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JOGO
BAIXO
capítulo 09
IX
Morte do vaqueiro
O locutor anunciou o grande vencedor da V grande Vaquejada dos Mimosos.
Correu-se por toda a região o nome de Pedro Malta como o vencedor. A última
porta abria-se para nosso romance. O vaqueiro empolgou-se com o prêmio da
competição. Ele dedicava-se as vaquejadas e fazia uma viagem atrás de outra.
— E não era perigoso? Perguntou Caçoleta.
— Sim, mas quando se ama o perigo quase inexiste.
Logo, Pedro Malta
adoecera. Ele foi retirar o cavalo de dentro da solta para competir e uma
cascavel picou o homem, aliás, um dente de cascavel cravado na bota dele, se o
dente estava ali e foi intencional ninguém prova. O vaqueiro chegou ao hospital
Leônidas Melo já quase sem forças.
— Um de nós teria
que dar lugar ao outro.
— E o que
Samantha dizia de tudo isso? Interrogou Caçoleta.
— Ela tinha medo,
medo de tudo e de todos no lugar.
— E com a morte
do Pedro Malta?
— O que teve? Ah!
Ela seria minha, sem precisar de um ter que matar o outro.
A notícia da
morte dele chegou à Fazenda a meia-noite. Eu estava para ir à cidade.
— Pedro Malta
morreu!
O destino foi
quem escolheu com a ajuda de um dente da cascavel cravado na bota do homem.
— Agora vamos
almoçar Caçoleta, esta estória me deu fome. Disse La marque.
— Espera, tenho mais
uma pergunta. O que aconteceu depois disso.
Ajoelhei-me junto
ao meu leito para rezar por ele e agradecer a Deus pelo presente. Quanto a
minha amante, o seu amor se saciaria só do meu. Eu amava mais ainda a mulher.
No velório chegamos a caminhar lado a lado no cortejo.
— E o povo não
desconfiava?
— Não. Eu lá
queria saber o que o povo iria pensar. Tive uma idéia: era uma boa hora de
ajudar uma viúva.
Assim que terminavam
o almoço, La marque contou a história do pai Chico Mafagafos.
— Eu não gosto de contar essa história, porque meu pai não é tão inocente.
— Sim, conte a história!
Disse Caçoleta.
— Sim: a história
é que meu velho pai Chico Mafagafos morreu de tuberculose. Sabe, Caçoleta, um
filho desesperado e o que um filho não faria para salvar o seu herói. É certo
que um erro não justifica outro, mas é preciso reparar ou amenizar o dano
causado...
É uma lembrança
triste essa que vou revelar, porque é a história de meu pai, o velho Chico e de
duas mulheres. Chico Mafagafos, um desses velhos coronéis donos de terra aqui
em Barras. Recentemente tinha comprado uma casa no bairro Boa Vista para eu e
minha irmã Glória estudar na cidade.
O velho Chico
Mafagafos depois que minha mãe dona Princesinha morreu, ele casou de novo com
uma beleza de mulher beirando os dezenove anos. Diziam uns lá da Boa Vista que
o casamento da jovem foi por interesse e que o velho não daria conta da beleza
da moça.
A pobre moça vivia
de servir o velho e era tratada como uma escrava. O fato é que ele a tratava mesmo
como escrava. Juliana era a única filha do senhor Romeu com dona Judite. Uma
menina linda como uma rosa e loira como um anjo. Senhor Romeu devia a renda de
uns hectares de terra plantada quando das últimas roças feitas.
Juliana era
aprendiz de costureira na fazenda Rio Doce. Ela era linda aos dezoito anos com
os cabelos e as faces joviais. Depois que mamãe morreu, meu pai Chico Mafagafos
cobrou a dívida do senhor Romeu. Chico Mafagafos era um tipo de mancebo que andava
sempre pensativo e melancólico depois da morte da esposa. Ele tratou de cobrar
a dívida ao homem.
