CONT. 01 DO CONTO - CRIAÇÃO LITERÁRIA
Trama
Tomando
o vocábulo "trama" no sentido de urdidura ficcional, sinônimo
aproximado de "enredo" ou "intriga", nota-se que a trama do
conto caracteriza-se por sua linearidade. O súnile com a fotografia de novo se
impõe: o contista parece apostado em lograr um flagrante da realidade,
transfundir em palavras a intriga condensada, aparentemente estática, da
fotografia.
Como
vimos, o tempo do conto segue, as mais das vezes, as batidas do relógio ou as
marcas do calendário: o leitor "vê" o episódio dramático acontecendo
como na vida real ou no retângulo da fotografia.
Ao
principiar, a narrativa situa-se na vizinhança do epílogo, de modo que apenas
conhecemos os momentos contíguos ao clímax dramático. Tudo o mais, porque
irrelevante para a cena focalizada, é relegado ao esquecimento ou a segundo
plano. A precipitação preside
o conto desde a abertura: a trama se organiza segundo um andamento que lembra o
ritmo subjacente aos eventos do cotidiano, cujos pormenores se acumulam numa
ordem "objetiva", de fácil percepção.
Os
ingredientes do episódio, franqueados plenamente à contemplação do leitor,
carregam um nó dramático, que não consiste em artifício técnico, como nas
histórias policiais, em que a descoberta de um cadáver serve para
"divertir" a atenção' do leitor: no conto, o enredo monta-se às
claras. A semelhança da vida diária, que
pretende espelhar ou flagrar, de um momento para outro acende-se o estopim e o
conflito explode, de acordo com o princípio das unidades dramáticas.
A
grande força do conto reside no jogo narrativo para prender o leitor até o
desenlace. Este, quando enigmático, surpreende-o deixando-lhe uma semente de
meditação ou de pasmo ante a nova situação descortinada. E a narrativa, dotada
de "uma insistente e perene fluidez que escapa das mãos",
suspende-se, fecha-se, completa, inconseqüente. Contos há sem enigma ou que o
apresenta diluído ao longo do relato, como na literatura moderna.
Ponto de vista
o
ponto de vista, ou ângulo visual, em que se coloca o escritor constitui
elemento de especial importância na estrutura do conto, novela ou romance.
Também chamado de foco narrativo por Cleanth Brooks e Robert Perm Warren,
responde à pergunta: Quem testemunha a história? Quem conta a história? Em que
perspectiva se situa? Esses dois críticos norte-americanos estabeleceram um
quadro sinótico formado por quatro focos narrativos:
1)
A personagem principal narra sua história.
2)
Uma personagem secundária narra a história da personagem central.
3)
O narrador, analítico ou onisciente, conta a história.
4)
O narrador conta a história como observador. Os focos 1 e 4 implicam análise
interna dos acontecimentos, ao passo que os outros dois dizem respeito à sua
observação externa. Por outro lado, nos focos 1 e 2, o narrador funciona como personagem da história, enquanto nos
outros casos se coloca fora dos acontecimentos, como observador, ou tem livre
acesso a todos eles com igual facilidade. .. Cada um dos focos apresenta
simultaneamente vantagens e desvantagens para o ficcionista: ora favorecem, ora
limitam a possibilidade de visualizar o panorama em que a narrativa
transcorre.
Não
sendo nenhum deles completo e perfeito, o autor optará por um que lhe faculte
realizar o acalentado intento: narrar-nos uma história convincente. E se o foco
narrativo se ajusta ao enredo, está satisfeita a condição fundamental nesse
terreno, uma vez que há bons e maus contos empregando indiferentemente os
vários pontos de vista: bons, quando se processa íntima adequação entre o ponto
de vista e a intriga; maus, quando há inadequação.
O
contista não engendra o foco narrativo, como se se tratasse de um recurso
autônomo, aplicável aleatoriamente a qualquer enredo. Ao compor-se, cada
narrativa traz implícito o foco narrativo: é inimaginável uma história sem foco
narrativo, ou este sem aquela. Narrar é um exercício criador que
pressupõe a idéia de ponto de vista. Idêntico fenômeno ocorre com a estrutura:
o autor não forja a estrutura separada da intriga; à maneira do esqueleto do
recém nascido, a estrutura se organiza como totalidade no próprio ato de
construir a narrativa.
