quinta-feira, 7 de março de 2013


SONHOS LEÔNIDAS
novela


5
 
Teresina para o lado do bairro Monte Castelo na zona sul, mostra-se uma cidade colocada sobre morros, envolta de muitas casas, velhos sobrados, ladeiras íngremes e ruas péssimas. Era ali na rua Arimatheia Tito que Leônidas morava desde que veio de Barras de marataoã. 

O local que era seu refúgio, sua fortaleza. Buscava inspiração para vida e também para sua ficção. Escrevia no pequeno caderno sobre a mesa, uma obra inédita que para sua desgraça nunca seria publicada ou vencida no concurso novos autores da Prefeitura de Teresina. 

Dizia para si, que pelo menos há de alguém da comissão organizadora ler. E, contudo, não se dava por vencido. O romance sobre súcubos, íncubos e sonhos até que tinha bonitas histórias, imorais, eróticas e tendenciosas ao explícito. 

Segundo o amigo Matias, os tais seres demoníacos atacavam os humanos na terra desde da Idade Média. De moças virgens aos jovens mancebos reprimidos dos atos sexuais. Invadiam os sonhos da pessoa á noite para sugar-lhe as energias vitais, principalmente através dos sonhos e a trazer os maliciosos sonhos eróticos.
 
- Deve ser delicioso! Dizia Ísis ao ler um parágrafo do livro.
 
Ísis era prima de Leônidas. Uma dessas moças, onde a beleza é tão vagabunda quanto ao caráter. Dos homens, dizia querer o ecletismo do amor. Nada de sexo sem amor ou só por prazer. Dizia que hoje ficaria com um, amanhã com outro, mas nada sério, exceto o professor de Literatura, a sua verdadeira grande paixão. Queria experimentar todas as raças.
 
O que falava ao primo, tornava-se nojento, repulsivo para uma moça de família. Sentia amor ou até mesmo uma atração sexual pelo professor de Literatura. Sentia pelo homem, a malicia de provocá-lo sexualmente. Apreciava seu rosto macio, os olhos lânguidos, o peito musculoso, o corpo alvo, mas reprimia seu desejo.
 
- Ele sim que é um homem. Dizia a moça.
 
Depois de elogiar o seu professor, Ísis ia deitar, mas resolveu ficar e beber vinho com o primo escritor. Leônidas bebia vinho com a prima. Ísis retirou-se embriagada para dormir. Sozinho e deitado na velha cama dentro do sobrado da rua Arimatheia Tito no bairro Monte Castelo, ele ficou pensativo.
 
Sentia uma saudade imensa do amigo Matias, seu confidente. Talvez, quisesse morrer de embriaguez. Depois da morte de Matias, a vida era sem cor. Tudo era preto e branco.  Que importavam os sonhos eróticos sem Matias para ouvi-los?  Estava morto.
 
- Silêncio! Dizia para si. Foi um ataque cardíaco.

Uma cantilena horrível tocava baixo a vir do  quarto da prima. O quarto de frente ao dele. Ele a via pela fresta da porta, a moça que dormia ébria, macilenta. Não quis perturbar o sono da mulher. Só admirá-la. Estava totalmente embriagada. Ísis nua por cima da cama e Leônidas de pálpebras  dormentes a apreciar a beleza da moça. Os olhos castanhos claros estavam cheios  de volúpia.
Enquanto, o aparelho de som tocava a música suave, a moça dormia. Cambaleando e quase a adormecer, ouvia murmúrios da canção na rádio Pioneira. Uma canção de orgia, daquelas músicas que embalam o prazer carnal de duas pessoas. Sabe-se, que era uma noite fria do começo do mês de janeiro de 2009.
 
No céu da capital, nuvens corriam negras no céu. Morcegos errantes voavam e cortavam os céus nos voos rasantes. A lâmpada incandescente quase a apagar. Ísis deitada, desmaiada, só a alvura de sua beleza, sob o reflexo dos olhares do primo. Leônidas a pensar na prima.
 
- És um louco, Leônidas! Dizia ele.
 
Ouvia toda a canção no rádio. Calado e atento a cada detalhe do que a moça fazia. Ísis ao sentir que estava sendo observada, tratou de fazer uns barulhinhos por debaixo dos lençóis. Dentro do quarto, um cheiro de sexo no ar.
 
