semana do conto sem desconto:
METACONTO
O
sono não vinha e fui para próximo do computador, talvez assim o sono viesse
logo. Pensei, repensei, liguei, esperei. Quem nunca quis ter um conto contado,
recontado e lido. Um conto para tornar-se imortal nas páginas de um livro ou
numa página da web ou até mesmo na Tribuna de Barras. Na frente da tela
escrevi, reescrevi e li e reli um tanto desfeito, um tanto insatisfeito ainda. Precisava
de um tema, uma direção. Veio a mente a saudade da terra dos intelectuais.
Lembrava
de Barras e a saudade apontou tão noturna, tão viva que aguçou mais ainda a
insônia. Aqui um tanto lânguido à noite debateu-me em vãos delírios sombreando
uma nostalgia. Lembrei dos antigos heróis gregos que buscavam glória ao
guerrear. A glória e a imortalidade da estória que buscava estariam no conto
que iriam digitar nas páginas do world.
Levantei
e rumei até o computador e pus-me a digitar palavras, vocábulos que dormentes
teimavam em não querer despertar. E mesmo nós, nesse cotidiano atolado de
obrigações e afazeres que nos tomam e sufocam as idéias, gostaríamos de nos ver
como personagens de uma história.
A
saudade da terra natal é a matéria prima do protagonista dessa estória numa
noite teresinense. Posso não ser um bom contista, outrora um escritor da
fantasia na realidade, pode até não parecer um conto, mas abandono o gênero e passo
a me dedicar à estória, uma espécie de algo alheio a característica de um
conto. Um metaconto.
A
cada parágrafo digitado via embalar estremecendo. Eram sonhos, contudo. A minha
vida se esgotava em ilusões. E quando a mente não diviniza com o pensar ardente,
paramos para refletir um instante.
Os meus dedos descansavam e roçavam a cocar a
cabeça com medo ardente nos olhos. Não queria perder o fio da estória. O sono
de amor á terra natal turvava os olhos, me ateava o sangue, enlanguescia a
fronte. Um pensamento despertou o encanto do sonho que teimava em evaporar.
Abri
a janela e vi nuvens nácar de aventura pela solidão dos céus da capital.
Rolavam apressadas e tremendo à solidão da vida naquele momento. E sem pensar
na vida e sem ter sentido nunca atração pelo sono, eu pensava que nunca é completamente certo, o modo de como
devemos começar um conto, a maneira de como a estória vai soar, o jeito de como
as palavras são escritas.
Digitava,
deletava, pois nunca é completamente certo. Meus olhos turvos se fechavam pela
noite lenta no semblante lânguido do céu de sombras. A saudade da terra natal
era seminua, abatida, e aumentava com a visão que tentava romper o sono. A
nuvem no alto sentava-se junto a mim, as pálpebras sentiam o vento fresco e
leve como a vida passava tão delicioso.
Que
delírio, acordava acordado e palpitante procurando por algo não perdido. Um
parágrafo atrás de outro, acumulados na memória, talvez fosse um desperdício de
idéia ou de tempo. Chamava embalando as lágrimas que banhavam os olhos, e
suspirava gemendo implorando a imaginação. Sem o cantar do grilo, tudo era
silêncio.
Só
o tempo deserto, a sala muda, o computador ligado, os sonhos esvaecendo-se.
Aqui velava sonhando a noite bela, as longas horas que olvidei libando no conto.
O cessar da insônia e os pensamentos que apareciam tímidos não é completamente
certo. O conto estava quase concebido, gestado, pronto a nascer.
É
difícil que tudo seja certo, não sabia disso. Das páginas lascivas do conto, o
desvario juvenil, a significante saudade da minha terra natal na página dorida
do asilo ditoso de uma mente errante que se devaneia no mundo e que levanta sob
a odalisca causticante dos raios a beijar o travesseiro.
Distanciei-me
do computador. Era manhã, já era tarde, não era noite. Nada mudou. Estava
trancado no lugar que não era o lugar que desejava. A lâmpada fluorescente se
espreguiçava e parece pedir para dormir. Parecia um velador noturno, nas
vigílias da noite sobre as idéias, sob a preparação do conto, sob o computador
ligado sob a mesa.
Pensativo,
lendo e relendo os parágrafos desse conto, desse drama obscuro, numa noite de spleen
na capital. O conto heroico da saudade na rima insônia digitada por dedos sonolentos. Alguma coisa, eu sei que
ficou. Alguma coisa será eternizada, alguma coisa restava contar. Desci o mouse pela tela e desliguei. Faltava
para você o meu boa noite.


Seu conto é exatamente o que buscava para um trabalho com metalinguagem. Parabéns, será devidamente referenciado!
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