Ele não tinha
como pagar e ofereceu a filha quase da idade de Glória, minha irmã. Juliana completara
dezenove e Glória tinha vinte anos. Mas lá se foi à filha de senhor Romeu no
auge dos dezenove anos. Com o tempo Juliana passou a amar papai: eu sei que não
era um sentir tão puro! Era um sentimento solitário.
Como eu o disse: minha
única irmã, Glória. Glória sempre foi uma moça pálida, de cabelos castanhos e
olhos azulados; sua pele era branca, a face rosada. Juliana a queria como uma irmã, não como
madrasta. Seus risos, seus beijos de mulher aos vinte anos, não eram sós de irmã,
era algo a mais que Glória queria.
À noite, antes do
velho Chico se deitar, Juliana ao passar pelo quarto de Glória para dar boa
noite, a lâmpada se apagava e um beijo pousava os lábios de Juliana nas trevas.
Muitas noites
foram assim, até o velho Chico Mafagafos descobri tudo entre elas. Uma noite —
papai fingia dormir — Juliana saiu do quarto deles e foi até o quarto de Glória,
quando Juliana entrou no quarto e fechou a porta: deitou-se ao lado da minha
irmã e adormeceu nos braços dela.
O fogo dos
dezenove anos, a primeira perca virginal da beleza, ainda inocente, o seio
seminu de uma moça a bater sobre o de outra mulher, isso tudo... Ao despertar dos
sonhos na alta madrugada. Papai enlouqueceu com o que estava acontecendo... Todas
as noites Juliana iam ao quarto de Glória. Três meses passaram-se assim. Um dia
entrou ele no quarto e disse:
— É isso que vocês
fazem!
— É preciso que
não conte a ninguém, papai. Disse Glória.
—Calem-se. Há quanto
tempo são amantes?
Juliana calou.
Glória disse:
— Desde que
Juliana chegou aqui!
E caiu em choros
e soluços. Chico Mafagafos carregou-a assim frio e fora de si para seu quarto. Que
havia de eu fazer? Contar tudo ao povo ou ficar em silêncio? Foi uma loucura
para o velho... Ele a mataria e Glória pelo menos seria expulsa de casa. Juliana
e Glória não se falaram mais. Papai levantava toda a noite e saia no escuro. Já
não dormia por causa da próstata. Eu, contudo não me esquecia do mal que fiz a
minha irmã Glória, nem ela se esquecia de mim e do que fiz.
O amor de Glória
por ela era o mesmo: quando papai dormia, Juliana e Glória tinham noites de
esperança e sede de se amarem. Mas às vezes o sono de papai passava e o
encontro delas dissipava-se como névoas. Um dia, ele me confidenciou tudo... Foi
horrível.
Preferia ver
Glória morrer a ser uma amante de outra mulher. Ele já tinha planos para matar
Juliana. Não sei o que fiz com papai, mas dei um remédio para curar a
tuberculose dele, e minutos depois ele ardia em febre e murmurava palavras
desconexas que ninguém podia entender de tão apressadas e confusas.
Entrei no quarto
dele: disseram-me que estava muito doente. Papai ergueu a cabeça com a grande
barba grisalha, a face úmida de um suor, chamou-me. Sentei-me junto do leito
dele. Apertou com força a minha mão em suas mãos frias e ele murmurou nos meus
ouvidos:
— Perdoe-me pelo
que te fiz!
Deu um último
grito, o último suspiro convulsivamente retorcendo-se no leito, lívido, frio,
banhado de suor gelado, e arquejou. Dois meses se passou até Glória me arrumar
o dinheiro para viajar ao Pará. Eu parecia endoidecido antes de ver papai morrer.
Quando voltei fui preso. Aqui estou. Mas sei que todas as noites elas se fecham
no quarto onde papai morreu.
Juliana e Glória
passam longas horas e no silêncio arfam-se com ânsia, afogando-se em gemidos de
um amor proibido. Porém, sei que o alvará de soltura será despachado na próxima
semana. Serei homem livre.
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sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
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