Leônidas em pé na porta do quarto dela. Um riso de escárnio ecoou pela noite e vinha de debaixo dos lençóis. Em seguida, um soluço da moça a pedir por mais vinho. O vinho na taça reluzia, sob o fogo da lâmpada incandescente. O moço, dava-lhe o líquido tão precioso naquela hora.
 
- Vinho! vinho! Dizia Ísis.
 
A garrafa pela metade e Leônidas completava a taça nas mãos frias da moça. Ela bebia quase sonâmbula. Entregou-lhe, o copo vazio. Chamava-o de desgraçado, voyeur, casto.  Chamou-o, até a cama e quando ia unir seus lábios  aos dele, empurrou-o. Os beijos dela, talvez arderiam feito o fogo do vinho. 

O beijo entre os dois só ficou na imaginação inacabada de Leônidas. Acabava-se, assim o vinho e os copos secavam. O escritor iria contar no outro dia aquela reminiscência, sonho ou fantasia com a linda prima, mas seria apenas mentira. Poderia ser esperança que tudo aquilo poderia se realizar um dia. 


Dizia aquelas estórias para não ser mais alvo das chacotas pela turma da Universidade, pelo fato de ainda ser virgem. Leônidas iria deitar-se e naquela noite ficaria com a prima na cabeça. Já era meia-noite, o deleite do sonho de um adolescente é seduzir, saber a arte de conquistar uma garota. 

Do lado de fora, a noite negra como uma mina de carvão. De frente a um espelho, Leônidas sentia o vento entrar pela janela do quarto. Fazia um pouco de frio na capital.
 
Ele imaginava se existia mesma a oração que Matias disse e que dava o poder de invadir os sonhos de uma pessoa. Naquela noite de janeiro de 2009, chovia o suficiente para alagar as lápides sepulcrais do cemitério são José na matinha ou até o Parnaíba  lamber o asfalto da Maranhão perto do Troca troca.
 
- Será que existe a tal oração onírica? Perguntava-se.
 
O desejo de possuir tal oração faria Leônidas procurar a tal Michele do Cabaré Babilônia. Matias era quem conhecia a mulher. A tal era uma cultora das ciências ocultas. Michele havia dito a Matias  que o ataque dos demônios súcubos drenaria a alma do indivíduo. Ele não lhe deu ouvidos.

A mulher ainda disse-lhe, que os ataques cresceriam e seus sonhos ficariam como normais a realidade. Mas, Matias era cético. Sabia que há mais de 150 anos, o homem sempre quis poder fazer uma invasão onírica ou livrar-se dos ataques dos demônios sexuais. 


Pesquisou vídeos na internet, sites, blogs e velhos livros com referência ao assunto e sobre orações que ensinavam tal ato. Talvez, Michele equivocara-se em muitas coisas, ultimamente. Uma delas era sobre à eterna perdição da alma de uma pessoa atacada.  

mulher era uma espécie de bruxa e exímia mestra das ciências ocultas na região do bairro Piçarra perto do 6 DP. Dias depois, ela promoveria uma magia juntamente com Matias. O objetivo era dar-lhe força para combater tais seres oníricos. 





quarta-feira, 6 de março de 2013


SONHOS DE LEÔNIDAS


4

Era alta noite e ela esperava-o. Viu passar o coletivo pela rua Heráclito de Sousa. Quando passou, ela correu para encontrá-lo. Bateu na porta de dona Marieta e entrou assustada. Uma voz, chamou-a. Entrou Luiza Maria com os pés nus, o vestido solto, o cabelo despenteado e os olhos ardentes. Tomou-o pela mão e o convidou a entrar. Os dois entraram na casa.

Era escura a escada que eles subiram e tão quentes foram os beijos molhados nos lábios dela. Os dois deitados na cama. A mulher sacudia os longos cabelos negros e ria-se com o amante. Entrou na sala, o marido Zé de Lauro. Ele voltou para buscar um documento do carro que tinha esquecido. Tudo escuro. O homem entrou na casa, tateou pelo documento e escutou uns gemidos vindos do quarto. Passou a mão numa faca.