O
trabalho posterior de refundição da escrita, ou o apuro da linguagem, não
modifica a estrutura, ainda à semelhança da ossatura humana, cuja
constituição básica permanece inalterada no curso da vida. O conto malogra
quando o autor se empenha em rebuscar fórmulas técnicas porventura adaptáveis à
narrativa. No tocante aos focos narrativos, pode-se retomar o comentário feito
noutra altura: quando o conto é conto, estabelece-se coerência intrínseca entre
a estrutura, o ponto de vista e o assunto; quando embrião ou capítulo de
romance, torna-se evidente o descompasso.
1.
No primeiro foco narrativo - em que a personagem principal conta a
história - o narrador emprega a primeira pessoa (do singular ou do plural).
Limita-se, assim, a área da fabulação, restringindo-a ao narrador, pois é de
sua história que se trata: a personagem interessada na história - visto
ser o protagonista central- nem sempre é a mais indicada para narrá-la, pois a
interpretará de seu ângulo pessoal, o que implica uma visão parcial da
realidade. Por outro lado, quem ou o que nos garante que seja dotada de
recursos intelectuais, psicológicos, etc., para se conhecer a ponto de nos
confiar sua história com desprendimento e segurança. Ainda que a história gire
em torno de um terceiro, como no segundo foco narrativo, opera-se
análoga restrição, desde que se faça uso da primeira pessoa.
O
narrador peca por estreiteza, porquanto se vê impossibilitado de conceder às
demais personagens a mesma atenção que dispensa a si próprio. A bem da
coerência, acaba por fazer-se único centro de interesse de situações em que
outros protagonistas poderiam, a seu modo, acreditar-se com igual direito. E se
não lhes atribui esse direito é por estar voltado apenas para si próprio; caso
contrário, a visão dos fatos seria alterada. Tal individualismo pode
comprometer a plausibilidade da história: o narrador tende a oferecer-nos de si
uma imagem otimista e dos outros, negativa, ou menos boa; juiz em causa
própria, é incapaz de analisar os acontecimentos com isenção de ânimo.
Pode até julgar-se núcleo da fabulação por egoísmo, que o impede de atentar
para o drama vivido pelos demais participantes. Para evitar essa redução
óptica, era preciso que o narrador funcionasse como alter ego do contista, ao
menos na medida em que também se interessasse por divisar o mundo como as
outras personagens.
Eis
porque a escolha do foco narrativo é, até certo ponto, arbitrária. Atestam-no
os contos que, embora realizados plenamente, ainda poderiam ser reescritos.
Exemplo disso é "Missa do Galo", que Osman Lins e Julieta de Godoy
Ladeira remontaram de ângulos diferentes, sugeridos pelo conto: o de Conceição
e o do narrador-protagonista na versão machadiana (imputados no .. Suplemento
Literário" do Estado de São Paulo, dezembro
de 1963). Como se tratasse duma experiência praticada por contistas talentosos,
acabou resultando em duas narrativas de primeira categoria.
Aos
dois autores se juntaram Autran Dourado, Lygia Fagundes Teles e Nélida Piiíon,
com o mesmo intuito, e publicaram em volume coletivo (Missa do Galo.
Variações sobre o mesmo tema), no
término de 1977, o fruto de sua criação. Machado deixara em aberto perspectivas
narrativas que colaboram para adensar o clima meio onirico em que transcorre
"Missa do Galo": apesar de conto de memória, o protagonista
reconstituiu com realismo a cena, atento aos mínimos gestos da interlocutora. O
episódio se passa com ele,
mas o ponto de vista pode ser também o da mulher, do marido e mesmo da mãe, de
presença fugaz, mas, quem sabe? espectadora involuntária do diálogo malicioso
entre a mulher de trinta anos
e
o adolescente, minutos antes da missa do galo.
Mas
o e~rego da primeira pessoa oferece vantagens. A narrativa parece ganhar maior
verossimilhança, visto prescindir de intermediário:
a personagem que "viveu" a história conta-a diretamente ao leitor,
assim anulando a distância entre ( ambos e dando ao leitor a impressão de
ser o exclusivo confidente do caso.
O
impacto resultante, porque direto e sutil, confere verdade à narrativa, em
resultado de ser o herói quem a transmite. É fácil compreender o fascínio
da comunicação imediata entre narrador e leitor, quando nos afastamos da ficção
e retomamos à vida real. Os dramas adquirem eloquente força
quando são narrados pelos seus protagonistas: se um terceiro os relata,
alguma coisa da vivacidade se perde ou se atenua, obrigando-nos a solicitar o auxílio da
imaginação para suprir o calor natural que animaria a confidência do
protagonista.
O
emprego da primeira pessoa ainda pode conferir unidade à narrativa, graças à
concentração de efeitos, e à plausibilidade correspondente. Um dos
requisitos essenciais para que o conto se realize - a presentividade -,
se concretiza igualmente no uso da primeira pessoa.
