os cinco irmãos e salvar a Fazenda rio Doce das muitas dívidas foi o Estado do Pará. 

Muitos foram para lá e voltaram ricos, já outros não. O garimpo da Serra Pelada era a caixa de fortuna para uma vida inteira. Lá eu fiquei rico, mais muito rico. Final dos anos oitenta na Serra Pelada ninguém ostentava mais riquezas do que eu. Consegui salvar a Fazenda das dívidas, mais paguei um preço muito caro. 

Perdi meu amor, perdi Samantha. Muito ouro e nenhum garimpeiro gastavam tanto dinheiro nas noites paraenses, como eu gastava, porém o suor de vinte anos no garimpo não se esvaia no leito solitário das mulheres perdidas na vida fácil e nos salões das orgias noturnas. 

Jurei para meu pai salvar a Fazenda secular da família e parti para o garimpo com a promessa para Samantha de voltar para casarmos. Quando cheguei ao rancho no meio da floresta amazônica, eu ali finquei os sonhos com se finca uma âncora. O encarregado do garimpo um homem muito bom, mas ambicioso que nas faces enrugadas caiam-lhe os crespos cabelos onde a ambição almejava alguns quilates de ouro e mais
ouro. Assim que iniciei o trabalho ele indagou-me:

— Quem é você La marque?

— Um desgraçado que não pode viver na terra que nasceu, e não se deixa morrer no leito que viveu. Respondi.

— Quer fazer a vida aqui no Norte?

— Sim, senhor. Respondi.

— Aqui é onde está a sua liberdade ou prisão rapaz.

— Liberdade ou prisão, o certo é que não entendi!...

— Sim liberdade, liberdade rapaz, é a riqueza, ninguém é livre se não for rico, mas também pode ser uma prisão, o dinheiro.

— Não quer ser rico? Pois descruze os braços.

O chefe do garimpo franziu as sobrancelhas, e passou adiante para o lugar juntamente com muitos homens com pás e enxadas. No rancho tinha uma bela moça. Os garimpeiros a respeitavam. Quando pelas noites de lua cheia por entre os arvoredos da floresta, ela sentava perto da fogueira e com as mãos segurando a face apreciando a linda visão lunar. Era a mulher do chefe dono do garimpo. Raimundo Dias era um homem brutal e valente. Ele já tinha a desposada de um homem por vinte pepitas de ouro. 

Durante uma noite de outubro de 1979 abriu-se à lua solitária no céu, e adormeci pensando nela ao frio da floresta aquecendo-se perto da grande fogueira. Os outros homens que trabalhavam no garimpo foram para uns bordeis que ficavam longe uns trinta quilômetros do rancho, eles iam amar, mas amar muito. Eu fiquei só na minha rede. Ouvi muitos garimpeiros e seus amores singelos: eram moças loiras de Marabá e de Conceição do Xingu, alguma de cabelos negros pareciam mais índias do que meretrizes. Eu fiquei de vigília a noite toda esperando os outros chegarem dos bordeis.

O chefe confiou-me a honra da esposa para vigiá-la na sua ida para a cidade. Eloá tinha uma melancolia, uma tristeza no rosto, ás vezes ela ria sozinha, mas era um riso tão triste que doía. Coitada! Com suas lágrimas, com seus sorrisos, com seus olhos úmidos e os seios intumescidos de suspiros, aquela mulher me enlouquecia as noites. Era como uma vida nova que nascia cheia de desejos no meio da floresta, quando eu a via. O chefe não retornou naquela noite e nem na noite seguinte. Durante uma madrugada, ela foi até minha tenda.

Eloá chegava cada vez mais perto da minha rede. Eu não dormia, virei de lado. Ela fugiu, enfim a mulher cedeu novamente. Toda aquela noite, eu passei com a mulher do dono do garimpo nos braços. Era uma mulher que enlouquecia qualquer homem. Os gemidos nos sufocavam e nós rolávamos abraçados, deitados na rede. Quando a barra avermelhada do dia nos céus, anunciava ela voltava para a tenda e o homem chegava com os mantimentos da semana.

domingo, 23 de setembro de 2012


NA ESSÊNCIA DA ALMA POÉTICA - 2009 - POESIAS GÓTICAS

A SEGUNDA VOLTA DO PARAFUSO

É volta na ida feito espírito em humano,
É a contradição no argumento convincente,
É o pensamento nefasto e infecto desumano,
Na consciência da pobre alma vivente.