Sentiu o golpe da traição e ao adentrar no quarto desferiu uma punhalada primeiro no rapaz. A mulher não deu tempo de avisar ao amante para fugir e também sentiu a umidade escorrer no meio dos seios. Sentiu o corpo esfriar como neve molhada a um líquido espesso e meio coagulado. Era sangue. Depois de matar o rapaz e a mulher, Zé de Lauro, degolou-se. Sobre a cama o assassino e suicida deitado de bruços.

- Foi uma cena daquelas!  Dizia dona Catarina.

- O marido era um viajar sem fim. Comentava outra mulher.

Não foram poucas as vezes que Luiza Maria, vestia-se de homem para encontrar-se, com os homens. O rapaz era formoso. A mulher era demais para Zé de Lauro. Quase todo mundo na rua conhecia a orgia do seu belo corpo. Quando o coletivo passava meio dia, o corpo dela ardia ao amor do rapaz ao ver chegá-lo da Universidade.

Nas noites, Luiza Maria sim se revelava uma das mais belas mulheres do bairro. Os lábios eram cheio de vícios e lançava-se, como um anjo mau para o deleite dos homens. Não havia homens que não queria seduzi-la,  perder-se pelo amor da mulher e pelas orgias de um coração em delírio. Era prazer carnal de certo, o que sentiam por ela. Mas, tudo terminou com uma fatalidade infernal.

Via-se morrer um pobre inocente que nem um segundo a amou. Foi uma terrível noite. Noite de blasfêmia, de último adeus, de maldição. Ele tinha sede da vida. Era um belo rapaz. Pelas faces morenas, caiam-lhe os cabelos negros. Criatura pálida, morto parecia a um anjo adormecido sob a cama.  Quando pelas noites de luar, enquanto o marido não repousava a face nas mãos dela, estava ele sob a vigília e a apreciar a lua.

Poderia dizer que durante o dia, Luiza Maria era uma santa. Era a mulher do senhor Zé de Lauro. Zé de Lauro era conhecido no bairro Monte Castelo, por ser um homem brutal e valente.  O contrário, a esposa Luiza Maria era sedutora, doce, carinhosa e prestativa com as pessoas da comunidade. Muito religiosa que não perdia uma missa aos domingos.

Também uma mulher de gozos malditos na cama, de muitos amores, uma vagabunda aos vinte e um anos. Tinha uma vida de miséria e loucura ao lado do esposo bem mais velho. O corpo lívido e nu, as entranhas em fogo e  a ultima agonia do amor que queimava em convulsões na voluptuosidade dos lábios. Era de um  gozo febril que acabou no delírio de morte. 

terça-feira, 5 de março de 2013



SONHOS DE LEÔNIDAS

novela


3

Muito prazer. Apresento-lhes Leônidas, um jovem diferente de qualquer outro que mora em Teresina. Tinha dezoito anos e ainda era virgem. Tinha olhos castanhos e uma inteligência à altura de seu porte. Seu queixo fino e feições bem marcadas faziam com que ele lembrasse seu avô Coriolano. 

Com mais de um metro e oitenta de altura, queria ser goleiro no time do Flamengo Esporte Clube. Era de uma rapidez incrível, quando agarrava no gol que até surpreendia seus colegas nos campos de várzea. Os amigos zoavam dele na Universidade Federal pelo fato de ainda ser virgem. 

Todos no bairro Monte Castelo, chamavam-no de escritor do mal do século. Há anos tentava ganhar o Concurso Literário Novos Autores da Fundação cultural Monsenhor Chaves. Esgotavam-se, os temas literários. De morte, traição, amores impossíveis e crimes. Leônidas tinha escrito tudo. 

Todos os escritores, um dia mastigaram demais aqueles temas. Desde criança tinha como distração, o ato de escrever estórias fictícias, se verdadeiras ou não, o certo é que ninguém poderia comprová-las. De poesias a romances, ele era uma fera.

Leônidas poderia ser hoje em dia, um gênio da escrita, se não fosse sua morte prematura aos vinte anos. Poderia fazer fama entre os escritores piauienses, quem sabe. Talvez, o povo um dia irá reconhecer suas obras, ou talvez até ler seus romances. 

O certo é que os sonhos descritos no romance feito pelo jovem Leônidas na maioria, são indecifráveis, imperfeitos, incompletos ou até mesmo, um sinal do que seria as novas produções e ficções piauienses.