O
leitor tem a impressão (de resto falsa, se atentarmos em que sempre os
fatos já aconteceram ao narrador quando os comunica) de estar sendo participado
de ocorrências contemporâneas à leitura, como se a realidade viva lhe
fosse revelada em pleno processo dinâmico.
As
coisas se lhe tornam presentes num
jacto, em resposta às expectativas da curiosidade; tudo se passa como se
lesse num jornal a narrativa dum acontecimento transcorrido no mesmo dia, ou
mais tardar, ontem. Conquanto pretérito o tempo verbal, a sugestão de
presente mantém-se, em conseqüência de o foco narrativo estar na primeira
pessoa. Sem maior esforço da imaginação, o leitor acede à história graças
ao contato direto com o herói.
Não
raro, este se dirige expressamente ao leitor, ou interlocutor, como se
narrasse um caso a determinado ouvinte, que é sempre a pessoa que naquele
momento frui na narrativa. Expediente primário, ao empregá-lo o
ficcionista tão-somente descortina e desenvolve um traço imanente ao conto
desde as suas primitivas formas.
2.
A atmosfera de oralidade ausenta-se nos outros focos narrativos. Mesmo o
segundo, que pode valer-se da primeira pessoa, despoja-se dela: como se
trata duma personagem secundária que conta a história da principal, a
distância entre o leitor e a narrativa aumenta, dado que os acontecimentos se
passam com uma terceira personagem.
O
processo implica objetividade na fabulação, pois quem conta foi ou é
testemunha dos acontecimentos. Mas podem-se fazer restrições semelhantes
àquelas do foco anterior: que garantias de isenção nos dá a personagem?
que qualidades de observador, além de equilíbrio psicológico, deve possuir
para se arvorar em narrador? Mais ainda: para descrever o ápice dramático
da história, teria de participar dele, e, portanto, distorcê-lo segundo seu
livre arbítrio ou guiada pelas razões e sensações de momento.
É
certo que a personagem secundária pode representar, mais do que as outras,
um disfarce do autor mas também é verdade que, por secundária, seu testemunho
não merece fé. Não seria atentar contra a verossimilhança torná-la
partícipe - e, por conseguinte, interessada quando seu papel é o de
observador? E não lhe atribuindo presença direta na cena, como o ficcionista
poderia erigi-la em narrador? Por apresentar mais dificuldades que
vantagens, o segundo foco narrativo é pouco empregado. Watson, personagem
das histórias de Conan Doyle, exemplifica muito bem as limitações desse recurso
técnico.
3.
Os outros dois tipos de foco narrativo acentuam ascendentemente essa vantagem,
ao mesmo passo que lhe tornam vantajoso o aspecto contrastante. No
terceiro, o narrador assume-se demiurgo: acompanha as personagens a todos
os lugares, penetra-lhes na intimidade, como um agudíssimo olho secreto
devassa-lhes o mundo psicológico, esquadrinha-lhes o labirinto do
inconsciente, conhece-lhes, enfun, as mínimas palpitações. Todavia, as
proporções físicas do conto e especialmente suas características intrínsecas
impedem que a sondagem no interior dos protagonistas mergulhe além das
primeiras camadas. na verdade, como acentuam C. Brooks e R. P. Warren, a
onisciência, além de relativa, se limita à personagem principal do conto.
Em
troca, o ficcionista pode colecionar quantos aspectos julgue necessários à
compreensão da história, como se esta se estruturasse por conta própria, e
fizesse do autor o instrumento para se construir. A fabulação perde em
impacto, por fazer-se indireta, distante do leitor, mas ganha em situações e
pormenores. Adapta-se melhor a narrativas lentas, de gênero intimista ou
introspectivo: a dosagem das aproximações psicológicas, aliada a outros
recursos, como interpolações dissertativas no fio da história, serve de
experiente valorizador dessa modalidade de foco narrativo. Machado de
Assis fornece-nos o exemplo, ainda uma vez, com .. A Cartomante".
Conto
na terceira pessoa, de narrador-onisciente, o ficcionista tempera a
impessoalidade com intervenções que, em vez de roubar verossimilhança,
emprestam vivacidade e presentividade ao relato: o emprego do
diálogo direto, nas ,formas verbais do presente, constitui outro
ingrediente positivo: .. Cuido que ele ia falar, mas reprimiu-se. (...) E
digo mal, porque negar é ainda afirmar, e ele não formulava a incredulidade;
diante do mistério, contentou-se em levantar os ombros, e foi andando. (ou)
A velha caleça de praça, em que pela primeira vez passeaste com a mulher
amada, fechadinhos ambos, vale o carro de Apolo. Assim é o homem, assim são as
cousas que o cercam. Uma
impressão negativa pode deixar no leitor o narrador-onisciente:
é inverossímil que alguém possa ver tudo e todos.