Assim é a segunda volta do parafuso,
Cheia de mistérios na ida e volta,
Quando entra efêmera, sai feito revolta,
Na mente do humano débil e confuso,

É órbita do sentimento em rotação,
No eixo da gravitação do inconsciente,
No plano extra da atmosfera na paixão,

Na quinta estação do esquecimento,
Da audição na oitava nota e dormente,
Na fugacidade das lembranças somente.
VALE A PENA LER DE NOVO
REPRISE DA NOVELA BARRENSE JOGO BAIXO

V

Cinco anos depois Tudo isso aconteceu há cinco anos. O tempo, ele via passar pela janela. O sol levanta e deitava-se com o passar dos dias. Recluso La marque não tinha noção do tempo e nem direção para onde ir, assim que saísse de uma das celas da cadeia pública. Se, ele é inocente, julgue você mesmo, se não o acuse e deixe o homem pagar por seu erro. Os preparativos para os festejos da padroeira em novembro de 1993 movimentavam a cidade. 


Cinco anos passara-se e nada do julgamento de La marque acontecer. Dentro da cadeia pública e ainda sem julgamento, ele vencia os dias jogando damas. Fazer o tempo passar é algo impossível quando a ociosidade impera no claustro. O jogo de damas, o passatempo favorito dentro do local depois da leitura dos livros.



— Agora é a minha vez! Quero também apostar um dinheiro no jogo.



— Ei La marque, este teu dinheiro parece com o de mendigo.



— Só parece amigo, pois não é de esmola, certo!



Era assim na cadeia pública sempre na ocasião do jogo de damas. Não se sabia quem no fim do jogo saia perdendo ou ganhando. La marque apostava e sempre ganhava. Ganhava mais nas idéias e no poder de influenciar os outros, poder de convencimento. O velho Caçoleta sempre jogava contra o homem. O homem era uma figura de gente das boas, bem diferente dos outros presos. 



Quando perdia no jogo de dama ficava com o rosto avermelhado de raiva, mas um vermelho que logo se desfazia assim que outra partida iniciava e ele dava um porco em alguém. Faltava comer uma dama para La marque ganhar a partida, já para o preso Caçoleta faltavam ainda fazer uma dama com duas pedras: com muito sangue frio, e muito esmero no jogar La marque ganhou a partida. Comeu as pedras de uma só vez. O grito de vitória ecoou pelas grades da cadeia pública. 



Nessa ocasião o cabo Villaça zangou-se com um dos homens. O cabo Villaça, um moço moreno alto, tido com o mais violento da polícia, voluntariamente ou não, se encostou à grade da cela e despejou uma balde de água gelada no rumo dos presos: com o desvio da balde no ar, ele derramou tudo molhando os dois homens ali em cárcere... A raiva lavou a alma de La marque, o vencedor do jogo. La marque adiantou-se para ele perto da grade da cela. 

Com o olhar ardendo de ódio, o homem sacudiu os cabelos molhados e riu com o escárnio que riem os maus diante da impotência do ato. Cabo Villaça caminhou para perto dele: ressoou uma bofetada na cara de La marque. O moço convulso caiu para o lado de dentro da cela, o amigo ainda tentou sustentá-lo, mas em vão. O chão foi à parada final.



— Isso aqui é por Samantha, seu covarde!



O pobre homem cortou o lábio por causa do bofete e limpou o sangue que escorria pela boca. Era insulto atrás de outro insulto; Meia hora depois o cabo Villaça tomou-lhe La marque com as mãos e com sangue frio disse-lhe no ouvido:



— Eu a amava.



— Eu não matei ninguém, senhor... Dizia La marque.