Hoje, talvez onde tiver, ele lembre o que mais lhe admirava. Gostava de ver descer o sol de Teresina no poente para o lado de Timon. Tinha uma obsessão em toda a parte e em qualquer tempo, os sonhos lhe perseguiam. 


O sol do entardecer, uma imensa auréola a brilhar no firmamento, com as últimas réstias a entrar pela janela do sobrado. Sob a pouca claridade solar, escrevia uma ficção. A ficção escrita por Leônidas era apenas um romance efêmero, cheio de ceticismo e ingredientes eróticos. 

Depois de o autor dar seu último soluço na escrita da ação narrativa, é que se ver que é linda a estória. O personagem central é cheio de treva, e vive uma constante indecisão de ser e não ser, um Shakespeare piauiense. Leônidas criou algumas ideias teóricas sobre sua ficção.

Escrevê-las, cheia das paixões ardentes e aguçada de uma pitada de imaginação, talvez de alguma coisa que um dia sonhou. É um tipo novo de autor de romances que não se parece com um O. G Rêgo de Carvalho e seu Ulisses, nem Assis Brasil com seu Beira rio, beira vida. No entanto, sua ficção também é carregada de tragédias.

O escritor quis retratar e decifrar os sonhos do amigo Matias. Leônidas era um gênio vagabundo, boêmio. Modéstia. Por isso, é autor com talento, autor que foi um gênio. É o que eu penso. É grande ideia que talvez, ele não concorde. 

Para ele, um escritor sem publicar uma obra seria o mesmo que imaginar o rio Parnaíba sem suas correntezas a galope. Uma avenida Frei Serafim sem o trânsito infernal de uma segunda-feira. E por fim. um Teatro 4 de Setembro sem espetáculos aos sábados e domingos. 

Leônidas achava que Teresina tinha que ter mesmo uma vida tumultuosa, férvida, anelante, às vezes com roteiros violentos do cotidiano, manchetes sangrentas pelos noticiários, assim como toda cidade grande em desenvolvimento e a viver ás expensas do progresso. 

Os sonhos do jovem Leônidas é na maioria das vezes, o sonhos de qualquer jovem delirante no auge dos vinte anos, doido de amor, doido para ter um amor, doido para morrer beijando os lábios de uma mulher.

O contrário, foi uma paixão sem nódoa que viveu como numa ficção. Cada capítulo escrito, deixou-o sonâmbulo, ás  vezes convulso nas ideias, no enredo e entrelaçamento da ficção. Leônidas agitava-se, debatia-se ao traçar das linhas, não queria perder o foco narrativo. 

E, por isso mesmo que sua ficção, é apenas um singelo romance que escreveu numa noite de insônia, de febre, noite das aberrações dos sonhos, noite antes de partir para o outro mundo tão tragicamente, após beber a última taça de vinho e ser esfaqueado até a morte.

Chamavam-no de o escritor do mal do século. Poderia ser pelo começo da ficção com histórias de sangue e violência que fazem certo sucesso. Não. Os leitores poderiam preferir um tema mais suave. Mas ele não, o autor preferiu um tema pouco conhecido do público. Não que não desse um pitada de tais temas, tão debatido noutros romances.

Como não tinha bastante experiência, mas alguma imaginação aliada ao gosto de escrever, inventou uma história que ninguém nunca sabe se verdadeira ou ficção.  O certo é que vamos a narração da estória. Todos da rua Arimatheia Tito acordavam assustados naquela manhã de fevereiro. Contava-se na rua que o marido soube de tudo. 

segunda-feira, 4 de março de 2013


SONHOS DE LEÔNIDAS


uma novela de JNFerreira.

2

Havia no famoso Cabaré Babilônia, localizado na rua Paissandu, bem no centro de Teresina, uma linda mulher de olhos verdes que brilhavam e seus lábios causava delírios nos sonhos dos rapazes, por longas noites ardentes. Uma bela mulher que tinha uma peculiaridade, só bebia vinho e pelas noites abria a janela, só para adorar o luar.

Era uma mulher loira, de uma pele branca, uma daquelas criaturas reumáticas que a coluna fazia um “S” no meio das costas.  Esvaziava o copo cheio de vinho, e com as mãos alvas, os olhos de um lindo verde, fixo nos rapazes. Leônidas recordou daquela noite no Babilônia. Estava sentado numa das mesas e a escutar o que a mulher dizia.

