quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012


semana do conto sem desconto:

METACONTO

          O sono não vinha e fui para próximo do computador, talvez assim o sono viesse logo. Pensei, repensei, liguei, esperei. Quem nunca quis ter um conto contado, recontado e lido. Um conto para tornar-se imortal nas páginas de um livro ou numa página da web ou até mesmo na Tribuna de Barras. Na frente da tela escrevi, reescrevi e li e reli um tanto desfeito, um tanto insatisfeito ainda. Precisava de um tema, uma direção. Veio a mente a saudade da terra dos intelectuais.
          Lembrava de Barras e a saudade apontou tão noturna, tão viva que aguçou mais ainda a insônia. Aqui um tanto lânguido à noite debateu-me em vãos delírios sombreando uma nostalgia. Lembrei dos antigos heróis gregos que buscavam glória ao guerrear. A glória e a imortalidade da estória que buscava estariam no conto que iriam digitar nas páginas do world.
         Levantei e rumei até o computador e pus-me a digitar palavras, vocábulos que dormentes teimavam em não querer despertar. E mesmo nós, nesse cotidiano atolado de obrigações e afazeres que nos tomam e sufocam as idéias, gostaríamos de nos ver como personagens de uma história.
       A saudade da terra natal é a matéria prima do protagonista dessa estória numa noite teresinense. Posso não ser um bom contista, outrora um escritor da fantasia na realidade, pode até não parecer um conto, mas abandono o gênero e passo a me dedicar à estória, uma espécie de algo alheio a característica de um conto. Um metaconto.
       A cada parágrafo digitado via embalar estremecendo. Eram sonhos, contudo. A minha vida se esgotava em ilusões. E quando a mente não diviniza com o pensar ardente, paramos para refletir um instante.
       Os meus dedos descansavam e roçavam a cocar a cabeça com medo ardente nos olhos. Não queria perder o fio da estória. O sono de amor á terra natal turvava os olhos, me ateava o sangue, enlanguescia a fronte. Um pensamento despertou o encanto do sonho que teimava em evaporar.
       Abri a janela e vi nuvens nácar de aventura pela solidão dos céus da capital. Rolavam apressadas e tremendo à solidão da vida naquele momento. E sem pensar na vida e sem ter sentido nunca atração pelo sono, eu pensava que  nunca é completamente certo, o modo de como devemos começar um conto, a maneira de como a estória vai soar, o jeito de como as palavras são escritas.
       Digitava, deletava, pois nunca é completamente certo. Meus olhos turvos se fechavam pela noite lenta no semblante lânguido do céu de sombras. A saudade da terra natal era seminua, abatida, e aumentava com a visão que tentava romper o sono. A nuvem no alto sentava-se junto a mim, as pálpebras sentiam o vento fresco e leve como a vida passava tão delicioso. 
       Que delírio, acordava acordado e palpitante procurando por algo não perdido. Um parágrafo atrás de outro, acumulados na memória, talvez fosse um desperdício de idéia ou de tempo. Chamava embalando as lágrimas que banhavam os olhos, e suspirava gemendo implorando a imaginação. Sem o cantar do grilo, tudo era silêncio.
         Só o tempo deserto, a sala muda, o computador ligado, os sonhos esvaecendo-se. Aqui velava sonhando a noite bela, as longas horas que olvidei libando no conto. O cessar da insônia e os pensamentos que apareciam tímidos não é completamente certo. O conto estava quase concebido, gestado, pronto a nascer.
        É difícil que tudo seja certo, não sabia disso. Das páginas lascivas do conto, o desvario juvenil, a significante saudade da minha terra natal na página dorida do asilo ditoso de uma mente errante que se devaneia no mundo e que levanta sob a odalisca causticante dos raios a beijar o travesseiro.
        Distanciei-me do computador. Era manhã, já era tarde, não era noite. Nada mudou. Estava trancado no lugar que não era o lugar que desejava. A lâmpada fluorescente se espreguiçava e parece pedir para dormir. Parecia um velador noturno, nas vigílias da noite sobre as idéias, sob a preparação do conto, sob o computador ligado sob a mesa.
         Pensativo, lendo e relendo os parágrafos desse conto, desse drama obscuro, numa noite de spleen na capital. O conto heroico da saudade na rima insônia digitada por dedos sonolentos. Alguma coisa, eu sei que ficou. Alguma coisa será eternizada, alguma coisa restava contar.  Desci o mouse pela tela e desliguei. Faltava para você o meu boa noite.


Um comentário:

  1. Seu conto é exatamente o que buscava para um trabalho com metalinguagem. Parabéns, será devidamente referenciado!

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