— Bem, muito bem: Diga isso ao juiz.



Depois disso La marque chegou para o companheiro de cela, o Caçoleta e disse:



— Eu sou inocente.



— Acredito em você. Respondeu o homem.



Chegava o horário de visitas. Quando Helena entrou e La marque falou:



— Por que você ainda me acusa?



— La marque, disse ela, não há como tu negar mais homem.



— Mas, o meu julgamento será daqui a seis meses.



— Pois bem: tenho uma boa proposta para você. Disse a mulher.



— Qual? Perguntou ele.



— Samantha dizia que você trouxe muito dinheiro. Você sabe que quero arrumar-lhe um advogado, não sabe?



— Sim, entendi! Em troca de quê?



Helena saindo devagar ainda teve tempo de responder.



— Liberdade, sua liberdade, sabe que sou sua única amiga que acredita em você!



O homem ficou pensativo e recolheu-se ao fundo da cela. Ele sabia que Helena, uma mulher que conhecia somente um nome na vida. Dinheiro. Dela só apertava-se os lábios, quem pagasse, e não era nenhum segredo para ninguém.



— E tu, La marque pensa logo! Depois volto.

sábado, 22 de setembro de 2012

POETA MIRIM ESTRÉIA NA LITERATURA BARRENSE COM O 

POEMA INÉDITO...

CARLOS EDUARDO MORAIS

      FOTO: ARQUIVO PESSOAL

TERRA QUERIDA

Barras é a minha cidade
Um lugar encantador
Onde tem muita gente boa

E um povo trabalhador

Essa é a minha terra natal
Tem belezas para se admirar
Começando pelos prédios públicos
Das belezas naturais como o Longá

Aqui tem gente religiosa
Igrejas não pode faltar
Cultos, missas e pregassões
Esse é meu lugar

Há praças bonitas
Iluminadas e arborizadas
Outras precisam ser ajeitadas
Pra que os jovens
Encontrem com as namoradas

Barras tem muitos comerciantes
É o sustento de muitas famílias
Sem contar que tem outros ocupantes
São os vendedores ambulantes

É uma cidade de políticos
Fazem de tudo pra ganhar
São os vereadores e prefeitos
Que escolhemos para votar

NA ESSÊNCIA DA ALMA POÉTICA - 2009 - POESIAS GÓTICAS

A OUTRA FACE DO ESPELHO

Reflexo que gela o sangue coagulado no coração,
Escorrendo na imagem a decepção de um olhar,
Numa infecção impura da luz no brilho da paixão,
Numa ótica da matéria negra do sofrer e do calar,

Cai a máscara refletida do desgosto e do desespero,
De uma dor dormente do orgulho viciado,
Do fulgor bacanal das lágrimas na face do espelho,
No oculto vão do rosto débil de um influxo derramado,

No ódio do choro eficiente de elos retorcidos,
Do prenuncio fúnebre e intimo da fantasia,
Exprimida na sucção amarga de uma noite de agonia,

De um amante na insônia de gritos de gemido,
Sentindo na pele o arrepio triste e impelido,
De um déficit da face que escraviza e renuncia.
VALE A PENA LER DE NOVO
REPRISE DA NOVELA BARRENSE JOGO BAIXO
SUCESSO DE LEITURAS


IV

Destino traçado


La marque um rapaz cheio de talento na persuasão e de muitos disfarces e artimanhas. A segunda mulher que La marque amou foi Eloá quando ele esteve ausente por vinte anos nos garimpos do Pará e com essa mulher passou momentos felizes, mas com um final infeliz. Quando conheceu Samantha, ela era da idade dele. Já Eloá era mais velha.



— La marque essa medalhinha de nossa senhora da Conceição é pra te proteger! – disse Samantha entregando o objeto ao amante.



Samantha escreveu-lhe uma longa carta quando ele viajou para o Pará. O amante nunca respondeu. Depois de vinte anos no garimpo resolveu cumprir a promessa do casamento com a mulher. A surpresa foi imensa quando retornou. Samantha decepcionada e sentindo-se abandonada por ele resolveu ir embora da Fazenda Rio Doce e passou a viver na prostituição como forma de sobrevivência.