- Levei muito rapaz novo a perdição!

A mulher vangloriava-se, de iniciar muitos rapazes nas orgias do amor pago. O batom vermelho, desbotava-se nos lábios, ao beber o vinho. Leônidas tinha completado dezoito anos e não sabia ainda qual o gosto dos beijos de uma mulher.

Ali, naquele cabaré, o local ideal para devassar o hálito virgem nos beijos quentes daquelas mulheres da vida. Seria talvez, uma doidice, os abraços convulsos daquela mulher de seios murchos, rosto enrugado pelas intempéries do tempo. Ela sentia-se, abandonada pelo mundo, pelos homens e pela sorte.

- Aqui para mim, foi terra de oportunidades! Completava.

Os homens dentro do quarto, sentiam o cheiro do gosto de Michele pelos perfumes doces, perfumes puros, daqueles que embriagam a alma pecaminosa. Na cama, uma mulher de gozos frenéticos e de uma existência fogosa eterna que ninguém jamais esquecia. Leônidas estava apaixonado por ela. O primo dele, Alberto também.

Leônidas descia pela praça da bandeira, assim que vinha da Universidade Federal, ali passava longas noites perdidas ao relento, ás vezes pela avenida Maranhão, a espreitar-lhe da mulher um simples aceno ou até mesmo um adeus. 

Tinha tanto desejo e tanta esperança para sorve-lhe o primeiro beijo, mas precisava pagar por aquilo. Foi numa noite de soluços, lágrimas, de choros e de esperanças, de beijos e promessas, de amor e voluptuosidade que o rapaz a teve nos sonhos.

Quando Leônidas completou dezoito anos, partiu de Barras para Teresina. Na bagagem o sonho de vencer na capital como escritor de ficção. Durante a viagem só lembranças. Lembrou que era ainda uma criança ao entrar na casa do pai, e ver velho todo moribundo no fundo de uma rede.  O rapaz ajoelhou-se, perto do leito e agradeceu a Deus por ele ainda viver.

O velho Taumaturgo ainda pôs as mãos na cabeça dele, banhou as faces de lágrimas e eram as últimas que Leônidas ia ver cair. Com as mãos no peito, e com os olhos no filho, Taumaturgo ainda murmurou antes de falecer.

- Deus te abençoe!

Escutava pela última vez a voz rouca do velho. Todos ali choravam. Morreu sem deixar fortuna, dinheiro, somente dívidas. Laura, a irmã de Leônidas partira para Teresina e nunca mais dera notícias, nenhuma carta. 

A moça partira para capital, depois de um casamento fracassado aos dezesseis anos e ter um filho de outro homem. Costumava a sofrer castigos físicos do homem com quem morava. Leônidas tinha cinco anos quando ela viajou.

domingo, 3 de março de 2013


SONHOS DE LEÔNIDAS

Novela de Joaquim Neto Ferreira


1

Teresina de encantos poéticos. Uma cidade que é brisa nos doces cânticos de amor. É lira sob o manto verde que lhe recobre nas avenidas cinzentas e negras do asfalto. De ruas espontâneas que se agitam aos passos dos transeuntes no vai e vem de pernas entrelaçadas. Capital do sonho no céu que o vento leva nas harmonias da paisagem pelo Parnaíba abundante, imponente e majestoso.

Era ali no velho sobrado de paredes emboloradas pelo tempo, na rua Arimateia Tito, no bairro Monte Castelo, o refugio ideal que Leônidas tinha para escrever sua ficção. Ficção de páginas despedaçadas de um livro que com certeza nunca seria lido. Naquela noite, a rua se despia saudosa sob os véus do mistério. 

Dentro do quarto, a solidão do rapaz tão seminua e tímida. Uma luz que depunha fé teimava em clarear do brilho da lua no alto do céu. Nos escritos de Leônidas, os ingredientes de poesia e amor. Para ele, a capital tinha um mistério indecifrável de terra adorada a mais digna veneração. 

Sob as folhas de uma árvore, via se esfolhar a leiva da vida nos frutos e ramos da pálida fantasia com que imaginava as páginas da ficção. Das fantasias tão insanas com a prima Ísis que espraiava-se, nas mãos frias, o líquido sem cheiro que só o prazer lhe revolvia no momento.