Mas
a técnica empregada por Machado, ou a de tornar o conto um texto falando por
sua conta e risco, independente do narrador, pode abreviar o embaraço. Ou,
com mais eficácia, sugerir que o narrador se arme em observador, como no
quarto ponto de vista. 4. Fazendo-se observador, o narrador supera aquele
óbice, mas cria outro: vê-se compelido a contar apenas o que registrou.
Por pouco, a restrição óptica assemelha-se à do segundo ponto de vista e só não
se identifica com ele porque a faixa de observação é maior: o narrador, ou
o autor, evita de intrometer-se na história, e desenvolve-a como
observador que pôde vislumbrar o máximo segundo a perspectiva em que
se coloca, porém dentro dos limites de suas características pessoais.
Diferindo
em grau do tipo precedente, esse enfoque suspende ou diminui a penetração
psicológica em favor da ação, de modo a tornar a narrativa mais linear,
menos complexa. "Cantiga de Esponsais", de Machado de Assis, situa-se
no caso: contém a história dum músico que, desde o casamento, procura
compor para sua esposa a melodia que expressasse toda a alegria conjugal;
mas ela morre, e o homem passa a vida inteira à procura da frase musical que
lhe servisse de símbolo ao sentimento; já velho, insiste debalde no
intento, até que um dia uma recém-casada vizinha começou a cantarolar à
toa, inconscientemente, uma cousa nunca antes cantada nem sabida, na qual cousa
um certo lá trazia após si uma linda frase musical, justamente a que mestre
Romão procurara durante anos sem achar nunca. O mestre ouvia-a com
tristeza, abanou a cabeça, e à noite expirou.')
De
aparência translúcida, a história é contada por um observador identificado com
o narrador. As primeiras linhas o dizem às claras: Imagine a leitora
que está em 1813, na Igreja do Carmo, ouvindo uma daquelas boas festas antigas,
que eram todo o recreio público e toda a arte musical. Sabem o que é uma
missa cantada; podem imaginar o que seria uma missa cantada daqueles anos
remotos. Não lhe chamo a. atenção para os padres e os sacristãs, nem para
o sermão, nem para os olhos das moças cariocas, que já eram bonitos nesse
tempo, nem para as mantilhas das senhoras graves, os calções,
as cabeleiras, as sanefas, as luzes, os incensos, nada. Não falo sequer da
orquestra, que é excelente; limito-me a mostrar-lhe uma cabeça branca, a cabeça desse velho
que rege a orquestra, com alma e devoção. Dados
os limites específicos do conto, o autor é obrigado a eleger um foco para cada
narrativa. Suas intromissões ocasionais não alteram o quadro, visto lhe
respeitarem os sinais identificadores.
No
conto moderno, porém, é usual a coexistência dos enfoques. Com isso,
espera-se remediar as desvantagens apontadas e conferir verossimilhança à
fabulação, de modo que' 'fale por si", "se escreva sozinha", ou
reflita o caleidoscópio social: o autor sai de cena para que se expressem
todos os participantes da narrativa. Não se sabe com nitidez aonde podem
levar tais experiências; o certo é que procuram, no espaço do conto, uma arte representativa
da "condição humana", um retalho do cotidiano. Em última
instância, o ficcionista é onisciente ainda quando concede às personagens a
faculdade de conduzir a narrativa segundo seu prisma óptico. É que os
pontos de vista constituem expedientes, disfarces teatrais, com que o
autor dissimula que conhece tudo quanto ocorre na suas obras, ao menos por ser
quem as construiu.
Decerto,
a colaboração do inconsciente deve ser ponderada, mas o ficcionista não labora
em transe. Mesmo nas ocasiões em que a personagem atua fora das balizas
imaginadas pelo criador, este continua onisciente, na medida em que acaba
por se dar conta, guiado pela intuição, do conteúdo que se lhe
apresenta como novo e surpreendente. Enfim, onisciente porque a obra nasce
dele, entendendo-se onisciência não como sinônimo de consciência plena,
lucidez critica, mas como conhecimento amplo, pela memória,
pela imaginação e pela reflexão, dos materiais da ficção: o Homem, a
Natureza, o Tempo e a História.
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