De volta a Barras um fato horrível aconteceu que mudou os destinos deles para sempre. O que começarei a narrar, talvez pareça uma confissão ou uma defesa, mais é a única forma de mostrar a verdade do que realmente aconteceu naquela triste noite do dia 13 de janeiro de 1988. Samantha ainda sentia a tristeza do abandono. Ela e Helena dirigiam-se para o terminal rodoviário Toinho Carvalho. As árvores desfolhadas com os ventos vindos do nascente e destacavam-se nitidamente com o inverno rigoroso que banhava a terra de marataoan.



— Ele chegando com muita grana do Pará! Disse Samantha.



— Temos que dar cabo da vida dele! Dizia Helena.



A mulher ouvia atentamente Helena planejar a morte de La marque. O único consolo era saber que a morte dele, com uma compaixão irônica, libertariam as duas amantes da vida fácil na prostituição e serviria como indenização pelos anos em que esteve abandonada. Quando ele desceu do F. Cardoso, ela respirou profundamente.



— Que saco, ele está chegando!



Com uma sensação crescente de incerteza, Samantha e Helena aproximaram-se. De cima da rodoviária Samantha sentia que as preocupações do dia-a-dia no bar das Estrelas se dissolviam aos poucos. Pouco a pouco estaria entrando no mundo da riqueza, onde os problemas não provocariam alarde. La marque aproximou-se da mulher, tentando adivinhar o tamanho da saudade que os consumiam. Helena riu meio sem

graça com um palito de sorvete na boca, segurando-o sob a língua durante uns segundos.


Quando o homem desembarcou no terminal Rodoviário Toinho Carvalho, o cartão de visitas de Samantha esperando por ele foi um abraço com muito afeto e carinho na frente da amiga Helena. A saudade da mulher transbordava por ele ter deixado-a esperando por vinte anos e sem dar notícias se estava vivo ou morto. Depois das trocas de carinho, dentro do hotel São José, La marque ensaiava um pedido de casamento para a mulher assim que fosse pegá-la no bar das Estrelas. Lembrou das últimas palavras da amada.



— Vou te esperar ansiosa! Dizia ela.



— Pode arrumar as malas, pois partiremos para o mocambo cedo!



O céu com poucas nuvens esparramadas e cinzentas esvaia-se pelos ares barrenses no começo de janeiro de 1988. As horas corriam como fiapos de nuvens nas imensidões do infinito dos céus pela noite já mergulhada nas altas horas da madrugada. O bar das Estrelas não tinha clientes bebendo. A Rua da Brega com um pouco de luz e alguns espaços entre os portes elétricos preenchidos com trevas e sombras. A cidade com suas ruas totalmente desertas, somente cães ganindo e outros a ladrar nos portões das residências.



Na madrugada de 13 de janeiro de 1988, acontecimentos eternizaram o lugar que era o principal ponto de diversão das noites barrenses perto do centro. Após a luz de a lâmpada incandescente raiar de súbito pelas frestas da porta do quarto da mulher, ele viu o impossível, o inenarrável. Depois que abriu a porta, encontrou a linda mulher com o lindo vestido negro todo ensangüentado. Ela tinha a pele pálida e os lábios pintados com um tom carregado no vermelho que contrastava com o sangue no piso de cimento amarelo do lugar. 



De dentro do quarto a luz da lâmpada erguia-se em fachos com a claridade e o homem testemunhando a terrível cena. Assim que abriu a porta dava-se para ver a beleza típica da mulher morta. O nome dela Samantha, a mulher com quem casaria o garimpeiro La marque. Uma mulher que todos conheciam na cidade, principalmente os menores de idade, no auge da adolescência, quando faziam loucuras com ela dentro da mente. Muitos tinham o desejo voluptuoso de tê-la nos sonhos. A mulher parecia uma modelo de revista masculina in natura e ao vivo quando desfilava pelas ruas de paralelepípedos da terra dos governadores.