Era de noite, Leônidas não conseguia dormi. Teve no sonho melodias ao embalo da lua clara no céu. Sob aquele frio clarão da lua, imaginava o rosto de palidez da mulher que povoou seus sonhos horas antes. Tentava recordar a langue face, os seios revoltos que palpitavam ao tempo que mesmo a sonhar, cismava querer beijar. O jovem escritor cheirava seus negros cabelos soltos e não conseguia mais dormir.

Talvez, Leônidas se embebesse na alma pensativa da bela amante a que seus beijos, semelhavam-se a noite de luar. Horas antes esteve perto da beira do cais. O Troca troca sentia o Parnaíba arder aos perfumes do vento. O cabaré Babilônia estava cheio de pessoas vendo a vida se embeber nas noites de orgias que parecia suspirar de sentimento naquele ambiente. Era uma noite pálida, noite de luar.

O Parnaíba a soluçar com a brisa que se desmaiava nas marolinhas a bater contra o cais. Depois de muito vinho, aquelas pessoas se entreviam com a imagem da mulher misteriosa que passeava entre as mesas do local. 

As imagens se fortaleciam na mente de Leônidas e quase desmaiado de sono, começava a sonhar novamente. Dormia sobre uma cama e nela cheia de sonhos que se faziam fixos. Via no sonho, a prima Ísis a quem achava ser tão pura que no sufoco dos lábios aos seus eram hálitos longos, serenos e frios.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013


CONTO 04


ASSALTANTES DE BANCO


É um dos piores testes em operações especiais, é a caça a humanos. Caçar humanos, porém humanos armados até os dentes e com o espírito de fuga, eles se tornam demônios. Um dos elementos na porta do banco morreu feio. Um segundo que dava apoio, os convencionais conseguiram abater e ele morreu na caatinga. 

O pior desses foi o PQD, ele era o armeiro do bando. Eles infernizam as cidades pequenas do Piauí. Denominavam-se os reis da caatinga. Nem a CIOSAC de Pernambuco combatiam os elementos. Quando a NERO partiu para lá, a festa do bando pernambucano acabaria, a paz para aquela gente voltaria.

Éramos a equipe Alfa que chegou ao local numa L200 para acabar com a festa ou melhor começá-la. Bebíamos água suja de um barranco. Uns camaradas de lá, nos olhava abismado.  É mais difícil água naquele interior do que em cidade grande se achar testemunha de crime. A polícia não é boa para ninguém, mas macho que é macho tem que aguentar o rojão. 

Dormimos desde o primeiro dia num lugar e noutro, fazíamos um arco fechado, pois não aguentávamos mais a viagem durante a noite. Depois de dez dias na caatinga, num lugarzinho chamado Por trás da Serra, o combate durou uma meia hora. Uma meia hora pode ser pouco, mas o som do tiro de fuzil a quebrar matos e partir aroeiras no meio do tempo, se confunde ao do som de trovão em tempos de inverno, é aí que damos valor mais ainda à vida. 

Não me lembro do nome, mais um dos assaltantes, um com a cara de assoberbado, um dos braços direitos do bando teve morte demorada. Bicho valente, reagiu na bala, no fuzil a ordem de prisão de maneira que tivemos de encher logo o couro dele e dos outros que reagiram. Um dos homens do camuflado teve uma ferida feia por causa de um tronco retorcido, assim que caiu para proteger-se. 

Muito sangue, o bastante para morrer, mas um torniquete poderia salvá-lo, técnicas de primeiros socorros. A maioria custou a morrer, prendiam o ar, mas não aguentavam o socorro chegar pelas difíceis estradas, mas com esses péssimos caminhos de carroça não se podiam fazer mais nada, estávamos exausto, com sede, fome e rasgados de espinhos de unha de gatos. 

Enquanto, a equipe descansava, sierra delta 26 sonhava. Durante o sonho, ele escutava um berro, mas um berro demoníaco. Sierra delta 26 via na sua frente, Bode velho, um criminoso conhecido da boca de pau, o 6 Dp no bairro piçarra. Bode velho tinha nas costa e na longa ficha criminal, uma capação. O elemento havia pego um ex namorado da filha e capado o pobre rapaz. 

Espetou o cabra no quintal da casa dele no Monte castelo e quando os convencionais, ele chegou a pular muro. Quando os militares policiais avistaram foi o rapaz todo babado e ensanguentado. Que arrocho. O rapaz se borrando nas calças sem as bolas. Por fim, no final da Arimateia Tito, Bode velho foi preso. Ele era um preto ruim, um infeliz, e de tão feio que  usava as costeletas sem aparar.


A noite sem estrelas, a aurora anunciando no nascente e o pouco de sol já a esquentar,  no sertão a quentura do mato fica viva.  Só, escutava-se o canto das fogo pagou. Muitos começavam a ficar sem as cuecas para evitar assaduras. Os pés no coturno com as meias endurecendo. Ninguém repara se está sujo ou limpo, é uma profissão miserável para uns e agradável para outros. 

Depois do dia todo de perseguição aos bandidos, todo mundo com o sujo escorrendo pelas dobras do pescoço. Quando encontramos uma casa no meio do mato, todo cuidado era pouco, no ponta a ponta tínhamos de fatiá-la, até sentir-se seguro para adentrá-la.

Nada tinha lá dentro, exceto por muita merda de pombos. Casa com aspecto de ter visagem, ser mal assombrada. Na hora do confronto, da espoleta rachando, não tem super-herói. Sente-se que as pernas não se movem, ás vezes se treme e uns fazem cara de medo e se destorce caindo pelo terreno no rastejo por causa dos barulhos dos pipocos. 

E gritos e pensamentos naquilo que nunca fez e pede a Deus nas alturas que a munição nos carregadores dos fuzis, não se acabe tão rápida. Depois dos ataques dos bandidos, o peito incha, a íris dos olhos volta ao tamanho normal e dá um arranque de risadas e erguem-se os fuzis para o alto, pois o caminho de casa todo mundo gosta de ir. 

Graças a Deus nenhum dos companheiros foi abatido no campo de batalha, enfim poderemos voltar para o convívio dos parentes e os inimigos prestar contas dos seus erros aqui na terra com o homem lá do céu ou o senhor habitante do vale de Hades.

AGUARDE MAIS CONTOS DA SÉRIE: OPERAÇÕES ESPECIAIS.

sábado, 12 de janeiro de 2013


CONTO III

REBELIÃO EM PRESÍDIO


Todo mundo sabe que o sistema penitenciário brasileiro é falho, deficiente e um lixo.  Um depósito de excrementos humanos. Rebelião em presídio é um tipo de ocorrência que é nitroglicerina pura. Quando aquilo explode é que pode ver o que é as vísceras pútridas do sistema. É visível de acontecer a qualquer hora. 

O próprio Estado é deficiente, inerte no que tange às políticas públicas de segurança pública e no processo de ressocialização do individuo infrator da lei. O mesmo poder público que garante a vida do cidadão é o que também a retira. Ele é o principal responsável na maioria das vezes, do aumento da violência e da própria criminalidade. Pois bem, rebelião em presídio é um saco, é de uma instabilidade para ocupantes de cargos comissionados, ou seja, se o fato é gravíssimo, cai toda cúpula da Secretaria de Justiça e cidadania. 

Não tem quem goste desse tipo de acontecimento ou ocorrência . É o tipo de serviço que todos odeiam, afinal, não tem quem goste de preso, ainda mais perigosos do Estado e os de fora. Digo isso, pois primeiro, é a única classe que conseguiu retirar nos primeiros dias de 2005, o governador Salas Pétreas, o juiz de Direito Lamas Lauro, o polêmico promotor Alarico Boaventura e vários políticos entre eles, o poderoso deputado estadual Romeu da bodega presidente da ALEPI.

Meio do mês de janeiro de 2005, explode uma rebelião das mais acentuadas na Casa de Reclusão são Todos uns Santos, na zona sul da capital piauiense. Um motim entre presos rebelados dos pavilhões A, B e C, a elite do crime e entre eles, assaltantes de bancos, estupradores e os restante de todas as espécies de idas no final. Destruição total de colchões, agentes penitenciários torturados e monitores feito de reféns.  