Naquela madrugada aconteceu algo de sinistro e podiam-se ver nos olhos inquietos de Samantha minutos antes de morrer. Os lindos olhos castanhos claros vinham inquietos, os lábios trêmulos no tom forte do vermelho, as mãos delicadas e macias com unhas pintadas de um esmalte negro e o vestido com pequenas gotículas de água do sereno fraco que descia dos céus barrenses.



— Logo você, eu nunca imaginei! Sussurrou Samantha antes de morrer.



Cedo da noite, ela tinha ido arrumar os cabelos e unhas no salão de cabelos Fios de ouro. Quando terminou algumas testemunhas, dizem que Samantha saiu lentamente pela rua com destino ao quarto dos fundos do bar das Estrelas. Parecia uma deusa ou um anjo inebriando-se na noite, mas ela não ofertaria as deliciosas loucuras sexuais aos homens naquela noite e sim ao homem com quem esperara por vinte anos. A mulher dobrou antes das cadeiras perto da entrada do bar, a esquerda da porta e com as mãos abria o cadeado da porta sob a luz incandescente do pátio que iluminava os longos cabelos negros oferecendo a linda face de um rosto que muitos homens conheciam ou tinha o prazer de conhecer por míseros cruzeiros.



Quando Samantha cruzava as pernas, muitos adolescentes queriam está ali, ajoelhados como escravos vendo a visão do belo cruzado de perna á Sharon Stone. De repente, La marque chegou pouco depois das quatro e meia para levá-la para a já falida Fazenda Rio Doce no mocambo. Sentiu vontade de urinar e foi para um canto mais escuro. O sereno da noite aumentava e ele protegeu-se debaixo das biqueiras do telhado do local.



De longe viu quando uma pessoa ergueu o trinco da porta do quarto e destrancou. Ficou com receio de aproximar-se, afinal poderia ser um cliente indesejável àquela hora procurando pelos serviços de Samantha. Depois um vulto que não sabe se homem ou mulher saiu rapidamente do quarto dela. Alguém meteu o dedo no interruptor e apagou a lâmpada ao sair. Os passos da pessoa seguiam-se rapidamente pelo pé da parede e o som de uma fraca chuva os ocultava. Um relâmpago mais forte apagou a energia elétrica por inteiro, fato que sempre acontecia em Barras por ocasião do inverno rigoroso. Minutos depois a energia elétrica retornava.



Uma punhalada no lado esquerdo do peito de Samantha e o sangue da mulher espalhavam-se feito sombra no lindo corpo esculpido pela natureza. A mulher ainda pendeu uma mão de cima da cama e agarrou a foto do amante pela última vez. Naquela madrugada, não existia o movimento de homens e somente uma pessoa havia deixado o quarto da meretriz Berenice, o amante dela William Pequi. O bar das Estrelas calmo. Berenice dormiu embriagada no quarto dela que ficava perto do quarto de Samantha. Berenice havia bebido várias garrafas de vinho com William Pequi que ia embora depois de pagar a chave para dona Marieta com a barra vermelha do dia quase raiando. La marque caminhou pelo corredor que dava direto para o quarto dos fundos.



Quando entrou no último quarto dos fundos do bar das Estrelas e com uma das mãos enxugava os cabelos que havia se molhado na ida até o quarto, ele avistou Samantha atirada sob a cama toda perfumada e desfalecida. Sacudi-a e com gritos pedia por socorro. A prostituta Helena entrou rapidamente no quarto e viu o punhal nas mãos de La marque quando o homem olhava para o objeto que tirou a vida da mulher.



— Ei, Samantha acorda! Dizia o homem.



— O que tu fez a ela? Perguntou Helena.



— Encontrei assim, morta! Respondeu.



— Você a matou? Perguntou à prostituta.



— Não!



— Chega gente! Ele matou a Samantha!



— Meu Deus! Meu Deus! Dizia dona Marieta ao entrar no quarto.



E ele a beijava com mil juras de amor.