O motivo sempre o mesmo. Melhores condições, visita intima de três horas e a celeridade nos processos de presos provisórios e alimentação de primeira. É certo que a dormida nos quartos do lugar é pior que o inferno de Dante. Dentro das celas, da privada quebrada, fétida e em péssimas condições á água quente nas garrafas, até o calor infernal que mais parece uma sauna com 45 graus. O certo é nunca se beba uma água sem saber de onde veio. 

Caos total. Celas superlotadas, desde de presos dormindo em pé até outros desgraçados por cima dos outros. O secretário de Justiça e Cidadania, Dr. Jacinto Paulo, todo de terno cinza na televisão, a dizer que estava tudo ás mil maravilhas e que no Piauí o sistema ainda controla as penitenciarias do Estado, no meu pensar, antes de a voz afinar e os cabelos da cabeça cair e se tornar pederasta, Jacinto Paulo é além de incompetente, um ser humano falso ás suas convicções filosóficas.

Naquela rebelião tinha presos como o Cabelo de fogo, na qual amarrou, estuprou uma mulher de um pescador do Poty Velho, depois de introduzir cacos de garrafa nas partes da mulher. E ainda arrancou o clitóris da pobre ao sair mostrando na frente de todos. Ele merecia a decência da reivindicação dos direitos?  

Merecia um manicômio judicial. Sorte que a população não lixou em praça pública, por intervenção dos militares policiais. O líder do motim, uma ruindade, um estorvo da sociedade que a NERO havia prendido a um mês. Ele matava sem piedade. O último resultado foi um desafeto que teve a cabeça cortada no bairro Cidade Leste. Chamava-se Pedro Bala e era outro que brincava de ser chefe de quadrilha só para agitar as polícias de todos os Estados do Nordeste.

A prisão deste foi feito pela nossa polícia especial, depois de quatro meses de tocaia. O pessoal da inteligência dias e dias na quentura, no frio da noite e o bicho mudava de casa em casa, ia desde o Parque Universitário á Santa Bárbara, um espécie de nômade e vampiro. No dia da prisão, ele entrou por janela, pulou muro e fez escorrer o suor na cara de cada homem do camuflado na perseguição. Finalmente capturado. 

Certo que na fuga levou de brinde vários arranhões e hematomas, e ainda havia gente na plateia a acusar a Nero de dar uns conselhos de ensino no elemento. Uma espécie de animal em fuga. Ainda dentre as reivindicações queriam três horas de banho de sol. Quando a NERO chegou até o local, os bichos a bater na cara de um cristão a implorar por perdão e outro que cortaram a orelha. Balas de borracha, spray de pimenta e gás seria os acessórios para restabelecer a ordem naquele caos foi distribuído para todos eles.

Quando a NERO é chamada, é porque se esgota todos os meios de negociação entre o comitê de gerenciamento de crises e os rebelados. Muitos preferiam ser excomungado da terra, fazer companhia com o diabo e queimar nas labaredas do vale de Hades do que enfrentar a NERO. A primeira ocorrência de rebelião em presídio é a mais difícil, mas depois a gente aprende a não olhar na cara dos elementos e também eles não nos ver, são tratados como demônios reinando naquele inferno. O controle emocional está na bala crava a cobrir o rosto e somente os olhos de fora para não se solidarizar na grande obra. 

Depois dos demônios humanos dominados sem precisar desperdiçar mais nenhuma bala de borracha, eles querem se agarrar na gente, também puxar a bala crava para baixo, mas querer enfrentar nossas carabinas 12 é suicídio. É bem verdade que nossas fardas, depois de tudo aquilo ficam fétidas, e isso aborrece demais ver a farda amarelada e os coturnos sujos dos excrementos humanos.  

Nunca vi ninguém morrer numa rebelião aqui, agora todo mundo sabe que aquele lugar é por demais perigoso, quase cotidianamente morre um custodiado. O 04 vomitou-se todo com a ingestão do gás lacrimogêneo nas narinas e o que dizer daqueles santos humanais que residem ali. No final, tudo correu como o sistema queria, eles tiveram preservados seus cargos comissionados, seus DAS e DAI e a paz voltou a reinar por uns dias, naquele inferno até surgir outro foco.

AGUARDE O ÚLTIMO CONTO DA SÉRIE OPERAÇÕES ESPECIAIS.